Quarta-feira, 21 de Março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


Poeta plural como o universo. Sentia com a imaginação. Prendeu a alma do pensamento e escreveu a poesia dos lugares comuns, das mentes inquietas, do Portugal sonhado, do amor adiado. Poeta que ainda hoje respira nas ruas, porque os seus versos marcam os nossos infinitos. (dia mundial da poesia. dedico este texto ao FERNANDO PESSOA)

Terça-feira, 20 de Março de 2012

ADEUS

E a voz morreu e o corpo sucumbiu às lágrimas que o devorava. As mãos das ervas, as amigas daquele corpo, estão debruçadas no caixão. Em volta, o silêncio reza. Pouso os joelhos na planície da tristeza e procuro nas prateleiras da memória as reminiscências que me façam sorrir. Pouco depois encontro-as nos fundos do compartimento, empacotadas em partículas de pó. Retiro o peso do tempo e volto aos tempos da juventude, onde nunca deveríamos ter saído.

Segunda-feira, 19 de Março de 2012

DIA DO PAI


As rectas e as curvas das ruas estão carregadas de calor. O sol sabe que hoje é o dia do pai. O meu está ali, sentado na poltrona dos reis. Diz que estes dias foram feitos para concentrar beijos e mimos nas bochechas dos felizardos. Não lhe refuto. Sei que ele tem razão. Também gosto de os receber quando o calendário diz-me que faço anos. Sem delongas, porque estas coisas não devem dançar com as hesitações ou os desperdícios de tempo, atiro os lábios para o púlpito. A minha mãe, agarrada às madeiras da porta, fica com os beiços descaídos. Dou uma gargalhada e digo-lhe que os ventos do meu coração também chegam para ela.

Sábado, 17 de Março de 2012

DIA

a chuva cresce e a terra molha-se. parece que se lava do calor que a tem maguado. os miúdos, de narizes encolhidos na tristeza e de bolas ao peito, espreitam o cinzento do dia. hoje não vai haver bulha. abro o livro do saramago e releio o impossível: "ensaio sobre a cegueira" e saboreio os sumos que as metáforas transportam.

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

SUGESTÂO


«O assassinato de duas prostitutas, no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso sindicato do crime. A história passa-se em boîtes e bares sórdidos, em sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de casais fazendo sexo.» Do posfácio de Mario Vargas Llosa

Quinta-feira, 15 de Março de 2012

NO CAFÉ


De manhã pouso os respiros nas teclas do computador e construo frases. Os movimentos do café não me afectam. Mas os beijos das crianças pedem-me um minuto de atenção. Concedo-lhes. Ao fundo, o céu e a terra brincam com a infância, enquanto os olhos dos adultos apontam que o futuro juntará aquelas almas. Que infelizes! Ainda não sabem andar e já a hipoteca lhes diz que o caminho a seguir é aquele. Para não me aborrecer, levanto-me e abro a porta. Quero que o vento pontapeie o ócio.

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

UMA MANHÂ


Os primeiros braços da manhã perfuram os sonhos das cabeças, que mastigam os sorrisos ou as tristezas. As cristas das folhas respiram alegrias, pois já podem sentir a eloquência do sol. No empedrado, os carros estão cobertos por partículas da noite. Fecho a janela. Deixo que a aldeia se vista de luz. Depois de sentar a sonolência na cama coço a anarquia. O cabelo é uma floresta devastada por uma tempestade, pelo menos é o que me diz a parede de vidro. Do outro lado do conforto, sinto um movimento. Olho para esse ponto. De braços a desenhar preguiças no ar, a desconhecida é uma Primavera. Estico o desassossego e toco na ponta da volúpia, “Malandro!”, sorrio. É um gesto que sente a loucura do desejo. Ela pressente que a manhã lhe vai dar muito trabalho. Mas não está com vontade de ser escrava da minha anca. Por isso salta para os fundos do quarto. Fico triste e perco a elasticidade do corpo.

