quinta-feira, 31 de maio de 2012

SUGESTÃO

O Velho e o Mar é, porventura, a obra-prima de maturidade de E. Hemingway. Santiago, um velho pescador cubano, minado por um cancro de pele que o devora cruelmente, está há quase três meses sem conseguir pescar um único peixe. Vai então bater-se, durante quatro dias, com um enorme espadarte, que conseguirá de facto capturar, para logo o ver ser devorado por um grupo de tubarões. Esta aventura poética, onde Hemingway retrata, uma vez mais, a capacidade do homem para fazer face e superar com sucesso os dramas e as dificuldades da vida real, é seguramente uma das suas obras mais comoventes e aquela que mais entusiasmo tem suscitado, ao longo de mais de meio século, entre os seus fiéis leitores.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PASSADO

Saio de casa e deslizo nos corredores de alcatrão. Não há muito movimento. Quando chego à terra da minha juventude paro o carro e ligo a memória. As traquinices e os suspiros, os pássaros e os coelhos, os avós e as tias, os filmes e o futebol, são imagens que dizem às lágrimas para me cegar. Limpo a escuridão e olho para o passado: a casa continua igual; o jardim continua a trepar pelas paredes; as portas e as janelas continuam entreabertas, como se os medos da rua fossem convidados a entrar. Apenas o musgo das telhas cria no objecto a passagem do tempo. Olho para o retrovisor e vejo que o musgo também se apoderou de mim.

terça-feira, 29 de maio de 2012

SIMPLES

a noite é apenas uma porta para o dia.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

CORPOS

Desconheço o conteúdo que os levou a pensar que os sentidos são anzóis incapazes de capturar alegrias; desconheço os contornos da luta; desconheço o que os matou. Mas conheço-os da mesma forma que conheço os vincos da minha mão ou as curvas que ladeiam a minha morada e sei, por isso, que aqueles corpos, deitados nas ilhargas do céu, são perfumes da coerência. É por causa deles que a essência do meu corpo vive com a simplicidade.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

SUGESTÃO

Livro recomendado para as Novas Oportunidades, destinado a leitura autónoma - Grau de Dificuldade II. No prefácio dos "Azulejos do Conde de Arnoso", emite Eça a sua opinião sobre o conto: "No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida". O enredo é simples, linear. Não é analítico. Há neles concentração de ação, tempo e espaço. Eça realiza-se também como contista.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

PRIMAVERA

As gotas da tarde mergulham na cidade como pássaros no rio e humedecem as caras dos incautos que percorrem as ruas com suavidade. O sábado dá para isso. Mas o incómodo afasta-se e deixa-nos em paz. Sorrio. O frio, no entanto, recorda-me que a primavera não tem ainda espaço para sair do meu rosto e dar às abelhas o produto de que precisam.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ESPERANÇA

Descobri que a esperança é uma lufada de emoções, que se prende aos músculos das pernas como carraças. Por vezes, os séquitos do coração não estão preparados para responder a esse desígnio. O cansaço, provocado pelo somatório dos dias, são a resposta dessa incapacidade. Mas a esses dias incaracterísticos, obscuros e inválidos, a inércia é destruída pela faca da vontade. E o que parecia impossível de se obter torna-se, como por magia, um braço mais perto de mim.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

CAMINHOS

Os dias de chuva fazem parte da memória. Mas há quem sonhe com ela, há quem peça a tudo para tê-la aos pés. As cabeças dos homens são, por isso, uma fábrica de caminhos que desaguam em terras distintas, onde as praças alojam vidas próprias. O meu, imutável, navega ao longo dos dias de sol, porque é do brilho que nasce o sorriso.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

AMIGO

Tiro as pernas da inércia. Ao pé da porta, agarro na maçaneta e puxo-a com ímpeto. Na mesma proporção, a figurinha caquéctica do meu amigo desenha-se à minha frente. Infelizmente, o meu sorriso tropeça na sua tosse.

terça-feira, 15 de maio de 2012

ÚLTIMO SUSPIRO

Levanto a persiana. Utilizo gestos calmos e sonolentos. Lentamente, o quarto perde o fulgor da noite e ganha o brilho do dia, que saiu do horizonte há mais de uma hora. Quando os bocejos do sol encontram os meus olhos, perco o norte e fico cego. Mas a magia da surpresa indica-me a porta da visão. Sorrio quando vejo a alcateia a passear nas costas da montanha e dou gargalhadas quando descubro as traquinices das crianças. Não há nada melhor do que ouvir a inocência a esgravatar nas folhas e nos ramos que a natureza criou. Deixo a janela. Tenho uma dor no coração. A meio do quintal tropeço numa pedra e caio junto da sepultura do meu cão. Foi uma queda violenta. É então que sinto a morte a visitar o que lhe pertence.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

