quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ALGAZARRA


Perto da igreja, as vozes apoderam-se do silêncio como se fossem guerreiros. O Presidente de Junta, homem de barbas brancas e de barriga proeminente, encosta-se ao muro e ergue as mãos até ao cabelo aflito. Parece uma ave em cima do crude. Mas o sinal do almoço, que soou vagarosamente das fábricas, varre a algazarra e traz o silêncio. A suspirar de alívio, o sujeito sacode o casaco e apanha as queixas que pintam o passeio de outra cor, “Se eu sabia o que sei hoje, não me tinha candidatado!”, e empurra-se para a tasca do Zé, onde novas facas estão à sua espera.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CHARLES DICKENS


Charles Dickens nasceu há 200 anos


Duas exposições em Lisboa assinalam terça-feira, dia 07 de Fevereiro, o bicentenário do nascimento do escritor Charles Dickens, criador de personagens como David Copperfield ou Oliver Twist, que retratou o quotidiano social da Inglaterra “vitoriana”, da segunda metade do século XIX.

Uma é iniciativa da Biblioteca Nacional e reúne edições portuguesas de Charles Dickens, na Sala de Referência, a outra, “Dickens nas Colecções das Bibliotecas Municipais de Lisboa”, fica na Hemeroteca Municipal, ao Bairro Alto.

Charles John Huffam Dickens que experimentou o jornalismo e, para garantir o sustento da família, trabalhou numa fábrica, nasceu em Portsmouth a 07 de fevereiro de 1812, completa-se terça-feira 200 anos.
Dickens começou a editar em 1833 em fascículos no jornal Monthly Magazine a ficção “A Dinner at Poplar’s Walk”, que veio a editar depois em livro.
Em Portugal, segundo nota da Biblioteca Nacional, a primeira tradução de uma obra de Dickens foi publicada em 1833. Inicialmente são traduzidas “várias narrativas breves que, retiradas em grande parte da obra ‘Sketches by Boz’, são também publicadas em folhetim, sobretudo na década de 1860”, refere a mesma nota.

Ainda no século XIX são apresentadas “as primeiras traduções de cinco dos seus romances: ‘Oliver Twist’ (1837-1839), ‘The Life and Adventures of Nicholas Nickleby’(1838-1839), ‘A Tale of two Cities’ (1859), ‘Great Expectations’ (1860-1861) e ‘The Posthumous Papers of the Pickwick Club’ (1836-1837)”, refere a mesma nota.

A mostra bibliográfica na sala de referência da Biblioteca Nacional, ao Campo Grande, é organizada em colaboração com o Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa e reúne as várias edições nacionais da obra do escritor inglês, de "Nicholas Nickleby" a "Grandes esperanças", "Oliver Twist", "Conto de duas cidades" ou "Canto de Natal".

O escritor teve maior proliferação editorial portuguesa nas décadas de 1940 e 1950. Segundo a Biblioteca Nacional, “entre os seus maiores sucessos entre nós destacam-se as mais de vinte traduções diferentes de ‘A Christmas Carol in Prose: A Ghost Story of Christmas’ (1843), bem como as dezassete traduções diversas do romance ‘Oliver Twist, or, the Parish Boy’s Progress’ (1837-1839)”.

O bicentenário do nascimento de Charles Dickens é pretexto para a Hemeroteca Municipal, ao Bairro Alto, organizar um conjunto de iniciativas que “revisitem a vida e a obra de um dos mais importantes escritores ingleses do século XIX e da literatura mundial”, segundo nota da instituição lisboeta.

A primeira dessas iniciativas é inaugurada no dia 07 de Fevereiro. Trata-se de uma exposição bibliográfica e documental, “Dickens nas Coleções das Bibliotecas Municipais de Lisboa”, que estará patente ao público até 17 de Março, no átrio e escadaria Hemeroteca.

