sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sugestão para o Arejo

Carlos Macedo
Com o seu Fado, atravessa os oceanos e o Tejo, sobre a escala de uma guitarra – ponte construída por suas mãos.Carlos Macedo é sem dúvida um dos grandes fadistas de história e da actualidade que muito tem enriquecido a nossa cultura.Homem dotado de grande sensibilidade, cujo talento o tem destacado pela diferença enquanto: autor, compositor, interprete e construtor do seu próprio instrumento – a Guitarra Portuguesa.Obrigado Carlos por mais um documento marcante - ao fado, a ti e a todos nós!
26 de Maio, quarta-feira, 21h30,
Entrada: 5 eurosM/3
Duração: 90 m
Local: Casa das Artes - Vla Nova de Famalicão

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Era da Técnica


O homem cortou um dedo, numa máquina que lhe dá felicidade e sobrevivência para os buracos negros, que a vida nos oferece e por vezes nos empurra. Não ficou chateado nem magoado pelo acontecimento infeliz, porque aquela peça não interfere em nada no seu trivial quotidiano.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

“Jangada de Pedra”


Por estes dias, a palavra crise é uma obsessão: porque, em qualquer contexto e em qualquer indivíduo, ela deambula nos ventos como facas, sem ter o cuidado de não magoar a cidade. Contudo, para meu espanto, ela é varrida das mentes pelos hábitos de consumo dos Portugueses: sempre muito excessivos nos petiscos.
A este paradoxo, que me ultrapassa a minha compreensão, continua alheio infelizmente uma mão de ferro, como um Adamastor. E devido à falta de um herói, Portugal cada vez mais é uma “jangada de pedra”.

terça-feira, 27 de abril de 2010

As Portas do Infinito


Suponhamos que eu e tu estamos num infinito cheio de portas enegrecidas pela infusão, como se fossem pequenos mistérios a aliciarem-nos como mulheres. Será que a nossa natureza, já moldada a valores sociais, iria desembrulhar todos os presentes ou apenas contentar-se com a intenção individual? É uma pergunta pertinente para os egocentristas, que rejeitam a universalidade nas suas pessoas. Mas a resposta imediata deles namora com o erro de pormenor: somos o somatório de uma cidade, de uma rua, de uma família. E, portanto, somos todos produzidos de uma mesma massa. Embora com resquícios identitários nas nossas mentes.
Assim sendo, e sabendo que o silêncio do mistério obriga-nos a morder-lhe, as portas do infinito, nas nossas mãos, seriam mastigadas pela nossa aflição.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Gonçalo M. Tavares na Biblioteca de Paços


“Não é comum a literatura ter salas cheias”, sublinhou Gonçalo M. Tavares no encontro promovido pelo Ciclo Da Literatura E Artes De Palco, realizado no dia 23, que a autarquia disponibiliza para a comunidade nos meses de Abril, Maio e Junho.
O escritor e professor de Espistemologia na faculdade de Motricidade de Lisboa, vencedor de oito prémios nacionais e internacionais, dos quais se destaca o prémio José Saramago em 2005, pelo livro Jerusalém, perante o auditório repleto da Biblioteca Municipal Professor Vieira Dinis, contou como foi explorar o lado negro da nossa espécie, através da lógica e do paradoxo, ao longo dos quatro livros que compõe a colecção “O Reino”.
Jerusalém, um dos livros dessa tetralogia, e um dos livros mais elogiados dos últimos anos na Europa, como demonstra a sua inclusão nos “1001 livros para ler antes de morrer – um guia cronológico dos mais importantes romances de todos os tempos”, para o escritor Angolano, é a obra que melhor interpreta as reacções do homem em estados limite.
Houve ainda tempo para uma troca de ideias entre o escritor Gonçalo M. Tavares e o público presente.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sugestão para o Arejo

antes da noite, não perca a tertúlia com o gonçalo m. tavares, hoje, às 21.30, na biblioteca de paços de ferreira. o vencedor do prémio saramago, em 2005, usará o mal das palavras para nos explicar o bem, ou o inverso, ou nada disto...a incógnita do "Reino", ah, e do "Bairro"... APAREÇAM