SUGESTÃO

Às vezes, as traduções fazem com que os títulos deixem de ser fiéis ao que realmente significam. É esse o caso de "Gente de Dublin", do escritor irlandês James Joyce - "Dubliners", no original. É que "Gente de Dublin" é diferente (talvez substancialmente diferente) de "Dubliners". Se no primeiro se lê "conjunto de pessoas, gente que vive em Dublin", no segundo, contudo, lê-se caracteres-tipo, indivíduos feitos da mesma massa, do mesmo sangue. Há algo que os une e algo que os separa. Não são "apenas" homens e mulheres que vivem na capital irlandesa. Longe disso. São as mesmas origens, a mesma pobreza e o mesmo orgulho, os mesmos sonhos e desalentos. "Dubliners" é um conjunto de quinze contos e foi escrito por James Joyce por volta de 1905, quando o escritor estava em Trieste a leccionar - é o segundo livro do autor da obra-prima "Ulisses", e também de "Retrato do Artista Quando Jovem" ou "Finnegans Wake". "A minha intenção foi a de escrever um capítulo da história moral do meu país e escolhi Dublin como cenário porque a cidade me parecia o centro da paralisia. Tentei apresentá-la ao público em quatro aspectos: infância, adolescência, maturidade e vida pública", explicou Joyce. E é exactamente assim que o livro se apresenta. A "infância" é vista pelos olhos de crianças: um miúdo a quem morre o tutor ("Irmãs") ou rapazes que descobrem os prazeres ilegais da vida - livros proibidos e raparigas ("Um encontro"). A juventude ou a puberdade estão em "Eveline", a rapariga que olhava pela janela do quarto e que queria mudar de vida; em "Dois conquistadores", Corley e Lenehan, que se gabam das suas conquistas, ou em "A pensão", em que Polly e o sr. Doran se apaixonam sob o olhar reprovador da mãe desta. Em "Camaradas" está a maturidade deprimida de um empregado de escritório, como em "Uma nuvenzita" está a vida pública estraçalhada de Little Chandler - e "lágrimas de remorso começaram a brotar-lhe dos olhos". Em "Um caso doloroso" estão os primeiros prenúncios de uma velhice pintalgada de solidão, como em "O morto" está a crónica de uma morte anunciada. O que há, então, em "Dubliners"? Irlandeses ruivos bebem uísque de malte ao final da tarde; meninas de convento ajudam as mães na cozinha; putos reguilas jogam à bola do outro lado do rio; ruas e mais ruas, numa cidade que parece enorme e, ao mesmo tempo, minúscula, tal é a facilidade com que se sai de Temple Bar e já se está no Ringsend. Há também uma cidade suja e triste, vestíbulos quentes e apertados, cheiro a mofo, ácaros, vestidos de domingo, relógios de corda, álcool entornado em tampos de mesas. E há, sobretudo, um desalento - quem é esta gente, unida por um mesmo espaço, um mesmo tempo, a mesma classe? Parecem-se uns com os outros. Os anos vão passando, eles vão crescendo e, com eles, o desânimo, a infelicidade, a amargura acumulam-se como o papel nas paredes, as fotografias da família, a preto e branco, bolorentas. E o velho "dubliner" já não é o mesmo - está a envelhecer. Mas o rio continua, imponente, a correr para longe daquela ilha, da Irlanda, a correr, quem sabe para outra ilha, para Londres, quem sabe para o continente, Paris, Berlim, para longe do "ramerrão" de Dublin - para as "cidades imorais" com que sonha Little Chandler.

sábado, 12 de maio de 2012

SOL

O sol fugiu. Escondeu-se no meio das mãos pardacentas que as nuvens lançam ao azul do céu. A cidade, a deambular com tristeza, perde a profundidade das cores e o brilho dos olhos. Mas a vivacidade volta a pintar as ruas quando o sol descobre um rasgo na brutalidade, “Ninguém o entende”, “Pois, o governo parece maluco!”, “Não me refiro a isso, homem!”, “Então?”, “Ao tempo”, “Ah!”, dois homens de meia-idade, sentados a dois palmos da igreja, olham para a fila que, a passos lentos, entra na junta de freguesia com intuito de receber um carimbo. Uma nova exigência do centro do emprego, “Faz chuva. A seguir faz sol. O tempo está como a economia: maluco”, “É uma palavra meiga”, “Não me venha com palavrões”, “Está tudo fodido”, “Podia ter sido pior”, o zumbido pousa no silêncio. O lugar, taciturno, embora os pensamentos dos desempregados façam grandes barulhos, pelo menos é o que me dizem os seus olhos, vai mergulhando nas malhas da desilusão.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

SIMPLES

ontem como hoje, o amor é um fogo que arde sem se ver.

terça-feira, 8 de maio de 2012

SUGESTÃO

Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade… No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam. Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Por que razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância, Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece - desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte. Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos recantos mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ÁGUA

o rio já é um mar. as montanhas, aos gritos, vão perdendo território para a água barrenta.

sábado, 5 de maio de 2012

DIABO

Agarro no casaco e saio de casa. Chove como se não houvesse amanhã. Abro o guarda-chuva e enfrento a intempérie. Ao pé da câmara escondo-me na arcada do museu que já fora uma escola, porque as lágrimas das nuvens formam um oceano nervoso e possessivo. Estou só. Do outro lado da praça, as fachadas estão taciturnas. Os rectângulos que as recortam estão despidos de caras coscuvilheiras. Só os ramos das árvores afogam a monotonia que abraça o contexto. Sorrio e murmuro: “Há sempre uma mão que nos recorda que a vida deve ser vivida com esperança”, guardo a frase na memória e saio da arcada para enfrentar com robustez a dificuldade imposta pelo diabo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

AMO_TE

Não há tempestade que vocifere como eu a palavra amo-te.