Também no dia 07 de Fevereiro, pelas às 18:00, na Biblioteca-Museu República e Resistência – Espaço Cidade Universitária, ao bairro de Santos, em Lisboa, o cineasta Lauro António apresentará a palestra “O Universo de Charles Dickens no Cinema”.
Refira-se que João Botelho realizou, baseado na obra homónima de Dickens, “Hard Times, for these Times” (1854), o filme “Tempos Difíceis, este tempo” (1988), com música de António Pinho Vargas e a participação, entre outros, de Henrique Viana, Julia Britton, Eunice Muñoz, Ruy Furtado e Isabel de Castro.
(ES)

BEIJOS IMUNDOS


Caro padre,
Os pêlos dos jovens são esbeltos. Qualquer sabichão de higiene percebe que aquilo é trabalho de profissional. Compreende-se, são filhos do senhor Isaltino. O velho, que acende o charuto com notas dos pobres, tem pavor a detritos. Dizem as más-línguas que o velho já mandou matar empregados só porque o descuido obrigou-os a colocar as mãos no fato que nunca tira. Não sei qual é a veracidade disto, mas a ser verdade, aquele senhor é um tipo da pior espécie. Porém, como é o fulano de tal, a população da aldeia cumprimenta-o como se fosse um anjo. Até dá nojo, até dá vómitos. Não estou habituado a ver beijos injustos, não estou habituado a ver tanta bajulice imunda. Por isso, caro padre, peço-lhe que a homilia de domingo traga a visão para os cegos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

FRIO

A noite cresce no horizonte, enquanto as formigas, disfaçadas de pessoas, levam lenha para dentro de casa.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CORRENTES D' ESCRITA


MESA 1
Dia 23 de Fevereiro, quinta-feira, 17h00 (Auditório Municipal)
Tema: “A Escrita é um risco total” – Eduardo Lourenço
Participantes: Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Eduardo Lourenço, Hélia Correia e Rubem Fonseca
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

MESA 2
Dia 24, sexta-feira, 10h30 (Auditório Municipal)
Tema: “O fim da arte superior é libertar” – Fernando Pessoa
Participantes: Alberto S. Santos, Fernando Pinto do Amaral, José Jorge Letria, Luís Quintais, Sofia Marrecas Ferreira e Care Santos
Moderador: João Gobern

MESA 3
Dia 24, sexta-feira, 15ho0 (Auditório Municipal)
Tema: A Poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras
Participantes: Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina, Manuel Rui e Margarida Vale de Gato
Moderador: Ivo Machado

MESA 4
Dia 24, sexta-feira, 17h30 (Auditório Municipal)
Tema: Toda a literatura é pura especulação
Participantes: Eduardo Sacheri, Inês Pedrosa, João Bouza da Costa, Manuel Jorge Marmelo, Pedro Rosa Mendes e Rosa Montero
Moderadora: Bia Corrêa do Lago

MESA 5
Dia 24, sexta-feira, 22h00 (Auditório Municipal)
Tema: A escrita é um investimento inesgotável no prazer
Participantes: Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe
Moderador: Henrique Cayatte

MESA 6
Dia 25, sábado, 10h30 (Auditório Municipal)
Tema: Da crise da escrita não se pode fugir
Participantes: Carmo Neto, João Pedro Marques, Miguel Real, Sandro William Junqueira, Valeria Luiselli e Salgado Maranhão
Moderador: Onésimo Teotónio Almeida

MESA 7
Dia 25, sábado, 16h00 (Auditório Municipal)
Tema: “As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento” – Antoine Rivarol
Participantes: Eugénio Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Helena Vasconcelos, João de Melo, Luís Sepúlveda e Onésimo Teotónio Almeida
Moderadora: Maria Flor Pedroso

MESA 8
Dia 28, terça-feira, 18h30 (Instituto Cervantes, Lisboa)
Tema: Traços de crise enriquecem o texto literário
Participantes: Afonso Cruz, Ana Paula Tavares, Care Santos, Manuel Moya e Valeria Luiselli
Moderadora: Helena Vasconcelos

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

COISAS SIMPLES

Hoje é dia de coisas simples. Coisas simples como ir contigo ao restaurante, ler o horóscopo e os pequenos escândalos, folhear revistas pornográficas e demorarmo-nos dentro da banheira. Hoje é dia de coisas simples. Coisas simples como ir contigo à foz do rio.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ÁGUA CHOCA


“Ó Maria, preciso de água choca. Tenho as tronchudas a morrer”, “Vieste ao sítio certo, Manel”, “Ai sim?!”, “Sim, porque não há como a que tenho”, “A tua boca só diz louvores”, “Ela só diz verdades”, o homem, de braço erguido para o céu, estica o bigode e sorri, “A minha água choca só tem trampa e urina. Aquilo é que é! Até os ratinhos gostam de se lavar nela!”, mas o uivo da comédia desfaz o sossego da aldeia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

SUGESTÂO


Sentados a uma mesa da taberna A Catedral, o jornalista Santiago Zavala conversa com o seu amigo Ambrosio. Estamos em Lima, na época ditatorial do general Manuel A. Odría (1948-1956), e dessa conversa acompanhada de cerveja emerge um Peru cruel, corrupto, desesperançado, matéria-prima ideal, portanto, para um romance que só um grande jornalista e escritor como Vargas Llosa poderia ter produzido.