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Espelho


Estou encolhido sob os lençóis e estremeço quando a voz do trovão me ralha nos defeitos. Fora isso, penso na forma de os triturar com gentileza. Mas a solução é apenas um horizonte com pernas, que corre como que a fugir. E concluo, assim, que a minha identidade nada é diferente da tua. Embora, saiba pelo esconderijo, que tu digas ao vento que a minha verdade é de um louco.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Cuidado

Foram os fracos que inventaram a injustiça para mais tarde poderem vender-se na compaixão dos sensíveis.

terça-feira, 20 de abril de 2010

As Prioridades


A noite está muito escura, densa, como que deserta dos amores brilhantes que lhe acariciam o constante; as ruas são apenas silêncios que transbordam nas bermas. Mas os cafés estão cheios de cabeças erguidas para o rectângulo que dá imagens muito mexidas, sobre o manto verde coberto de riscas. Embora, de quando em quando, algumas delas evaporam-se para o interior afim de rezar por uma alegria. Que, por manobra de um mágico, acaba por surgir. E aí, o terramoto é uma lembrança muito ténue.
Por fim, os proprietários dos gritos descansam o corpo nas dívidas, perto da aflição quase surda das companheiras e no quarto ao lado dos filhos sem comida no estômago. Mas o problema é visto pela cegueira das imagens esverdeadas.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gonçalo M. Tavares


Recebeu os mais importantes Prémios em Língua portuguesa: o Portugal Telecom 2007; o Prémio José Saramago 2005 e o Prémio LER/Millennium BCP 2004 com o romance - "Jerusalém" (Caminho); o Prémio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do Jornal Expresso, com o livro O Senhor Valéry (Caminho); o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com Investigações.Novalis (Difel) e o Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores "Camilo Castelo Branco" com água, cão, cavalo, cabeça (Caminho).
Os seus livros deram origem a peças de teatro, objectos artísticos, vídeos de arte, ópera, etc. Tem 21 livros a serem traduzidos em mais de dezasseis países.


6 feira, às 21.30, na biblioteca de Paços de Ferreira________Apareçam

O Passeio do Ouro


Aos fins-de-semana as modelas com gordura mexem as vestes brilhantes, pagas pelo ouro derretido, como se o líquido amarelado fosse idêntico ao líquido do trabalho. Ao lado, no mesmo ritmo, cães baloiçam a satisfação por derreter a testosterona na companhia das arábias. Mas deslumbra-se, aqui e ali, uma perfeição junto da perfeição. Embora, nestes casos, as vestes são apenas fios que guardam o pudor de uma intimidade.
Assim, na companhia dos silêncios, as gaivotas ou todos os navegadores dos ares vêm no quadriculado da cidade o amor falso a passear o ouro.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sugestão para o Arejo


José Pedro Gomes, depois do espectáculo «Coçar OndeÉ Preciso», continua a tentar perceber o que faz de nós um povo tão especial. Realmente, que nos leva a conseguir fazer coisas que mais ninguém faz? O que nos faz sermos melhores ou piores do que os outros? O que é que nos faria ser muito melhores? Quais são as pequenas arestas a limar para ficarmos perfeitos? São nos pormenores que nos distinguem dos outros povos que José Pedro Gomes se volta a debruçar, numa encenação de António Feio, com textos de Eduardo Madeira, Filipe Homem Fonseca, Henrique Dias, Luísa Costa Gomes, Marco Horácio, Nilton, Nuno Artur Silva, Nuno Markl


21 e 22 de Maio, sexta e Sábado, 21h30, Casa das Artes - Vila Nova de Famalicão
Entrada: 12 euros
M/12Duração: 90 m

quinta-feira, 15 de abril de 2010

As intermitências normais


Quando o tempo vazio surge, lá pós lados do longe a longe, penso que as nossas forças brutas da juventude se esbatem quase até ao desaparecimento, assim que uma dor nos lembra que somos mortais. Aí, a conviver com os moribundos dos filmes ou dos livros, as palavras são desferidas com amor. Porém, elas transformam-se em ódio demente quando o vento de Suão traz o calor que cheira a morte.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Onde estás?