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

QUINTA


A tarde respira os últimos suspiros e as galinhas esticam a preguiça. De quando em quando, o peito do galo acaricia as costas das meninas. A velhota, que é uma amiga do meu coração, dá-lhe uns bufos e atira-lhe uma escarradela grossa. O tipo, de olhos satisfeitos, levanta o bico e vira-lhe a repugnância. Perante tal comédia, os meus dentes constroem Primaveras. Há muito que não sugava um filme tão eloquente. Indiferente a isto, o gato pousa o cansaço na pedra e coloca a boca no leite. Aos poucos, o prato de inox fica com a solidão a mordiscar-lhe o nariz. Na rua, os cavalos levam os bojudos para as quintas que proliferam ao longo do monte, onde os ventos namoram com as árvores. Por fim, a noite crava-se na crista de todas as coisas. As estrelas, do tamanho de olhos, agarram-se às almas que saíram dos corpos adormecidos e dançam uma dança dos sonhos. Sorrio. Gosto de ver estas coisas. Quando o frio coze-me a carne, vou para o quarto e tiro os pés do chão.

Sábado, 10 de Março de 2012

AURORA E AS NUVENS

A crista dos montes namora com a aurora. fazem uma dança com as cores que nem em filmes se viu. mas os espirros das nuvens encobrem as delícias naturais.

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

SUGESTÃO


«Arranjei o covil e parece que me saí bem. Do exterior vê-se apenas um grande buraco, mas na realidade esse buraco não conduz a parte nenhuma (…) Porém, a uns passos do buraco, abre-se a verdadeira entrada, coberta por uma camada de musgo, que eu posso levantar: se há neste mundo alguma coisa segura é este lugar.»

Quinta-feira, 8 de Março de 2012

JOGO


dentro do pavilhão, as vozes comem golos e vociferam com as derrotas. é uma forma de transpirar os desassossegos do dia. quando o relógio nos mostra que o cansaço é o capitão do nosso corpo, vamos para o balneário e despimos os nervos.

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

NUVENS


lá fora, o portão de entrada faz barulho. parece um rinoceronte a namorar. dentro de casa, puxo os cobertores até às orelhas e espreito os suspiros da noite. quando o silêncio é imaculado, engulo o cansaço e adormeço. instantaneamente, o meu corpo salta para um miradouro, onde vejo as nuvens a espremer a tristeza. entristeço-me. não gosto de sugar os aromas da desilusão. mas o vento da comédia agasalha a minha língua com anedotas. por causa desses raios de sol, o céu azul desce até à terra.

Terça-feira, 6 de Março de 2012

ONDAS


Ao fundo, aos saltos, as ondas espreitam as nossas bocas. Como não sabem ler gestos, as obstinadas sobem a rua e enchem os buracos com ansiedades. Os nossos olhos, ligados às correntes do dia, sugam os desígnios do mar. Sorrimos. Não estamos habituados a ser estrelas. Por fim, quando o horizonte constrói a noite, erguemos os corpos e contamos à água o nosso segredo: "A luz do amor incendiou os nossos beijos."

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

MANHÃ


levo a noite para a cama dos sonhos e desperto a aurora. ao ver o meu gesto, o azul do céu mistura-se com o amarelo. os senhores dos galinheiros, amedrontados com as cores do paraíso, libertam o silêncio da voz e empinam os pescoços. é uma forma de exigir que o sono não fuja dos corpos. perto das cabeças das construções, os olhos sonolentos cospem impropérios aos imperadores. mas a sapiência aprendeu a não responder a desaforos. indiferente a estas insignificâncias, a manhã pontapeia as estrelas e afaga as nuvens.

Domingo, 4 de Março de 2012

RUAS

os bolsos dançam com o silêncio e os beiços mergulham na tristeza. esta é a realidade das ruas.

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

NOITE

a noite caiu. abro a janela e meto a cabeça a espreitar a rua despida de vozes. parece que o navio do silêncio levou a algazarra do dia. encosto os cotovelos no parapeito e conto estórias às nuvens. é uma forma de me sentir acompanhado. mas o som dos sinos da igreja diz-me que os olhos já deviam de estar fechados. fecho o rectângulo e meto-me nos sonhos como quem beija uma fonte.