Uma história esplêndida que reúne muitos dos ingredientes que fizeram a fama do autor peruano - as críticas ácidas, a irreverência, a rebeldia e o humor sarcástico.

Conversa n’A Catedral é a crónica de uma ditadura e da resistência possível graças à palavra. Uma aguda reflexão sobre a identidade latino-americana e sobre a perda da liberdade.

Um romance que, mais do que um marco na carreira literária do autor, é um ponto de referência inevitável na história da literatura universal.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

QUARTO


Os furos da persiana deixam passar os tiros do sol. Dentro do quarto, a escuridão mistura-se com eles. Parece que os ingredientes da penumbra dançam no espaço. Porém, pouco depois, um corpo rasga a pista com um movimento. Aguço o olhar e vejo a mão do meu coração, “Bom dia, amor. Dormiste bem?”, e aprendo a sorrir.

domingo, 29 de janeiro de 2012

NÂO

O corpo está deitado. A máscara do oxigénio tapa o rosto da moribunda, mas as minhas mãos destapam a terra que chora rios. Ajoelho-me, agarro-lhe nas mãos e coloco-as no meu peito: “Não deixes que as lágrimas caem na desilusão, porque a porta da morte não merece ajuda”, “Amo-te, querido”, olho para o mar que se passeia no chão e peço-lhe para não a levar.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

MENTIR

Mentir continua a ser a melhor maneira de preservar o que é doloroso na verdade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

AREIA

A areia guarda o rasto dos teus pés, assim como os vestígios dum sexo embriagado pelo calor e perturbação do entardecer.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

TASCA

"Um dia, tenho a certeza, não terei forças para me reconciliar com o mundo, nem vontade para regressar ao local onde nasci", "Bebe. A ressaca dos dias irá passar", e o errante bebe até sentir a almofada no rosto.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ESCRITÓRIO

Sento-me à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória dos livros que li e amei e abro a mão. Com um gesto de ave pouso-a sobre o papel. E do meu interior, saem palavras: "Era uma vez..."

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

FÁCIL


Fecho os olhos e deixo que os meus lábios se agarrem a uma brisa do paraíso.

domingo, 22 de janeiro de 2012

REFORMAS


LEMBRA-TE,
Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma. Hoje, todavia, estou seco como uma folha que se baloiça na pensão do Outono.
Saio. Fecho a porta e atravesso a solidão. Dentro da sala de estar, as emoções são cartões-de-visita. Ao pé da cascata, que é um tipo bojudo, daqueles que arrebentam camas sem reforços nas ilhargas, sento-me e peço um café, “Acha que sobrevivo com trezentos euros de reforma?”, e a voz sai-lhe. Parece um isco a procurar um conforto, “Nem com ginástica…”, “O fígado leva-me um terço e a sinusite outro tanto. O restante é para a sopa”, “A sopa não pode ter muita cenoura, pois não?”, tento arrastá-lo para outras margens, “Lá, lá, lá, lá. O senhor é um castiço”, “Leio muita comédia”, “Se isso faz bem, preciso que me receite uma tonelada”, subitamente, um homem dá um grito. Nem os trovões berram assim, “A reforma não me dá para os gastos! O que vai ser de mim?!”, “Mais um!”, “Coitadinho!”, “Peça à morte que se apresse!”, “Coitadinho!”, “Acham que dez mil euros dão para sobreviver?”, e o silêncio agarra-se às bocas.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente, nas mãos antigas das mulheres. Vou para o pé delas. Gosto de as ouvir, porque as cicatrizes do cansaço contam estórias de cavaleiros que empurraram montanhas e me ensinam que a felicidade plena conquista-se com a força dos braços.
Quando a madrugada serpenteia a ilha, cubro o bojudo e peço ao vento que lhe traga uma estrela com dinheiro.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SUGESTÃO


nova edição, revista, de um dos mais originais e famosos romances de Mario Vargas Llosa.
A Tia Julia e o Escrevedor é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Conta a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos cinquenta, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até ao dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e a tia Julia é descoberto pela família.
Ironia e romance em doses perfeitas, memórias autobiográficas e criação literária magistral fazem deste livro um clássico da literatura contemporânea.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