BORBOLETA SEM ASAS

Chove com abundância. Há semanas que é assim. As nuvens, carregadas de negrume, influenciam os rostos dos transeuntes, porque a primavera dá lugar à tristeza. O meu, envelhecido e cansado, está no mesmo trilho, está enfeitado com a mesma massa. Pouso o corpo num café e olho para o vidro que enfeita a entrada. Por detrás dessa parede vejo a cidade a contar os tostões. Alguns carros, pertencentes a magnatas sem respeito pela cultura, informam-me que o capitalismo é um patrão que vigia sempre os empregados. Indago os esfomeados e descubro que os sorrisos foram decapitados e que a esperança é uma borboleta sem asas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

DESÍGNIO

A noite avança. As estrelas, sossegadas, rasgam a monotonia da bruma. Nos candeeiros públicos não há luzes. A austeridade obrigou a autarquia a minimizar os gastos. Coisas de quem tem os bolsos descosidos. Ligo a lanterna e desço as escadas. Está frio. Com os pés no empedrado, ouço um barulho ténue, frágil. Olho para todos os lados e apenas vejo o silêncio a mordiscar a paisagem. Porém, pouco depois, os senhores dos galinheiros assobiam uma melodia erudita. Dão à alvorada um motivo para crescer. Há quem precise de empurrões, de palmadinhas amigas para fugir da inércia. Entretanto, no meio do horizonte, surge o corpo de um avião. É pouco maior de que um ponto cravado numa folha. Apuro o olhar e observo-o como se observasse o meu desígnio.

terça-feira, 1 de maio de 2012

1 DE MAIO

Em 1886, realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago nos Estados Unidos da América. Essa manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias e teve a participação de milhares de pessoas. Nesse dia teve início uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou com uma escaramuça com a polícia e com a morte de alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket. Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu por proposta de Raymond Lavigne convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama esse dia como dia internacional de reivindicação de condições laborais. Em 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica o dia de 8 horas e proclama o dia 1 de Maio desse ano dia feriado. Em 1920 a Rússia adota o 1º de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países. Apesar de até hoje os estadunidenses se negarem a reconhecer essa data como sendo o Dia do Trabalhador, em 1890 a luta dos trabalhadores estadunidenses conseguiu que o Congresso aprovasse que a jornada de trabalho fosse reduzida de 16 para 8 horas diárias.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

CHUVA

Sentado na cabeça de um prédio, o pássaro espreita a cidade. Parece um farol a indagar o mar. Mas quando a chuva sai das nuvens, a solidão apodera-se do miradouro.

ESPINHO

suspiro e ergo as golas do casaco. na marginal de espinho, as sombras escondem delinquentes e prostitutas. mas os senhores do saber, de dentes afiados, levam os corpos para o areal, enquanto o mar chicoteia as costas das pedras.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

NARIZ

o naris é um tratante: está tão entupido que tive que lhe dar com o eucalipto nas trombas!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 DE ABRIL

Revolução dos Cravos refere-se a um período da história de Portugal resultante de um golpe de Estado militar, ocorrido a 25 de Abril de 1974, que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, vigente desde 1933, e que iniciou um processo que viria a terminar com a implantação de um regime democrático, com a entrada em vigor da nova Constituição a 25 de Abril de 1976. Este golpe, normalmente conhecido pelos portugueses como 25 de Abril, foi conduzido por um movimento militar, o Movimento das Forças Armadas (MFA), composto por oficiais intermédios da hierarquia militar, na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial e que foram apoiados por oficiais milicianos, estudantes recrutados, muitos deles universitários. Este movimento nasceu por volta de 1973, baseado inicialmente em reivindicações corporativistas como a luta pelo prestígio das forças armadas, acabando por se estender ao regime político em vigor. Sem apoios militares, e com a adesão em massa da população ao golpe de estado, a resistência do regime foi praticamente inexistente, registando-se apenas quatro mortos em Lisboa pelas balas da DGS. Após o golpe foi criada a Junta de Salvação Nacional, responsável pela nomeação do Presidente da República, pelo programa do Governo Provisório e respectiva orgânica. Assim, a 15 de Maio de 1974 o General António de Spínola foi nomeado Presidente da República. O cargo de primeiro-ministro seria atribuido a Adelino da Palma Carlos. Seguiu-se um período de grande agitação social, política e militar conhecido como o PREC (Processo Revolucionário Em Curso), marcado por manifestações, ocupações, governos provisórios, nacionalizações e confrontos militares, apenas terminado com o 25 de Novembro de 1975. Estabilizada a conjuntura política, prosseguiram os trabalhos da Assembleia Constituinte para a nova constituição democrática, que entrou em vigor no dia 25 de Abril de 1976, o mesmo dia das primeiras eleições legislativas da nova República. Na sequência destes eventos foi instituído em Portugal um feriado nacional no dia 25 de Abril, denominado "Dia da Liberdade".

terça-feira, 24 de abril de 2012

Na cabeça daquele homem está um pássaro a picar os piolhos. O desgraçado, mudo, olha para o imprevisto e sorri. É um sorriso ligeiro, mas parece que cabe o mundo naquele gesto. Memorizo a dica e peço ao vento para espalhar aquela semente.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

há chuva. há vento. mas o sol, quente e macio, é uma quimera no meio do horizonte.