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

SUGESTÃO


Este é um pequeno livro de Filosofia sobre a origem e as consequências do mal, que tenta explicar por que razão a acção de um homem com poder que humilha outro, retirando-lhe direitos, confere prazer interior a esse homem. A motivação do autor prende-se com o facto de, por exemplo, um ministro que corta do orçamento as verbas para transplantes estar indirectamente a contribuir para a morte de vários indivíduos, sem, no entanto, alguém poder dizer que esse ministro era um homem mau. Mas, na verdade, as consequências do seu acto têm o mesmo efeito de um assassínio. Livro polémico, que nos ajuda a perceber que o mal não é só aquilo que pensamos.

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

SORRIR

De manhã estive no miradouro, onde os cafés satisfazem as gargantas ensonadas. É um sítio calmo, sossegado; é um paraíso no meio da anarquia. Se eu mandasse no corpo do mundo, mandava um terramoto abater esta cidade. Poupava apenas as pessoas e algumas árvores, que de longe parecem poemas. De tarde vou continuar a juntar palavras. Tenho um romance para terminar. À noite, quando a madrugada estiver a sair da cama, visto o pijama e pego num livro. Espero que a aurora me veja a sorrir.

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

MAR

Estou sentado no areal. Ao fundo, os dois azuis misturam-se elegantemente. Parece que constroem um tecido único. Perto dessa eloquência natural, os versos e as rimas mergulham na água calma e procuram-me, porque a folha de papel que seguro nas mãos é uma cama que atrai poemas.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

IDEIA SIMPLES

O homem é dono do seu silêncio e escravo das suas palavras.

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

CORRENTES D' ESCRITAS


E o pano fecha o mundo das palavras. Os livros, de orelhas descaídas, choram sobre as mesas, enquanto a multidão limpa a tristeza e evapora-se na noite que engoliu a cidade. Ao fundo, a crista do mar limpa as lágrimas do dorso e esconde as memórias nas sombras dos milagres. Ergo os sacos e sobrevoo os abraços que se despedem e pedem para que o reencontro não ultrapasse uma dúzia de dias. Perto de casa, a muitos quilómetros do paraíso, retiro as fotografias da memória e revejo a eloquência das vozes e dos gestos que polvilharam os leigos com reencontros dos porquês. Pouso os livros na secretária, dou beijos sumarentos nos rostos dos meus pais e vou até à varanda. A noite está sossegada. No céu, as nuvens recortam a escuridão como se desenhassem um filme cómico. Rio. Há muito que não me divertia tanto. Mas o frio é uma faca que me espeta na carne. Dou saltos, digo palavrões e meto-me na cama, onde encontro uma folha de papel. Desdobro-a e leio a frase: “As Correntes D’ Escritas são olhos que nos ensinam”, desloco os cantos dos lábios e peço a tudo para me trazer a próxima edição.

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

ROMANCE

"Ao longe, ouço algumas vozes a contar exageros a outras. As mais desbocadas, afirmam que eu sou um séquito do Senhor. E como tal, o mal tem os dias contados. Talvez por isso, alguém pediu para chamar o padre. Agradecer as boas novas lá de cima é um dever constitucional. Porém, quando penetro no meio da floresta, perco o fio da história, porque as folhas hasteadas dançam com os braços do vento"

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

CARNAVAL

as máscaras mergulham na ironia e os corpos navegam na praça. haja disfarces...!

MALUCO

o carro já cuspiu alguns sinais de vida, mas o tipo ainda precisa de mimos e de pastilhas. talvez na terça-feira, o tinhoso, que me leva o couro e o cabelo, já esteja com saúde. se não estiver, dou-lhe dois berros e dois pontapés e acaba-se as esquisitices. ai o menino!

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

MÃOS


Depois do almoço, as pernas debruçam-se na varanda e apanham sol. O dia está quente e as nuvens são apenas lembranças. No asfalto, os cães estendem o cansaço e bocejam como os doentes do sono, “Ó Silva, não te esqueças da bejeca”, “Está prometido, caro amigo”, o senhor Jaquim, homem forte e obeso, calcorreia o sossego. Quando lhe envio as ditas palavras, o manhoso, de olho esticado, aponta-me o dedo indicador e diz-me: “Se falhas, levas! Já sabes”, sorrio, enquanto ergo as mãos, “Ó home, está prometido, está prometido! Não há que enganar”, “Assim é que se fala, carago!”, mas perco o sorriso, porque vejo a velhice a dilacerar-me a pele. Escondo as mãos e tento assobiar.