TASCA


A noite desce e crava-se ma cidade. O murmúrio dos homens, lentamente, engrossa o silêncio. As aves fecham-se nas árvores e repousam o cansaço, enquanto os olhos dos candeeiros incendeiam as ruas e as praças. Desço a rua, assobiando. Antes que o passeio ladeie dois edifícios esquisitos, entro numa tasca. Sento-me e peço meio frango com arroz. Como demora, leio um livro do Al Berto, “O senhor já leu o Kafka”, afasto os olhos das palavras e olho para um velho muito velho que me chupa a concentração, “Tem certeza?”, “Tenho”, “Gosta?”, “Nunca li, mas quero lê-lo”, “Amanhã empresto-lhe a Metamorfose”, “Agradecido”, e bebe o vinho pela garrafa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

VENCER O INFERNO


Excelentíssimo e digníssimo inferno,
Não nos tens poupado. Um pouco por todo o mundo, as tuas mãos sarapintam as montanhas e os vales com tempestades altas ou com incêndios que devastam sorrisos; um pouco por todo o mundo, os teus suspiros gelam cidades e vilas e matam corações que já viveram décadas. Mas as nossas vontades ultrapassarão tudo o que construíres, porque a força humana é uma mão que chega aos cabelos das nuvens. Nunca nos vencerás.
Assinado: o desígnio de vencer.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

E-BOOK (download gratuito)


Doze escritores, dois músicos e um ilustrador escolheram “estórias” de Paulo Kellerman e criaram as suas próprias versões. O resultado é “Kellerman Remixed”, um novo e-book com a assinatura dos 15 convidados e de Paulo Kellerman, que não pára de associar novas dimensões à sua escrita.

“Pedi-lhes para escolherem o que quisessem no meu blogue e fazerem o que desejassem; ou seja, pedi-lhes que criassem as suas próprias versões das minhas estórias”, explica o escritor de Leiria.

A intenção foi aplicar à obra de Kellerman o mesmo que acontece na música, quando alguém pega num original e o transforma noutro objeto artístico:

“Foi basicamente aplicar à literatura o conceito musical de remistura, em que se entrega uma canção a alguém que se admira para que essa pessoa a recrie de acordo com o seu próprio conceito artístico”.

O e-book contém essas 15 versões e a maioria das “estórias” originais que estiveram na sua origem. “Kellerman Remixed” tem a assinatura de António Cova, António Martinho, David Teles Ferreira, Fernando José Rodrigues, Licínio Florêncio, Luís Mourão, Luísa Marques da Silva, Micael Sousa, Nélson Brites, Paulo Assim, Pedro Miguel, Sílvia Alves, Sílvio Silva, Simão Vieira e Wilson Gorj.

http://www.regiaodeleiria.pt/blog/2012/01/14/kellerman-remixed/ (o download é gratuito)

domingo, 15 de janeiro de 2012

OBRIGADO

A noite avança. Por detrás dela vem um corpo. Esse corpo pertence-me. Mas a mente é mais nova do que aquela carcaça. Junto a ele está um mar de pessoas. Abraçam-no e desejam-lhe felicidades. Como ele não fala, ela fala: “Obrigado, amigos. Hoje percebi que tenho o coração cheio de abraços!”

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

OLHOS

A cama do vizinho faz uns barulhos esquisitos; os gatos mordem o sossego; os lobos uivam e os cães pedem comida. Os meus olhos, cobertos de escuridão, recebem a anarquia e afastam-se do sono. Malditos! Vou ter que os chicotear.

CARTA AOS PEIXES

Boa tarde, caros concidadãos do mistério
É certo que a crise espalha horrores nas pedras com memória, é certo que o tempo já não é o que era, é certo que as tuas palavras estão mais esculpidas, mais refinadas, mas também é certo que os teus dedos não podem tropeçar no sono da inércia, porque o comodismo é um demónio que te suga o sentido das palavras. Foge. Não olhes para trás. Diz ao futuro que queres encontrar-te com o desígnio.
cumprimentos,
A luz do teu pensamento.