As feiras dos livros do Porto e de Lisboa, as maiores do País iletrado, estão a dois passos de mordiscarem os vivos com novidades e lixos escondidos nos armazéns apinhados. Mas será que os livros de sabor a morango estarão na primeira prateleira? Ou estarão escondidos no bolso dos livreiros – e que apenas sairão desse aconchego caso haja um indivíduo de óculos no nariz, muito ébrio à qualidade, a pedir “algo esquisito”?!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Tu não existes


A maioria das pessoas não diz o que pensa. Talvez se sintam retraídas por medos que não consigo definir nem demonstrar. Ou talvez o conjunto que vive no mundo não se sinta preparado para a verdade. Ou por algo que me ultrapassa.
Mas por entre as possibilidades, talvez a mentira seja aquela que me aconchega mais a visão e o coração. Pelo motivo que as verdades imaculadas apenas se encontram nos livros…

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Esse é o problema


As ruas enchem-se de anónimos agarrados a tudo; até mesmo agarrados a outros anónimos: que apenas conhecem o nome, a idade e a residência. Tudo isto, quando muito: porque a importância de um corpo é o próprio corpo. Nada mais.
Mas pensar ou achar que o mundo é fútil da cabeça aos pés não é reduzir os pés aos mesmos sapatos, em tudo que o compõe? Talvez haja um exagero muito desproporcional à afirmação. Reconheço que a estudei pouco, reconheço que a intuição do senso comum me leva a cometer este descuido. Porém, também reconheço que ainda não senti outro cheiro.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sugestão para o Arejo


GRIZZLY BEAR

E eis que chegam finalmente a Portugal para alegria dos já muitos seguidores que ansiosamente aguardam vê-los, mas sobretudo ouvi-los, ao Vivo. Detentores de um dos álbuns do ano, aclamados pela crítica internacional, Melhor Álbum de 2009 para a rádio Radar, e com o single “Two Weeks” na campanha de uma conhecida marca automóvel. Dias 26 e 27 de Maio, também o público português poderá ser parte dos concertos intimistas que nos remetem para um mundo mágico, o mundo dos Grizzly Bear, onde com um extraordinário encadeamento de vozes celestes surgem diferentes enquadramentos a cada segundo.


Coliseu do Porto

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nunca é tarde para amar um conhecimento


E por fim o mundo termina na idade da reforma, uma vez que os indivíduos ficam silenciosos e presos ao “desactualizado”, como dizem os infantis carregados de espinhas bem amarelas, encarrapitados numa importância de principiante. Por isso, para eles, a morte é apenas o último passo que poderão dar em vida.
Nada tão ridículo este sentimento, este abraço a uma verdade que nada nas águas na mentira. Porque mesmo o último dia é o início de um conhecimento até aí misterioso, até aí ocultado pelos nossos passos presos a um caminho sempre distante dessa surpresa.
Eu, tu, e todos os distantes das palavras, não nos podemos esquecer que a cada esquina uma rosa de beijos lambe-nos os rostos com novidades. E é com elas que os nossos olhos devem sorrir e o nosso corpo deve repousar. Tudo o resto será amar a infelicidade até que a morte nos leve a última lágrima.

terça-feira, 6 de abril de 2010

É tudo uma questão da noite


A noite agora começa a nascer, com grande sentido de maturidade. Mas os gritos dos vampiros já se ouvem a mordiscar os pescoços dos vivos. Porque a vontade de nascer para o tempo é mais forte do que morrer para o nada.
E as estrelas moribundas usurpam a verdade da rua, sem os bocejos do cansaço habitual de outros…