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

A LEITURA DA NOITE


Pássaros com dentes passeiam-se nas línguas pretas, que são estradas sinuosas e perigosas, ao mesmo tempo que as janelas e as varandas sonham com devaneios. No céu, o manto preto está furado por resmas de olhos brancos. Parece que a assembleia dos deuses está reunida. Junto à Praça dos Montes, dois bêbados abraçam-se amigavelmente e dois mistérios dormem ao pé da estátua. A crise, esse flagelo do capitalismo, já abateu mais corpos. Arrepio-me, não gosto de ver o cemitério a encher-se, e fujo. Quando me aproximo da câmara, as luzes apagam-se e a escuridão agarra-se aos objectos como se fossem caneladas do diabo. Abro a porta e saio da noite.

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

AMOR

os beijos andam por aí. é provável que depois do jantar, a noite transforma-se num pântano de apalpões e de maluquices. porém, a madrugada irá obrigar as aves a ir para os ninhos e irá permitir à monotonia enlouquecer novamente as gargantas. amanhã, o dia talvez traga a separação.

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

SILÊNCIO

os carros esburacam o silêncio da cidade. mas é possível pensar que o mundo é composto por nervos sossegados, porque os ricos ditam regras que ninguém quer cumprir. será preciso ficar sem pão para existir uma arma universal que ponha fim à ditadura?

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

MALUCAS

tenho as mãos estufadas. parece que as tolas morderam o frio ou foram ao frigorífico sem me consultar. acho que o bicho da gripe gosta de me chuchar a carne ou as pontas dos dedos. se o apanho, dou-lhe cabo do focinho.

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

SUGESTÂO


Romancista inglês nascido em 1812. Publicou obras em que denunciava a vida difícil do operário na sociedade industrial emergente (como Grandes Esperanças e Tempos Difíceis) e, em particular, a miséria das classes sociais mais baixas e a precaridade da infância (em Oliver Twist, especialmente). Escreveu também um muito popular Conto de Natal. Morreu em 1870

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

ALGAZARRA


Perto da igreja, as vozes apoderam-se do silêncio como se fossem guerreiros. O Presidente de Junta, homem de barbas brancas e de barriga proeminente, encosta-se ao muro e ergue as mãos até ao cabelo aflito. Parece uma ave em cima do crude. Mas o sinal do almoço, que soou vagarosamente das fábricas, varre a algazarra e traz o silêncio. A suspirar de alívio, o sujeito sacode o casaco e apanha as queixas que pintam o passeio de outra cor, “Se eu sabia o que sei hoje, não me tinha candidatado!”, e empurra-se para a tasca do Zé, onde novas facas estão à sua espera.

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

CHARLES DICKENS


Charles Dickens nasceu há 200 anos


Duas exposições em Lisboa assinalam terça-feira, dia 07 de Fevereiro, o bicentenário do nascimento do escritor Charles Dickens, criador de personagens como David Copperfield ou Oliver Twist, que retratou o quotidiano social da Inglaterra “vitoriana”, da segunda metade do século XIX.

Uma é iniciativa da Biblioteca Nacional e reúne edições portuguesas de Charles Dickens, na Sala de Referência, a outra, “Dickens nas Colecções das Bibliotecas Municipais de Lisboa”, fica na Hemeroteca Municipal, ao Bairro Alto.

Charles John Huffam Dickens que experimentou o jornalismo e, para garantir o sustento da família, trabalhou numa fábrica, nasceu em Portsmouth a 07 de fevereiro de 1812, completa-se terça-feira 200 anos.
Dickens começou a editar em 1833 em fascículos no jornal Monthly Magazine a ficção “A Dinner at Poplar’s Walk”, que veio a editar depois em livro.
Em Portugal, segundo nota da Biblioteca Nacional, a primeira tradução de uma obra de Dickens foi publicada em 1833. Inicialmente são traduzidas “várias narrativas breves que, retiradas em grande parte da obra ‘Sketches by Boz’, são também publicadas em folhetim, sobretudo na década de 1860”, refere a mesma nota.