SUGESTÂO


Al Berto desapareceu em 13 de Junho de 1997, no mesmo dia e na mesma cidade em que outro poeta, a quem dedicou um texto n' O Anjo Mudo, nascera, no ano de 1888, Fernando Pessoa.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

AUSÊNCIA

Não há nada mais triste do que a ausência.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

LÁGRIMAS

Talvez as lágrimas não sejam mais do que isso: o alívio duma ofensa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

SIMPLICIDADE


Cobro-me com a manta do dia, onde o inverno é uma lembrança do verão. É um gesto simples, banal, mas não lhe sugo a essência. Não tenho tempo para perceber que a simplicidade ocupa esse espaço. Sigo. Dentro da fábrica, fecho a porta e não quero que ninguém me chateie.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DA TARDE PARA A NOITE


Levanto-me e saio para a rua. Caminho na chuva adocicada da tarde. As pedras reconhecem-me. Paro. Numa mancha de gasoina preparo o fogo. Um pássaro esvoaça sobre o mar e as últimas silhuetas da noite sentam-se na fogueira. Uma voz líquida arrasta-se de súbito das sombras, "Posso estender-me ao sol?", "Somos todos filhos do mesmo pai. Por isso és meu irmão. Não vejo como não te aceitar", e dormimos aconchegados a um sorriso.

sábado, 7 de janeiro de 2012

E-BOOK


Está quase a sair. Espero que gostem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SUGESTÃO


«Um romance histórico inovador. Personagem principal, o Convento de Mafra. O escritor aparta-se da descrição engessada, privilegiando a caracterização de uma época. Segue o estilo: "Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra... Era uma vez a gente que construiu esse convento... Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes... Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido". Tudo, "era uma vez...". Logo a começar por "D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa a até hoje ainda não emprenhou (...). Depois, a sobressair, essa espantosa personagem, Blimunda, ao encontro de Baltasar. Milhares de léguas andou Blimundo, e o romance correu mundo, na escrita e na ópera (numa adaptação do compositor italiano Azio Corghi). Para a nossa memória ficam essas duas personagens inesquecíveis, um Sete Sóis e o outro Sete Luas, a passearem o seu amor pelo Portugal violento e inquisitorial dos tristes tempos do rei D. João V.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

VENCEDOR DO PRÉMIO D. DINIS

http://www.casademateus.com/actividades_dinis.htm

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

LEMBRA-TE

Sai da cama. Tira o pijama e veste roupa para andar no dia. Não vale a pena estar triste. Todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar. Acredita. Sai da cama. Vai divertir-te com os braços do sol.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

VEM

Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: "Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite."

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ADEUS

A noite cai numa terra que fez parte do ano passado. As estrelas, esses olhos desconhecidos, mostram-me as saudades que tenho do passado. Adeus, caro amigo. Adormece com os deuses.

sábado, 31 de dezembro de 2011


espero que tenham uma óptima passagem de ano. que o próximo ano vos traga tudo o que desejam. tudo de bom.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

RETROSPECTIVA


O passado, que principiou em Janeiro, traz-me à memória muitos ventos. Uns são infernos, outros são sorrisos. São simples constatações, simples verdades que unificam todos os vivos: os que pensam que o horizonte não é mais do que um futuro com as mesmas dicotomias, com os mesmos festejos e com as mesmas lágrimas. São simples verdades, simples constatações. O meu futuro é um rumo que não vai por ali, que não penetra no incerto e vira à esquerda para o abismo. O meu futuro é uma locomotiva que me vai levar para as veredas empedradas, onde as palavras estão escondidas numa esferográfica ou no teclado do computador. E o tempo, essa coisa que esfola corpos, irá passar como quem sente que as férias são duas semanas metidas dentro de um dia. Vou ter o sol no meu sorriso? Posso ter ou posso não ter. Tudo irá depender do ângulo do vento.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SUGESTÃO

O regresso


«Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.»