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Dia Um


O dia de Natal, Páscoa, S.Valentim...são sedes de momento. O dia de hoje são flagelos constantes.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Tudo Passa A Nada Num Não


Primeiro entranha-se, depois desentranha-se – num período incontável porque depende de indivíduo para indivíduo. E a passagem da ponte nunca é vista como tal. Talvez o amor seja cego e crente ou talvez os nadas sejam vistos como insignificâncias, ou como “perfeitamente normais”. Essa velha resposta de último recurso, que esconde muitos lagartos roxos. Mas a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima. E ela surge sempre na última curva da felicidade, como uma bomba.
Depois, o recurso óbvio é o desaparecimento até nunca, sem antes se abalroarem em palavrões. Independentemente das memórias e dos contratos entretanto estabelecidos.
Mas que ninguém pense que o mundo termina para esses indivíduos; nada de mortes prematuras, meus senhores. Porque ao primeiro desejo, o ombro mais amigo, talvez um fingidor, é agarrado para a macaquice das antigas.
“Enfim, modernices”, como diz a minha querida avó.

terça-feira, 30 de março de 2010


Depois da tristeza, banhada a chuva constante, o sol vive os céus. Ainda com alguma timidez, é certo, mas o tempo lhe indicará a confiança.
E, com ela, o rosto será aceso, como a chama de um incêndio na floresta, em plena secura de amor. E, consequentemente, as rosas beijarão os homens taciturnos que rasgam o planeta.

segunda-feira, 29 de março de 2010

E a crise é uma questão de dívidas


A loucura para estacionar já ultrapassa, em muito, o razoável. Mas, num segundo de inspiração, o silêncio da noite ilumina-nos um meio estacionamento, coberto pela copa de uma árvore. Sorrimos pelo gesto divino e colocamos a metade do carro no descanso.
Dentro do recinto, o barulho é inovador e muito estudado, porque tudo é repetido. É um gesto natural para quem ama a perfeição. Mas os instrumentos entopem sempre numa nota desconhecida. E a música não arranca. Dos lados, o esquerdo e o direito, como os meus braços, cabeças incontáveis mastigam uma feira gastronómica sem respirar. E todas festejam a vida como se ela não trouxesse, aqui e ali, alimento envenenado.
Por fim, as velas apagam-se e o dinheiro das dívidas engorda os proprietários do espaço. E a noite, depois dos últimos passos alegres, mostra-lhes o lado B da vida.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Ler


É deste modo que Kafka inicia a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante "obrigado" que deixou de ter vida própria para suportar financeiramente todas as despesas de casa.
Numa manhã, ao acordar para o trabalho, Gregor vê que se transformou num inseto horrível com um "dorso duro e inúmeras patas". A princípio, as suas preocupações passam por pensamentos práticos relacionados com a sua
metamorfose.
Depois, as preocupações passam para um estado mais psicológico e até mesmo sentimental. Gregor sente-se magoado pela repulsa dos pais perante a sua metamorfose. Apenas a irmã se digna a levar-lhe a alimentação, mas mesmo assim a repulsa e o medo também começam a se manifestar. A metamorfose de Gregor vai além da modificação física. É sobretudo uma alteração de comportamentos, atitudes, sentimentos e opiniões.
Gregor passa a analisar as coisas que o rodeiam com muito mais atenção. Outra metamorfose ocorre no seio familiar: o pai volta a trabalhar, a irmã (Grete) também arranja um emprego e passam a alugar quartos na própria casa onde habitam. As atitudes dos pais perante o filho retratam ao leitor a idéia que este era apenas o "sustento" da casa. A metamorfose de Kafka não conta apenas a história de um homem que se transformou num inseto. É sobretudo uma história de alerta à sociedade e aos comportamentos humanos. Nesta história, Kafka presenteia-nos com a sua escrita sui generis, retratando o desespero do homem perante o
absurdo do mundo.
Interessante perceber que em nenhum momento da obra Gregor se dá conta realmente que se transformou num inseto. Apenas observa seus novos membros, órgãos e hábitos, mas com o tempo se acomoda na nova condição sem realmente entender no que se tornara.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Condomínio Com Abismos