Ainda no século XIX são apresentadas “as primeiras traduções de cinco dos seus romances: ‘Oliver Twist’ (1837-1839), ‘The Life and Adventures of Nicholas Nickleby’(1838-1839), ‘A Tale of two Cities’ (1859), ‘Great Expectations’ (1860-1861) e ‘The Posthumous Papers of the Pickwick Club’ (1836-1837)”, refere a mesma nota.

A mostra bibliográfica na sala de referência da Biblioteca Nacional, ao Campo Grande, é organizada em colaboração com o Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa e reúne as várias edições nacionais da obra do escritor inglês, de "Nicholas Nickleby" a "Grandes esperanças", "Oliver Twist", "Conto de duas cidades" ou "Canto de Natal".

O escritor teve maior proliferação editorial portuguesa nas décadas de 1940 e 1950. Segundo a Biblioteca Nacional, “entre os seus maiores sucessos entre nós destacam-se as mais de vinte traduções diferentes de ‘A Christmas Carol in Prose: A Ghost Story of Christmas’ (1843), bem como as dezassete traduções diversas do romance ‘Oliver Twist, or, the Parish Boy’s Progress’ (1837-1839)”.

O bicentenário do nascimento de Charles Dickens é pretexto para a Hemeroteca Municipal, ao Bairro Alto, organizar um conjunto de iniciativas que “revisitem a vida e a obra de um dos mais importantes escritores ingleses do século XIX e da literatura mundial”, segundo nota da instituição lisboeta.

A primeira dessas iniciativas é inaugurada no dia 07 de Fevereiro. Trata-se de uma exposição bibliográfica e documental, “Dickens nas Coleções das Bibliotecas Municipais de Lisboa”, que estará patente ao público até 17 de Março, no átrio e escadaria Hemeroteca.

Também no dia 07 de Fevereiro, pelas às 18:00, na Biblioteca-Museu República e Resistência – Espaço Cidade Universitária, ao bairro de Santos, em Lisboa, o cineasta Lauro António apresentará a palestra “O Universo de Charles Dickens no Cinema”.
Refira-se que João Botelho realizou, baseado na obra homónima de Dickens, “Hard Times, for these Times” (1854), o filme “Tempos Difíceis, este tempo” (1988), com música de António Pinho Vargas e a participação, entre outros, de Henrique Viana, Julia Britton, Eunice Muñoz, Ruy Furtado e Isabel de Castro.
(ES)

BEIJOS IMUNDOS


Caro padre,
Os pêlos dos jovens são esbeltos. Qualquer sabichão de higiene percebe que aquilo é trabalho de profissional. Compreende-se, são filhos do senhor Isaltino. O velho, que acende o charuto com notas dos pobres, tem pavor a detritos. Dizem as más-línguas que o velho já mandou matar empregados só porque o descuido obrigou-os a colocar as mãos no fato que nunca tira. Não sei qual é a veracidade disto, mas a ser verdade, aquele senhor é um tipo da pior espécie. Porém, como é o fulano de tal, a população da aldeia cumprimenta-o como se fosse um anjo. Até dá nojo, até dá vómitos. Não estou habituado a ver beijos injustos, não estou habituado a ver tanta bajulice imunda. Por isso, caro padre, peço-lhe que a homilia de domingo traga a visão para os cegos.

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

FRIO

A noite cresce no horizonte, enquanto as formigas, disfaçadas de pessoas, levam lenha para dentro de casa.

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

CORRENTES D' ESCRITA


MESA 1
Dia 23 de Fevereiro, quinta-feira, 17h00 (Auditório Municipal)
Tema: “A Escrita é um risco total” – Eduardo Lourenço
Participantes: Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Eduardo Lourenço, Hélia Correia e Rubem Fonseca
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

MESA 2
Dia 24, sexta-feira, 10h30 (Auditório Municipal)
Tema: “O fim da arte superior é libertar” – Fernando Pessoa
Participantes: Alberto S. Santos, Fernando Pinto do Amaral, José Jorge Letria, Luís Quintais, Sofia Marrecas Ferreira e Care Santos
Moderador: João Gobern