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CRIANÇA


Com o estômago recuperado, salto para o sol e dou pinchos nas poças de calor. Despenteio o cabelo mas fico feliz, porque é tão bom libertar a criança que há em nós, “Vamos, malta. Pipipipi. Papapapa. Come a caca que tens no nariz. Pipipipi. Papapapa”, subitamente, o meu corpo transforma-se num guerreiro com azedume às mariquices.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

SEGREDO


Como canja e duas sandes de atum. Não quero mais nada. Acho que nos próximos dias não irei comer mais do que isto, “E a fruta, filhinho?”, “Rrrrrr!”, vou à cozinha e pego numa maça. Dou metade ao cão e metade ao pardal, “Que boa!”, “São muito sumarentas, não são? Foram oferecidas pela tua avó”, a minha mãe invade o rectângulo e mexe na máquina do café, “São muito boas. Até vou comer outra”, e mastigo-a, porque a mentira massacra-me a alma.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

LETRIA

estico os ossos e abano a cabeça. vou para a cozinha e vejo panelas de letria. alguém quer provar desta maravilha?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

BOM NATAL


Tenho os pés dentro da água quente e as mãos e as costas embrulhadas em toalhas aquecidas. Pareço um velho. Mas as luzes da árvore de natal aquecem de jovialidades as minhas tripas constipadas. Sorrio e procuro o Vieira, que é um cão que me diz palavras, “Ó Vieira”, as patinhas aguçadas denunciam-lhe logo, “Estás bom?”, estica as patas traseiras, depois estica as patas dianteiras, e olha-me como quem faz perguntas, “Feliz Natal”, lentamente, a cauda deixa a inércia e desenha um sorriso, “Obrigado por seres tão bom!”, pousa a cabeça no meu regaço e adormece, “Por que é que o mundo não é assim?”, suspiro e olho para o rectângulo do computador, “Bom Natal”, digo-vos, dizendo-vos olá com as mãos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

SUGESTÃO

A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho - nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma "mulher por conta" no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.


O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate - debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis - com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CRISE

crise? ela pode estar dentro das cabeças, mas não existe nos bolsos. coloquei o corpo nas entranhas das lojas e saí a morrer. nunca vi tantas carteiras ao vento! puxa! parece que abriram as portas da loucura.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

GRITOS

Ligaram as estrelas e acordaram os malucos, porque ouço gritos. vou ali buscar a vassoura e…e…e…e vou para a cama. não quero cuspir impropérios.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

AO LONGE

Ao longe, os braços do sol penetram no gelo e as árvores sacodem as partículas da noite. Coloco o cobertor sobre as costas e penso que o Inverno é uma tareia dos Deuses.

sábado, 17 de dezembro de 2011

UI!!!

tenho as pernas frias e o nariz gelado. mas a casa está pior do que eu. que raio de paredes! parecem que chupam o dia.

VENHO JÁ

depois dos pontapés que dei no texto, vou apanhar ar. preciso de fresquidão. preciso de colocar os cabelos ao vento. preciso de cheirar o mundo. venho já. não saiam daí.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

SUGESTÃO


Uma armadura vazia chamada Agilulfo protagoniza esta espirituosa paródia da cavalaria medieval, sob a forma de uma história contada por uma freira. Agilulfo corre toda a França, a Inglaterra e o Norte de África para confirmar a castidade de uma virgem que ele salvou, alguns anos antes, de uma violação. Há surpreendentes achados narrativos, e a confissão final da freira não é o menor deles.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SIMPLES

A inspiração encontra-me sempre a trabalhar.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

MENINOS


As cabeças dos meninos pequeninos, coitadinhos, devem estar prestes a explodir: sexo? Mais uma matéria; economias? Mais uma matéria; civismo? Mais uma matéria… E os pinchos com brinquedos? Haverá tempo? Sim, porque, para além das matérias, ainda existe as aulas de piano, as aulas do inglês, as aulas de ginástica, as aulas, as aulas. Ufa! Tantas metralhadoras apontadas. Ah! Já me estava a esquecer: “Tens que ser o melhor da escola!” Essa coisa de ser só o melhor da turma já não é sonante, já não impressiona o vizinho ou a vizinha. As cabeças dos meninos pequeninos, coitadinhos, precisam também de chutar a bola na rua ou de brincar com as bonecas no jardim.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

NOITE


Os sinos da igreja cantarolam-me um horário tardio. Levanto os músculos e vejo a noite. Ao fundo, perto do horizonte, as máquinas com botões ziguezagueiam a montanha, “Vai para a cama”, a voz doce da minha mãe eclode do silêncio, “Já estou a ir”, apago a luz e adormeço.

domingo, 11 de dezembro de 2011

CORRECÇÕES

As correcções continuam. É certo que falta pouco, mas os meus olhos já me pedem para descansar e as minhas mães já me olham com desdém. Não lhes ligo. Tenho que continuar.

sábado, 10 de dezembro de 2011

BIBLIOTECA

Os livros encostam-se às prateleiras e olham para a biblioteca inundada de cabeças.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SUGESTÃO


O espaço da Judiaria Pequena, em Lisboa, em parte já não existe, devido à destruição provocada pelo terramoto de 1755. Mesmo assim, sendo Alfama um bairro de origem medieval, dos que menos sofreu com o terramoto, algumas das ruas referidas na obra são ainda identificáveis.

