segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Concerto Divino


A sala estava cheia de olhares ansiosos pelo início dos acordes serenos e esplêndidos, que remexem os sentimentos alojados numa concavidade escura, nas profundezas do inexplicável, provenientes das mãos da diva e dos três músicos de luxo que a acompanham. Sempre com o burburinho das eleições autárquicas a borrifar o ar.
Ao meu lado, uma cadeira vazia suspira Memórias de Elefante (desculpe o plágio, Sr. António Lobo Antunes), banhada nas mais profundas tristezas, que me comoveu. Fiz um gesto ligeiro para a reconfortar, mas, sem saber como, trespassei as brumas da ilusão e vi-a a voar. Voamos, como dois velhos conhecidos, como dois amigos íntimos, até às incertezas da geografia.
“Desculpe, está ocupada?”, reviro os olhos e relembro-me. “Não, não, pode sentar-se”.
Aplausos. O concerto começou.

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