SUGESTÂO


Um livro não responde. Um livro pergunta. Qual é a pergunta? “Cada rosto, cada loja, cada janela de quarto, bar e praceta escura é uma imagem febrilmente virada – em busca de quê? É o mesmo com os livros. Que buscamos em milhões de páginas? Continuamos esperançosamente a voltar as páginas – oh, aqui está o quarto de Jacob.”

Jacob é o protagonista do terceiro romance de Virginia Woolf (1882-1941), o primeiro em que ela se liberta de uma narrativa mais linear. Sim, há uma história, mas não corre como um fio. Porque a vida de um homem não corre como um fio. Existe inteira num fragmento, não a conseguimos ver do princípio ao fim, atinge-nos por um instante, e depois escapa, já foi.

Ao terminar “O Quarto de Jacob”, no Verão de 1922, Virginia (Stephen em solteira, Woolf por casamento) escreveu no seu caderno de notas o verso em que o poeta romano Catulo se despede do irmão: “Atque in perpetuum, frater, ave atque vale” (“E para sempre, irmão, salve e adeus”*). Por baixo acrescentou: “Julian Thoby Stephen (1880-1906).”

Thoby era o irmão mais velho. Tinha (como Virginia e Vanessa) um rosto comprido, olhos claros, melancólicos, queixo e lábios proeminentes. Nas fotografias, parece belo (como Vanessa, e, por vezes, Virginia). O seu círculo de amigos em Cambridge foi um dos embriões do Bloombsbury Group.

No Verão de 1906, os quatro irmãos Stephen (o mais novo era Adrian) e uma amiga partem para uma longamente desejada viagem pela Grécia. Durante a estadia, Thoby apanha febre tifóide e morre pouco depois do regresso a Londres. Tinha 26 anos. “O Quarto de Jacob” é a saudação ao irmão que morreu. Uma vida, pontos intensos de luz.

Cambridge: “Dizem que o céu é o mesmo em toda a parte. Os viajantes, os náufragos, os exilados e os que estão a morrer reconfortam-se com esta ideia; e não há dúvida de que dessa superfície inviolada jorra consolo e até explicação para quem tenha tendências místicas. Mas sobre Cambridge – ou pelo menos sobre a capela de King's College – há uma diferença. No mar longínquo uma grande cidade projecta claridade para a noite. Será demais imaginar que pelas fendas da capela de King's College o céu penetrava mais leve, mais fino, mais espumoso do que o céu doutros lugares? Cambridge estará iluminada não só de noite mas também de dia?”

A Grécia: “[...] no dia seguinte o comboio deu lentamente a volta a uma colina em direcção a Olímpia e as camponesas gregas estavam no meio das vinhas; os velhos gregos estavam sentados nas estações a berrricar vinho doce. E Jacob, embora continuasse deprimido, nunca suspeitara quão tremendamente agradável é estar só; [...] Galopar destemperadamente; cair na areia esgotado; sentir a terra girar; sentir – positivamente – um ataque de amizade pelas pedras e relvas, como se a humanidade tivesse terminado; e quanto aos homens e mulheres, quero lá saber! – não podemos negar que este desejo se apossa de nós frequentemente.”

quinta-feira, 19 de abril de 2012

DIFERENÇA


Dentro do café, os homens olham para as unhas. Alguns também fumam. A empregada, de curvas salientes, está sentada nos barris de cerveja. Tem um rosto bonito e incomum, porque as sardas, com diâmetros exagerados, dão-lhe características peculiares. As íris, pintadas a azul-bebé, e as sobrancelhas, volumosas e eriçadas, ajudam a reforçar a estética da porcelana. Por detrás da parede de vidro, as nuvens, carregadas de humidade, escondem o azul do céu. A cidade, de regresso a casa, fica pardacenta e perde o perfume da Primavera. Daqui a pouco, as lâmpadas públicas irão acender os passos dos transeuntes. Levanto-me e vou até à caixa. A empregada, lentamente, move o corpo. Depois mexe nos botões da máquina registadora e diz-me: “Três euros e trinta”, “Na semana passada, para o mesmo consumo, paguei dois euros e pouco!”, “Faça queixa ao governo”, engulo a surpresa e tiro a carteira do casaco.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ASSALTO


O frio encrespa-se. As pessoas, de golas erguidas, correm e escondem-se nas tocas das lojas, onde os valores dos saldos são expostos nas paredes. Mas as carteiras, desprovidas de essência, avisam-nas que o momento não está para gastos. Ficam tristes e fazem beiços carregados. As empregadas, de narizes metidos na coscuvilhice, observam-nas. Subitamente, no pronto-a-vestir, que fica ao pé da câmara, é assaltada. Os ladrões, homens de estrutura volumosa, descem a correr a Rua da Liberdade. Ao pé da estátua do rei mudam de direcção e desaparecem. Os arbustos são bons para isso. Pouco depois, o carro da GNR penetra nas perguntas dos velhos e pára a dois palmos da mulher que grita. O condutor, um albino sorridente, faz mover o vidro, “Onde estão?”, “Estão ali”, e os dedos da pobre histérica esburacam o sossego do parque, “Os bandidos não vão longe”, faz-lhe uma vénia e acelera. O carro, dos anos oitenta, seguramente, incendeia de vermelho os olhos das pessoas quando trava. Mas o mistério, em forma de bruma, apodera-se da máquina.