Sopro uma fúria pelo barulho das contas, vindo dos degraus que assistem às ameaças humanas. É sempre assim, quando as contas do condomínio estão a beber café com o diabo, numa calma desumana.

terça-feira, 23 de março de 2010

A Noite, Depois de Adormecer


Verifico que a noite não serve para viver. Apenas serve para sentir o respiro a afundar-se num adeus profundo, para lá do planeta.
E é aí que todos se encontram: os vivos e os mortos, numa união de mimos clandestinos.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sou Um Vento


Sou um vento que não voa,
porque a morte não me deixa
sair para o calor do teu colo.


Sou um vento que escarra as últimas
gotas de vida.


Sou um vento que já não existe.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Santo do Meu Avô


O santo do meu avô vive numa nuvem branca, a pairar pelo azul muito intenso do céu, porque o seu corpo, em vida, beijava constantemente a felicidade da amizade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Coisas


Um rico que nasce pobre sente que quantas mais coisas tiver mais amor alheio irá ter. Nada mais, nada menos, como uma verdade verdadinha.
Onde está a flecha para os abater?

terça-feira, 16 de março de 2010

A Morte dos Outros


Para muitos, os que convivem com a deselegância de pensamento, a morte de indolentes com dinheiro amarrotado no colchão é uma satisfação colossal, como se a lua amarasse as estrelas à cintura de uma necessidade. Porque as contas sussurram-lhes os ouvidos cheios aos dias cinco de cada mês, até ao fim dos respiros dos corpos, até ao último olhar.
Não admira que assim seja, já que a posse das coisas, das coisas, e mais coisas, é como uma urgência de comer: imprescindível.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bolor


Estou sentado no chão, coberto por farrapos nauseabundos, sarapintados por nódoas de bolor que encobrem a ferida provocada pela vida descuidada…

sexta-feira, 12 de março de 2010

Para O Meu Pai


O meu pai está reformado. E bem, diga-se. Porque o lombo dele é uma tábua repleta de cicatrizes rosadas, que contam memórias com piada. Pelo menos, para quem está de ouvidos arreganhados a captar a voz concentrada em pormenores. Embora, por vezes, o cansaço entranha-se nesses ouvintes e os obrigue a refugiarem-se num atraso para um encontro, porque a voz tem sempre sede, tem sempre alimento para mais um se.
Mas como dizia, o meu pai está reformado. E o tempo para ele ganhou uma dimensão gigantesca, ladeado de muito sol e de muita noite. Mas a noite respira-se num simples bocejo, acompanhado por um piscar de olhos muito rápido; mas o dia é um mar por navegar sem bússola para o orientar. Temi que se afundasse, ao largo de um adeus eterno. E por isso, os meus dias eram uma espécie de arma que me bordejava o corpo.
Enganei-me, como se as ruas da minha cidade fossem anónimas como as tuas, porque o mar transformou-se em rio e o rio numa simples nascente. E o que parecia inevitável afundou-se num local sem nome, como num terreno baldio; e o que parecia impossível brotou das trevas intensas para os livros didácticos e literários.
Deixo descair uma lágrima para o regaço e sorrio intensamente, e penso, “a felicidade está em pequenos gestos.”