MESA 3
Dia 24, sexta-feira, 15ho0 (Auditório Municipal)
Tema: A Poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras
Participantes: Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina, Manuel Rui e Margarida Vale de Gato
Moderador: Ivo Machado

MESA 4
Dia 24, sexta-feira, 17h30 (Auditório Municipal)
Tema: Toda a literatura é pura especulação
Participantes: Eduardo Sacheri, Inês Pedrosa, João Bouza da Costa, Manuel Jorge Marmelo, Pedro Rosa Mendes e Rosa Montero
Moderadora: Bia Corrêa do Lago

MESA 5
Dia 24, sexta-feira, 22h00 (Auditório Municipal)
Tema: A escrita é um investimento inesgotável no prazer
Participantes: Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe
Moderador: Henrique Cayatte

MESA 6
Dia 25, sábado, 10h30 (Auditório Municipal)
Tema: Da crise da escrita não se pode fugir
Participantes: Carmo Neto, João Pedro Marques, Miguel Real, Sandro William Junqueira, Valeria Luiselli e Salgado Maranhão
Moderador: Onésimo Teotónio Almeida

MESA 7
Dia 25, sábado, 16h00 (Auditório Municipal)
Tema: “As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento” – Antoine Rivarol
Participantes: Eugénio Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Helena Vasconcelos, João de Melo, Luís Sepúlveda e Onésimo Teotónio Almeida
Moderadora: Maria Flor Pedroso

MESA 8
Dia 28, terça-feira, 18h30 (Instituto Cervantes, Lisboa)
Tema: Traços de crise enriquecem o texto literário
Participantes: Afonso Cruz, Ana Paula Tavares, Care Santos, Manuel Moya e Valeria Luiselli
Moderadora: Helena Vasconcelos

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

COISAS SIMPLES

Hoje é dia de coisas simples. Coisas simples como ir contigo ao restaurante, ler o horóscopo e os pequenos escândalos, folhear revistas pornográficas e demorarmo-nos dentro da banheira. Hoje é dia de coisas simples. Coisas simples como ir contigo à foz do rio.

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

ÁGUA CHOCA


“Ó Maria, preciso de água choca. Tenho as tronchudas a morrer”, “Vieste ao sítio certo, Manel”, “Ai sim?!”, “Sim, porque não há como a que tenho”, “A tua boca só diz louvores”, “Ela só diz verdades”, o homem, de braço erguido para o céu, estica o bigode e sorri, “A minha água choca só tem trampa e urina. Aquilo é que é! Até os ratinhos gostam de se lavar nela!”, mas o uivo da comédia desfaz o sossego da aldeia.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

SUGESTÂO


Sentados a uma mesa da taberna A Catedral, o jornalista Santiago Zavala conversa com o seu amigo Ambrosio. Estamos em Lima, na época ditatorial do general Manuel A. Odría (1948-1956), e dessa conversa acompanhada de cerveja emerge um Peru cruel, corrupto, desesperançado, matéria-prima ideal, portanto, para um romance que só um grande jornalista e escritor como Vargas Llosa poderia ter produzido.

Uma história esplêndida que reúne muitos dos ingredientes que fizeram a fama do autor peruano - as críticas ácidas, a irreverência, a rebeldia e o humor sarcástico.

Conversa n’A Catedral é a crónica de uma ditadura e da resistência possível graças à palavra. Uma aguda reflexão sobre a identidade latino-americana e sobre a perda da liberdade.

Um romance que, mais do que um marco na carreira literária do autor, é um ponto de referência inevitável na história da literatura universal.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

QUARTO


Os furos da persiana deixam passar os tiros do sol. Dentro do quarto, a escuridão mistura-se com eles. Parece que os ingredientes da penumbra dançam no espaço. Porém, pouco depois, um corpo rasga a pista com um movimento. Aguço o olhar e vejo a mão do meu coração, “Bom dia, amor. Dormiste bem?”, e aprendo a sorrir.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

NÂO

O corpo está deitado. A máscara do oxigénio tapa o rosto da moribunda, mas as minhas mãos destapam a terra que chora rios. Ajoelho-me, agarro-lhe nas mãos e coloco-as no meu peito: “Não deixes que as lágrimas caem na desilusão, porque a porta da morte não merece ajuda”, “Amo-te, querido”, olho para o mar que se passeia no chão e peço-lhe para não a levar.