terça-feira, 17 de abril de 2012

SOL

chove, faz frio, mas sobre o promontório as nuvens são panos rotos. o sol, matreiro, pontapeia as fissuras e desce até ao topo da montanha.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

BIBLIOTECA

estou na biblioteca. do lado direito, está um miúdo a jogar às cartas no computador. por detrás dele está um mar de livros. e todos eles estão fechados. será que ele vai abrir algum?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

SUGESTÃO


Joyce acabou de escrever Retrato do Artista quando Jovem em 1914, ano de publicação de Gentes de Dublin. A novela descreve a infância em Dublin de Stephen Dedalus e a sua busca de identidade. As diferentes fases da vida do protagonista, da infância à vida universitária, refletem-se em mudanças no estilo narrativo. Os aspetos biográficos são tratados com irónico distanciamento, num trajeto que culmina com a rutura com a Igreja e a descoberta de uma vocação artística. A obra é também um reconhecível auto-retrato da juventude de James Joyce, assim como uma homenagem universal à imaginação dos artistas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

AVES

As aves voam em círculos em redol do beiral saliente de uma casa. O ar da tarde dos princípios de abril torna o seu voo nítido, os seus corpos escuros e palpitantes projecta-se, num nítido constraste, contra o céu, como se este fosse um pano pendurado.

terça-feira, 10 de abril de 2012

RUA


No meio da azáfama dos transeuntes, que bufam palavras incultas e gesticulam verdades imaculadas para os telemóveis, sinto os efeitos do calor. De olhos esbugalhados, limpo a testa e tiro o casaco. Depois arregaço as mangas da camisa até aos cotovelos e movo-me. Quero fugir deste sítio. Ao pé do sinal que me obriga a parar vejo os automobilistas a correr. Parecem meteoritos apressados. Mas a bolinha vermelha diz aos atrasados para estacionar as máquinas em frente às riscas brancas, onde as multidões aproveitam para se cruzar. Movo-me. Sou o único a fazê-lo com lentidão. Perto do passeio oposto, as minhas mãos perdem o casaco. Para o salvar das solas que pisam o chão com negligência, dobro os joelhos e movo os braços. Mas abandono a ideia quando vejo as rodas dos carros a sair da inércia. Colado ao poste, que no cume tem três regras distintas, escondo o nervosismo atrás dos punhos e espreito o pobre casaco. Do outro lado, as vozes continuam a gritar para os telemóveis; os olhos, cravejados de brilhos, colocam calmamente o olhar na carnificina. Uma repulsa, por causa dessa coscuvilhice atrevida, por causa desse atrevimento inesperado, apodera-se da minha traqueia. A voz, no entanto, permanece inexpressiva e isso é algo que me agrada, porque se ela exprimisse o amor que sinto pelo casaco as multidões achariam que sou um pateta ou um velho sem juízo. Entretanto, os automóveis param. Tiro da cabeça a indecisão, essa coisa que me faz pensar que não tenho certezas, e olho para os olhares que se afastam do casaco e olho para as pernas que se movem. O objecto, que foi uma prenda de anos da minha falecida mulher, é de novo esmigalhado. As mangas, como não resistiram aos choques, são agora dois balões que voam por entre as pernas dos desconhecidos. Faço dilúvios nos olhos e reforço os regos do rosto, mas digo adeus à memória quando me sinto a sufocar.

sábado, 7 de abril de 2012

PÁSCOA


A mesa está cheia de amêndoas e de ovos pintados. Só falta o pão-de-ló para preencher o círculo que está no centro. Mas vai demorar, porque a entrega está atrasada. Foi o que me disseram na pastelaria. Não faz mal. Sento-me no sofá e observo as folhas das árvores. Ao fundo, o céu carrega-se de nuvens e de pássaros, “Trimmm! Trimmm!”, o telefone toca. Abandono o miradouro e vou até à cozinha. Sobre o parapeito, leio as palavras que estão no ecrã: “Desejar uma páscoa feliz aos amigos do blog”, apago o lembrete e ligo o computador.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

NO MEIO DA PENUMBRA


O dia está frio, mas não há vento. No céu, as nuvens engolem aviões e escondem o sol. Mais a baixo, alguns pássaros olham para as ruas da cidade, onde a solidão se passeia com lentidão. Coloco o cansaço num banco e olho para o horizonte. É difícil distinguir a linha que divide os sonhos da verdade, porque as cristas dos prédios escondem partes importantes do contorno. Mas deixo de a procurar quando o chão de madeira me avisa que há alguém a caminhar. Movo o rosto. No lado oposto, vejo o corpo da minha mulher sem a vestimenta. Engulo um desejo, um desejo ardente, forte, enorme, e ergo a ansiedade. Abro os braços e abraço as ancas esfomeadas, enquanto perco as calças.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

FRIO

tenho o nariz frio; os dedos dos pés são cubos de gelo. na rua vejo pessoas com o peito à mostra. talvez a constipação seja a causa desta diferença.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