quarta-feira, 10 de março de 2010

Todos Pela Voz


Paulo Rangel, Aguiar Branco e Pedro Passos Coelho, todos por uma voz despegada do poder. Haverá mais tipos? Apenas afirmo especulações que não interessam à certeza e a nós, amantes da verdade. Ao contrário dos sanguessugas que tudo sugam para descobrir o silêncio imaculado.
Retirando estes floreados, completamente agarrados ao vazio e à insignificância, brota uma necessidade para o mal: disponibilidade para mudar, com originalidade. Sem isso, a voz do poder ficará mais perto das trevas.
Será que estes guerreiros têm carcaça para tal?

terça-feira, 9 de março de 2010

Devaneios


Bocejo como um camaleão esticado ao sol, alongando muito a língua até próximo do exagero. Depois da limpeza do sono, inverto lentamente a cor da minha estátua. E volto, com um sorriso acolhedor.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O Frio

Hoje, domingo, o frio ameaça qualquer vivo a viver definitivamente num deserto sem nome. Eu estou prestes...

"O dinheiro é democrático, se necessário, e ditatorial", Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sugestão para o Arejo


As Vampiras Lésbicas de Sodoma de Charles Busch

Encerramento do FAMAFEST

Companhia Teatral do Chiado Teatro Comédia

20 de Março, Sábado, 18h00, Casa das Artes - Vila Nova de Famalicão

Entrada:livre M/12 Duração:90 m


Com As Vampiras Lésbicas de Sodoma, a Companhia Teatral do Chiado orgulha-se de apresentar ao público português uma das mais originais figuras do showbizz da actualidade: o dramaturgo, actor, estrela de cinema, artista e romancista Charles Busch.Foi com As Vampiras Lésbicas de Sodoma que Charles Busch se tornou famoso, corria o ano de 1984. O pequeno Limbo Lounge, em Nova Iorque, onde o espectáculo estreou, ficou minúsculo, havendo quem assistisse à farsa de Busch nas mais inconcebíveis situações, incluindo a de ficar no átrio a olhar para um ecrã de televisão. Depois as Vampiras passaram para um teatro mais a sério e... ficaram cinco (5) anos em cena!O sucesso explica-se. Numa época dominada pelo espírito da paródia pós-moderna, Busch inventa uma história vertiginosa que começa nos tempos bíblicos, em Sodoma, e acaba na sala de ensaios de um "musical", nos nossos dias. Inaugurando um processo que veio a durar vários anos, o próprio dramaturgo brilhou no espectáculo ao representar o papel de uma das deslumbrantes protagonistas!As Vampiras Lésbicas de Sodoma, trazem ao palco um pequeno delírio de teatro popular onde o imaginário das histórias de terror se mistura com o glamour decadente do mito do Parque Mayer e o universo exacerbadamente sexual dos shows de travesti. Mas no centro de tudo está o combate feroz entre as duas vedetas, sedentas do sangue que lhes garante a eternidade e envolvidas numa competição estranhamente parecida com a rivalidade ciumenta que é típica entre as grandes divas do cinema.Por tudo isto, a Companhia Teatral do Chiado faz ao seu público uma sugestão bem simples: venham ao teatro, divirtam-se enquanto vêem uma magnífica comédia, mas... não se esqueçam de proteger o pescoço!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Filmes


Filmes e mais filmes, quase em todo o lado, como um respiro sempre presente. E todos os vêem nos seus refúgios, que por vezes são universais, com os olhares presos às lágrimas falsas que tentam parecer verdadeiras. Como o mundo. Ou não?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Romance que escrevo e que ainda não tem título - parte V