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

MENTIR

Mentir continua a ser a melhor maneira de preservar o que é doloroso na verdade.

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

AREIA

A areia guarda o rasto dos teus pés, assim como os vestígios dum sexo embriagado pelo calor e perturbação do entardecer.

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

TASCA

"Um dia, tenho a certeza, não terei forças para me reconciliar com o mundo, nem vontade para regressar ao local onde nasci", "Bebe. A ressaca dos dias irá passar", e o errante bebe até sentir a almofada no rosto.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

ESCRITÓRIO

Sento-me à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória dos livros que li e amei e abro a mão. Com um gesto de ave pouso-a sobre o papel. E do meu interior, saem palavras: "Era uma vez..."

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

FÁCIL


Fecho os olhos e deixo que os meus lábios se agarrem a uma brisa do paraíso.

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

REFORMAS


LEMBRA-TE,
Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma. Hoje, todavia, estou seco como uma folha que se baloiça na pensão do Outono.
Saio. Fecho a porta e atravesso a solidão. Dentro da sala de estar, as emoções são cartões-de-visita. Ao pé da cascata, que é um tipo bojudo, daqueles que arrebentam camas sem reforços nas ilhargas, sento-me e peço um café, “Acha que sobrevivo com trezentos euros de reforma?”, e a voz sai-lhe. Parece um isco a procurar um conforto, “Nem com ginástica…”, “O fígado leva-me um terço e a sinusite outro tanto. O restante é para a sopa”, “A sopa não pode ter muita cenoura, pois não?”, tento arrastá-lo para outras margens, “Lá, lá, lá, lá. O senhor é um castiço”, “Leio muita comédia”, “Se isso faz bem, preciso que me receite uma tonelada”, subitamente, um homem dá um grito. Nem os trovões berram assim, “A reforma não me dá para os gastos! O que vai ser de mim?!”, “Mais um!”, “Coitadinho!”, “Peça à morte que se apresse!”, “Coitadinho!”, “Acham que dez mil euros dão para sobreviver?”, e o silêncio agarra-se às bocas.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente, nas mãos antigas das mulheres. Vou para o pé delas. Gosto de as ouvir, porque as cicatrizes do cansaço contam estórias de cavaleiros que empurraram montanhas e me ensinam que a felicidade plena conquista-se com a força dos braços.
Quando a madrugada serpenteia a ilha, cubro o bojudo e peço ao vento que lhe traga uma estrela com dinheiro.

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

SUGESTÃO


nova edição, revista, de um dos mais originais e famosos romances de Mario Vargas Llosa.
A Tia Julia e o Escrevedor é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Conta a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos cinquenta, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até ao dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e a tia Julia é descoberto pela família.
Ironia e romance em doses perfeitas, memórias autobiográficas e criação literária magistral fazem deste livro um clássico da literatura contemporânea.

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

TASCA


A noite desce e crava-se ma cidade. O murmúrio dos homens, lentamente, engrossa o silêncio. As aves fecham-se nas árvores e repousam o cansaço, enquanto os olhos dos candeeiros incendeiam as ruas e as praças. Desço a rua, assobiando. Antes que o passeio ladeie dois edifícios esquisitos, entro numa tasca. Sento-me e peço meio frango com arroz. Como demora, leio um livro do Al Berto, “O senhor já leu o Kafka”, afasto os olhos das palavras e olho para um velho muito velho que me chupa a concentração, “Tem certeza?”, “Tenho”, “Gosta?”, “Nunca li, mas quero lê-lo”, “Amanhã empresto-lhe a Metamorfose”, “Agradecido”, e bebe o vinho pela garrafa.

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

VENCER O INFERNO


Excelentíssimo e digníssimo inferno,
Não nos tens poupado. Um pouco por todo o mundo, as tuas mãos sarapintam as montanhas e os vales com tempestades altas ou com incêndios que devastam sorrisos; um pouco por todo o mundo, os teus suspiros gelam cidades e vilas e matam corações que já viveram décadas. Mas as nossas vontades ultrapassarão tudo o que construíres, porque a força humana é uma mão que chega aos cabelos das nuvens. Nunca nos vencerás.
Assinado: o desígnio de vencer.