DE MANHÃ

Acordo com a cara enterrada no pântano viscoso que brotou da minha boca. Junto a ele está o meu companheiro a lambê-lo. Reprovo-lhe a atitude através de um sopro impetuoso. O tipo, a piscar incómodos, abana a cabeça com veemência. Tenta proteger-se da tempestade. Mas a aflição leva-o até ao sobrado, “Isto não é para beber, menino!”, grito com enfado. Como não o vejo, estico o pescoço e movo a cabeça. Os gestos, violentos e irreflectidos, obrigam-me a desequilibrar. Para recompor o equilíbrio do tronco, coloco a mão esquerda no meio do pântano. Digo palavras incultas, dou suspiros nervosos, encarquilho os regos do rosto e desenho anarquias com os braços. Transformo-me num desassossego hilariante. Por isso é que a bola de pêlo fez ironias com o rosto quando me viu, “Tratante!”, pego numa almofada e atiro-a. Não consegui controlar a ira.

terça-feira, 3 de abril de 2012

NOITE

Perto dos objectos minúsculos, o crepúsculo é engolido pela noite. Da varanda do meu apartamento, que está a três pisos de altura do pavimento asfáltico, assisto ao acontecimento. O gesto, executado pela natureza, obriga-me a recordar os gestos dos homens. Mas quando as estrelas se acendem, os flagelos dissolvem-se no brilho dos meus olhos. Quase ao mesmo tempo, os candeeiros que estão presos às fachadas dos prédios iluminam os movimentos da solidão, que desce calmamente pela rua. Movo o olhar e espio-o. Sem que nada fizesse prever, a tristeza recorda-me o dia em que a minha amada morreu. Ao recuar até à tragédia, as fontes dos sentimentos enchem-se de dilúvios. Os regos do rosto, incapazes de orientar a emoção, ficam submersos. Isso permite à aflição penetrar na minha pele. Para não a ter como companheira, varro o pensamento e limpo a humidade.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

LIVRARIA ARQUIVO


No sábado, em Leiria, a livraria Arquivo foi o local escolhido para receber as palavras do remix: uma espécie de remistura a partir dos contos do Paulo Kellerman, que estão unidos num e-book. O espaço, repleto de razões empacotados em livros e de aromas magníficos, expelidos pela máquina do café e pela torradeira, esteve cheio. Tão cheio que não dava para meter mais cabeças. O que me impressionou. Como também me impressionou a emoção que saiu dos rostos quando os autores, os senhores das metamorfoses, leram os cozinhados. No final houve abraços e beijos. Alguns foram regados por lágrimas; outros pediram a tudo para que o futuro traga mais eventos.

sexta-feira, 30 de março de 2012

NOITE


Perto dos objectos minúsculos, o crepúsculo é engolido pela noite. Da varanda do meu apartamento, que está a três pisos de altura do pavimento asfáltico, assisto à insolência. O crime, gesto executado pela natureza, obriga-me a construir palavras feias dentro de mim. Mas o silêncio aconselha-me a usar pensamentos mais recatados. Para não o atormentar com questões intensas, com questões que incomodam, dou um suspiro e olho para cima. A cidade do além, que é um espaço sem construções – pelo menos é o que os sonhos me informam – acende as estrelas. O manto da bruma perde então o aspecto irreverente e ganha contornos simpáticos. Quase ao mesmo tempo, os candeeiros presos às fachadas dos prédios iluminam os caminhos dos transeuntes. Movo o olhar e espreito a solidão. Sem que nada fizesse prever, a nostalgia relembra-me a morte da minha amada. Ao recuar até à tragédia, as fontes dos sentimentos fazem dilúvios calorosos. Os regos do rosto, incapazes de orientar a emoção, ficam submersos. Para que a inundação não invada por completo os lábios, varro o pensamento e limpo a humidade.

SOL

estou constipado. no céu, o sol envia raios de calor. isso provoca-me desconforto nas fossas nasais e nos tubos respiratórios. faço caras feias, daquelas que fazem assustar qualquer um. mas a sombra, que se esconde por detrás de alguma coisa, ergue a bondade. deixo o pudor no esquecimento e aceito o convite.

quarta-feira, 28 de março de 2012

EXCERTO DO ROMANCE QUE ESCREVI

"Sem que nada fizesse prever, sinto no peito uma dor confusa. Cruzo os braços e pressiono-o com afinco. Aos poucos, o crepitar perde o fulgor. Quando ela é apenas uma embalagem, uma partícula de memória, descravo a fúria do tronco e faço Primaveras no rosto. Ficam só a faltar os voos dos pássaros e as cores das flores para ter a perfeição dentro de mim. Mas o cansaço é um martelo que me massacra. Agarro no cobertor que entretanto caiu e vou para a sala."

terça-feira, 27 de março de 2012

126º ANIVERSÁRIO


Ludwig Mies van der Rohe, nascido Maria Ludwig Michael Mies, (Aachen, 27 de março de 1886 — Chicago, 17 de agosto de 1969) foi um arquiteto alemão naturalizado estadunidense, considerado um dos principais nomes da arquitetura do século XX, sendo geralmente colocado no mesmo nível de Le Corbusier ou de Frank Lloyd Wright.