Berequias Zarco vivia na Rua de São Pedro (na Judiaria Pequena, em Alfama), numa casa que fazia esquina com a Rua da Sinagoga (que não identifiquei, talvez já não exista, ou terá mudado de nome...). No entanto, descobri que na Rua da Judiaria ficava a antiga Sinagoga. Seria a mesma rua?

O que surpreende nesta obra é que, embora imparável de acção, esta história não é ficção – trata-se de uma daquelas situações em que a realidade já é suficientemente alucinante... A história de Berequias está escrita, pelo próprio, num manuscrito encontrado numa velha cave em Constantinopla.

O Último Cabalista de Lisboa era o tio de Berequias, assassinado no dia em que se deu o massacre de milhares de judeus, junto à Igreja de São Domingos. A história desenvolve-se em torno da busca da verdade – quem assassinou Abraão Zarco? E, tão ou mais importante, existe mesmo um Deus que permita que tais horrores aconteçam?

Para Berequias, a morte do tio representa não só a perda de um familiar próximo e muito estimado, mas também o fim de uma fonte de sabedoria inestimável – a cabala, escola filosófica judaica, que na época constituía um importante veículo de instrução. Apercebemo-nos ao longo da leitura que a população judaica de Lisboa era mais instruída do que a população cristã, em que poucos saberiam ler.

Em busca da verdade, na qual se baseia a sabedoria da cabala, consubstanciada na figura do tio, Abraão Zarco, Berequias percorre a cidade de lés a lés, por ruas que hoje já não existem, como as ruas da Judiaria Grande, onde agora está a Baixa, e por outras que ainda conseguimos reconhecer. Vemos os Olivais e Marvila com as suas quintas, Belém e o seu grande Mosteiro em construção, o Bairro Alto e as suas casas nobres, passamos através de portas da cerca fernandina, vamos ao Rossio e ao Largo de São Domingos, ao Limoeiro e à Sé. Assistimos a cenas de terror descritas com uma sensibilidade extraordinária.

O Miradouro de Santa Luzia dá-nos a perspectiva necessária para compreender e abarcar o espaço, mas depois é necessário embrenhar-nos nas ruas e vielas, e com um pouco de imaginação podemos sentir o medo de andar por ali e ser apanhado. Experimentem também os degraus da Igreja de Santo Estêvão, ou então o Largo do Chafariz de Dentro. Como no tempo de Berequias, ali ainda são todos vizinhos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

SIMPLES

Sobre a felicidade, a manhã ergue-se da cama e atira os cobertores para a noite. Dá alguns passeios pela cidade e escorraça as sombras a pontapé, “Quero sossego!”, e adormece, porque a tarde desenha-se no céu.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

RICHARD ZIMLER



a biblioteca foi pequena para tantas cabeças. mas o micro levou o pensamento do eloquente para o impensável. obrigado, Richard Zimler.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

RICHARD ZIMLER


Richard Zimler estará amanhã na escola secundária de Paços de Ferreira, pelas 14h. Irei moderar a tertúlia. Apareçam.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SUGESTÃO DE LEITURA


Cosimo, um jovem nobre italiano do século XVIII, revolta-se contra a autoridade paterna, trepando para cima das árvores, e aí vai permanecer durante o resto da sua vida. Adapta-se eficazmente a uma existência arbórea - caça, semeia e colhe, joga vários jogos com amigos com os pés na terra, combate incêndios florestais, resolve problemas de engenharia e até consegue manter casos amorosos. Do seu poleiro nas árvores, Cosimo vê passar os tempos de Voltaire e assiste à chegada do novo século.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

SIMPLES

Os símbolos são palavras escondidas que refletem a essência de uma marca.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

FRIO

Dentro da minha toca está um frio que congela as palavras. Abro o fogão e atiço lume aos toros de madeira. Ao lado, o político fala de austeridade dentro do televisor.