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

E-BOOK (download gratuito)


Doze escritores, dois músicos e um ilustrador escolheram “estórias” de Paulo Kellerman e criaram as suas próprias versões. O resultado é “Kellerman Remixed”, um novo e-book com a assinatura dos 15 convidados e de Paulo Kellerman, que não pára de associar novas dimensões à sua escrita.

“Pedi-lhes para escolherem o que quisessem no meu blogue e fazerem o que desejassem; ou seja, pedi-lhes que criassem as suas próprias versões das minhas estórias”, explica o escritor de Leiria.

A intenção foi aplicar à obra de Kellerman o mesmo que acontece na música, quando alguém pega num original e o transforma noutro objeto artístico:

“Foi basicamente aplicar à literatura o conceito musical de remistura, em que se entrega uma canção a alguém que se admira para que essa pessoa a recrie de acordo com o seu próprio conceito artístico”.

O e-book contém essas 15 versões e a maioria das “estórias” originais que estiveram na sua origem. “Kellerman Remixed” tem a assinatura de António Cova, António Martinho, David Teles Ferreira, Fernando José Rodrigues, Licínio Florêncio, Luís Mourão, Luísa Marques da Silva, Micael Sousa, Nélson Brites, Paulo Assim, Pedro Miguel, Sílvia Alves, Sílvio Silva, Simão Vieira e Wilson Gorj.

http://www.regiaodeleiria.pt/blog/2012/01/14/kellerman-remixed/ (o download é gratuito)

Domingo, 15 de Janeiro de 2012

OBRIGADO

A noite avança. Por detrás dela vem um corpo. Esse corpo pertence-me. Mas a mente é mais nova do que aquela carcaça. Junto a ele está um mar de pessoas. Abraçam-no e desejam-lhe felicidades. Como ele não fala, ela fala: “Obrigado, amigos. Hoje percebi que tenho o coração cheio de abraços!”

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

OLHOS

A cama do vizinho faz uns barulhos esquisitos; os gatos mordem o sossego; os lobos uivam e os cães pedem comida. Os meus olhos, cobertos de escuridão, recebem a anarquia e afastam-se do sono. Malditos! Vou ter que os chicotear.

CARTA AOS PEIXES

Boa tarde, caros concidadãos do mistério
É certo que a crise espalha horrores nas pedras com memória, é certo que o tempo já não é o que era, é certo que as tuas palavras estão mais esculpidas, mais refinadas, mas também é certo que os teus dedos não podem tropeçar no sono da inércia, porque o comodismo é um demónio que te suga o sentido das palavras. Foge. Não olhes para trás. Diz ao futuro que queres encontrar-te com o desígnio.
cumprimentos,
A luz do teu pensamento.

SUGESTÂO


Al Berto desapareceu em 13 de Junho de 1997, no mesmo dia e na mesma cidade em que outro poeta, a quem dedicou um texto n' O Anjo Mudo, nascera, no ano de 1888, Fernando Pessoa.

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

AUSÊNCIA

Não há nada mais triste do que a ausência.

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

LÁGRIMAS

Talvez as lágrimas não sejam mais do que isso: o alívio duma ofensa.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

SIMPLICIDADE


Cobro-me com a manta do dia, onde o inverno é uma lembrança do verão. É um gesto simples, banal, mas não lhe sugo a essência. Não tenho tempo para perceber que a simplicidade ocupa esse espaço. Sigo. Dentro da fábrica, fecho a porta e não quero que ninguém me chateie.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

DA TARDE PARA A NOITE


Levanto-me e saio para a rua. Caminho na chuva adocicada da tarde. As pedras reconhecem-me. Paro. Numa mancha de gasoina preparo o fogo. Um pássaro esvoaça sobre o mar e as últimas silhuetas da noite sentam-se na fogueira. Uma voz líquida arrasta-se de súbito das sombras, "Posso estender-me ao sol?", "Somos todos filhos do mesmo pai. Por isso és meu irmão. Não vejo como não te aceitar", e dormimos aconchegados a um sorriso.

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

E-BOOK


Está quase a sair. Espero que gostem.