Foi professor da Bauhaus e um dos criadores do que ficou conhecido por International style, onde deixou a marca de uma arquitetura que prima pelo racionalismo, pela utilização de uma geometria clara e pela sofisticação. Os edifícios da sua maturidade criativa fazem uso de materiais modernos, como o aço industrial e o vidro para definir os espaços interiores, e a aparência exterior de suas obras. Concebeu espaços austeros mas que transmitem uma determinada concepção de elegância e cosmopolitismo. Também é famoso pelas várias frases cridas por ele, algumas delas são conhecidas praticamente no mundo todo, como é o caso das frases "less is more " ("menos é mais") e "God is in the details" ("Deus está nos detalhes").

Mies van der Rohe procurou sempre uma abordagem racional que pudesse guiar o processo de projeto arquitectônico. Sua concepção dos espaços arquitetônicos envolvia uma profunda depuração da forma, voltada sempre às necessidades impostas pelo lugar, segundo o preceito do minimalismo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

FAMÍLIA


Em volta da mesa, as cabeças fazem sombra para o tempo de pedra. A criança, que está no centro do rectângulo, olha para as nuvens com cabelos, “Pipipipi!”, “Cucucucu!”, “Cácácácá!”, “Riririri!”, do céu, os trovões são cuspidos como os tiros. Os olhos, pequenos, frágeis, amedrontam-se. Mas o silêncio embarga-lhe e voz, “Pipipipi!”, “Cucucucu!”, “Cácácácá!”, “Riririri!”, de súbito, no quintal, os pássaros metralham o silêncio. É uma música eloquente. Abandono o púlpito e vou até à janela. Sobre as pedras, localizadas no fim da propriedade, os pinchas acasalam e picam nos concorrentes. Parece que os mouros andam por ali. Tiro os cotovelos da madeira, pois o cansaço aleija-me a carne, “Pipipipi!”, “Cucucucu!”, “Cácácácá!”, “Riririri!”, na cozinha, a penumbra crava-se nos rostos dos adultos. Da mesa, porém, sai uma luz que incendeia as palavras que dançam no espaço.

sexta-feira, 23 de março de 2012

CARO AMIGO

mastiguei o teu poema. dele saiu sucos de prazer. sorri, transformei as nuvens que abraçam os meus cabelos em auroras que invadem as primaveras, porque a minha língua sentiu-se a dançar com a maravilha. da prateleira, tiro poemas. abro o livro e escarro sentimentos. os vizinhos, de olhos arregalados, vociferam verdades que eu volto a cumpri-las. viver num apartamento tem destas monotonias.
com o corpo na cama, imagino o mar. é um abraço azul que sacode as sombras que saltam das montanhas. mas a poesia é um beijo que me faz adormecer.

OLHOS

Os olhos do Lobo Antunes controlam os meus dedos. Por vezes dizem-lhes que o texto está mau; por vezes dizem-lhes que as palavras são fraquitas. Mas os elogios são beijos que eles não recebem. Sentem-se tristes, lacrimosos; esperavam que a pedra fosse mais mole, menos intensa, esperavam um assobio mais fino. Sorrio e digo-lhes que o maior elogio é ter uma voz que critica.

JUAN GRIS


Juan Gris, pseudónimo de Juan José Victoriano González (Madrid, 23 de março de 1887 - Boulogne-Sur-Seine, 11 de maio de 1927)[1], foi um dos mais famosos e versáteis pintores e escultores cubistas espanhóis. Apesar de ter falecido jovem, Juan Gris representa o expoente máximo do cubismo sintético.

Iniciou a sua formação ingressando na Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Após este período tornou-se aluno do pintor José Moreno Carbonero, começando também a ilustrar algumas revistas modernistas de poesia da época.

No ano de 1906, mudou-se para Paris, a "cidade-luz", centro mundial das artes. Ali conhece artistas como Guillaume Apollinaire, André Salmon, Max Jacob e, o que mais o marcou e influenciou, Pablo Picasso. Através deste último, conhece também Georges Braque.

Em 1912, passou, finalmente, a integrar o movimento cubista, tornando-se assim, conhecido em todo o mundo. Celebrou também, a sua primeira exposição individual, realizada na Galeria Sagot.

Continuou a expor nas melhores galerias de arte, até 1927, ano em que faleceu, com 40 anos de idade.

quarta-feira, 21 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA


Poeta plural como o universo. Sentia com a imaginação. Prendeu a alma do pensamento e escreveu a poesia dos lugares comuns, das mentes inquietas, do Portugal sonhado, do amor adiado. Poeta que ainda hoje respira nas ruas, porque os seus versos marcam os nossos infinitos. (dia mundial da poesia. dedico este texto ao FERNANDO PESSOA)

terça-feira, 20 de março de 2012

ADEUS

E a voz morreu e o corpo sucumbiu às lágrimas que o devorava. As mãos das ervas, as amigas daquele corpo, estão debruçadas no caixão. Em volta, o silêncio reza. Pouso os joelhos na planície da tristeza e procuro nas prateleiras da memória as reminiscências que me façam sorrir. Pouco depois encontro-as nos fundos do compartimento, empacotadas em partículas de pó. Retiro o peso do tempo e volto aos tempos da juventude, onde nunca deveríamos ter saído.

segunda-feira, 19 de março de 2012

DIA DO PAI


As rectas e as curvas das ruas estão carregadas de calor. O sol sabe que hoje é o dia do pai. O meu está ali, sentado na poltrona dos reis. Diz que estes dias foram feitos para concentrar beijos e mimos nas bochechas dos felizardos. Não lhe refuto. Sei que ele tem razão. Também gosto de os receber quando o calendário diz-me que faço anos. Sem delongas, porque estas coisas não devem dançar com as hesitações ou os desperdícios de tempo, atiro os lábios para o púlpito. A minha mãe, agarrada às madeiras da porta, fica com os beiços descaídos. Dou uma gargalhada e digo-lhe que os ventos do meu coração também chegam para ela.

sábado, 17 de março de 2012

DIA

a chuva cresce e a terra molha-se. parece que se lava do calor que a tem maguado. os miúdos, de narizes encolhidos na tristeza e de bolas ao peito, espreitam o cinzento do dia. hoje não vai haver bulha. abro o livro do saramago e releio o impossível: "ensaio sobre a cegueira" e saboreio os sumos que as metáforas transportam.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SUGESTÂO


«O assassinato de duas prostitutas, no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso sindicato do crime. A história passa-se em boîtes e bares sórdidos, em sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de casais fazendo sexo.» Do posfácio de Mario Vargas Llosa

quinta-feira, 15 de março de 2012

NO CAFÉ


De manhã pouso os respiros nas teclas do computador e construo frases. Os movimentos do café não me afectam. Mas os beijos das crianças pedem-me um minuto de atenção. Concedo-lhes. Ao fundo, o céu e a terra brincam com a infância, enquanto os olhos dos adultos apontam que o futuro juntará aquelas almas. Que infelizes! Ainda não sabem andar e já a hipoteca lhes diz que o caminho a seguir é aquele. Para não me aborrecer, levanto-me e abro a porta. Quero que o vento pontapeie o ócio.

quarta-feira, 14 de março de 2012

UMA MANHÂ


Os primeiros braços da manhã perfuram os sonhos das cabeças, que mastigam os sorrisos ou as tristezas. As cristas das folhas respiram alegrias, pois já podem sentir a eloquência do sol. No empedrado, os carros estão cobertos por partículas da noite. Fecho a janela. Deixo que a aldeia se vista de luz. Depois de sentar a sonolência na cama coço a anarquia. O cabelo é uma floresta devastada por uma tempestade, pelo menos é o que me diz a parede de vidro. Do outro lado do conforto, sinto um movimento. Olho para esse ponto. De braços a desenhar preguiças no ar, a desconhecida é uma Primavera. Estico o desassossego e toco na ponta da volúpia, “Malandro!”, sorrio. É um gesto que sente a loucura do desejo. Ela pressente que a manhã lhe vai dar muito trabalho. Mas não está com vontade de ser escrava da minha anca. Por isso salta para os fundos do quarto. Fico triste e perco a elasticidade do corpo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

QUINTA


A tarde respira os últimos suspiros e as galinhas esticam a preguiça. De quando em quando, o peito do galo acaricia as costas das meninas. A velhota, que é uma amiga do meu coração, dá-lhe uns bufos e atira-lhe uma escarradela grossa. O tipo, de olhos satisfeitos, levanta o bico e vira-lhe a repugnância. Perante tal comédia, os meus dentes constroem Primaveras. Há muito que não sugava um filme tão eloquente. Indiferente a isto, o gato pousa o cansaço na pedra e coloca a boca no leite. Aos poucos, o prato de inox fica com a solidão a mordiscar-lhe o nariz. Na rua, os cavalos levam os bojudos para as quintas que proliferam ao longo do monte, onde os ventos namoram com as árvores. Por fim, a noite crava-se na crista de todas as coisas. As estrelas, do tamanho de olhos, agarram-se às almas que saíram dos corpos adormecidos e dançam uma dança dos sonhos. Sorrio. Gosto de ver estas coisas. Quando o frio coze-me a carne, vou para o quarto e tiro os pés do chão.

sábado, 10 de março de 2012

AURORA E AS NUVENS

A crista dos montes namora com a aurora. fazem uma dança com as cores que nem em filmes se viu. mas os espirros das nuvens encobrem as delícias naturais.

sexta-feira, 9 de março de 2012

SUGESTÃO


«Arranjei o covil e parece que me saí bem. Do exterior vê-se apenas um grande buraco, mas na realidade esse buraco não conduz a parte nenhuma (…) Porém, a uns passos do buraco, abre-se a verdadeira entrada, coberta por uma camada de musgo, que eu posso levantar: se há neste mundo alguma coisa segura é este lugar.»

quinta-feira, 8 de março de 2012

JOGO


dentro do pavilhão, as vozes comem golos e vociferam com as derrotas. é uma forma de transpirar os desassossegos do dia. quando o relógio nos mostra que o cansaço é o capitão do nosso corpo, vamos para o balneário e despimos os nervos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

NUVENS


lá fora, o portão de entrada faz barulho. parece um rinoceronte a namorar. dentro de casa, puxo os cobertores até às orelhas e espreito os suspiros da noite. quando o silêncio é imaculado, engulo o cansaço e adormeço. instantaneamente, o meu corpo salta para um miradouro, onde vejo as nuvens a espremer a tristeza. entristeço-me. não gosto de sugar os aromas da desilusão. mas o vento da comédia agasalha a minha língua com anedotas. por causa desses raios de sol, o céu azul desce até à terra.