Já a noite levanta-se do repouso, estremunhada pelo dia mal dormido, quando introduzo a chave na fechadura do meu apartamento, com o coração a pulsar na boca. Rodo a maçaneta da porta e empurro-a devagar, num gesto simples e mecânico, destapando os primeiros objectos do meu lar, sob o olhar atento e terno do meu companheiro, sentado na inseparável poltrona, ao lado do luxuoso e ornamentado candeeiro de pé, que jorra luz ténue para o espaço minúsculo e acolhedor da sala. Imobilizo, retraio-me, envolto na perplexidade das incertezas, assim que o vejo ligado, pois tenho a convicção de o ter desligado. E inundado de dúvidas, procuro respostas, nos objectos plácidos, deambulando o olhar. Pouco depois, com elas, reformulo a minha convicção, a minha certeza, desprendendo-me do medo, do receio que me bloqueou os músculos, e volto ao gesto simples e mecânico, destapando mais objectos. Nesse mesmo instante, uma voz firme, forte e rouca, eleva-se. “Boa noite, meu velho, são horas?”. Estremeço pelo imprevisto e, por causa dele, embato na ombreira da porta, com alguma violência. “Não tenhas medo, sou eu”, repetiu a voz. Aturdido e, no meio do embaraço, reconheço o som. “Ah, és tu. Podias ter avisado, quase me matas de susto”. “Até não seria má ideia, pois não? Mas pensando melhor, é preferível ver-te espernear pelos cantos.” No meio dos sorrisos da personagem, recomponho a postura, a atitude medíocre do imprevisto, e entro, mergulhado em suores; num gesto firme, preciso, fecho a porta bruscamente com determinação e empenho. “Entrarás em despesas se continuares a insistir na força. Quem te avisa teu amigo é”, “Para amizade, é necessário músculo e vontade”, “Desfaço-me em gargalhadas se continuares. A idade deveria fortificar a tua maturidade. Não entendes que a amizade é uma urgência para quem aspira a algo? Tudo o resto, são meros pontinhos de cumprimento.”, “A mediocridade mental foi sempre o teu ponto forte”, remato com violência, enquanto me aproximo da poltrona real do meu camarada. Ao pé do púlpito, num gesto afável e delicado, embrulho a alteza com as minhas mãos e afago-lhe calmamente o dorso. Exulta o efémero com o lento espernear de patas, com os olhinhos fechados, numa melancolia extrema. Diverti-mo a contemplá-lo. “As minhas conquistas falam por si, são a resposta inequívoca do meu empenho…”, “Tens uma arma e usas contra o corpo de anónimos a teu belo prazer, sem te preocupares com os danos provocados, isso sim”, interrompo-o, “A que arma te referes, meu velho?”, “Os teus afeiçoados, essa corja nojenta. Não és capaz de seguir um rumo honesto, com transparência, longe das habilidades dos amigos”, e dito isto, solta-se uma lágrima, uma pequena e lívida lágrima de dor, de angústia, que escorrega lentamente pelo rosto, contornando todos os ângulos necessários, e solta-se uma lágrima cremada pela desilusão. Desprende-se um pudor arrogante, uma imaturidade exagerada pela lágrima derramada, incontrolável, exageradamente incontrolável, e sento-me na poltrona de veludo para o derrubar, experimentando o sentimento soberano do cadeirão, depois de colocar a bola de pelo no chão. Daí, confortavelmente instalado, ouço o silêncio a sobrevoar o compartimento; as palavras contidas, presas, fixas à laringe e nenhum pensamento, nenhuma ideia surge. E o vácuo cobre-me literalmente, abraça-me por infinitos segundos, por instantes, que parecem eternos, longos, como a noite de uma insónia, como a noite de um pesadelo; e o vácuo envolve-me até à imobilidade profunda do meu olhar a um ponto indefinido, por causa do nevoeiro pardacento. E ouço o silêncio a sobrevoar as duas cabeças efervescentes, presas a corpos estáticos, hirtos, agarrados, cada vez mais agarrados, às sombras elásticas dos moribundos. Mas a luz, aquela luz, a luz dos sorrisos e do pulsar saudável do coração irrompe, invade-nos como um beijo ternurento, com o silêncio a ser quebrado pela criatura maléfica, ao colocar-se de pé, numa agilidade fascinante. De costas voltadas, com o vasto cabelo ainda a deslizar até aos ombros, próximo da lareira metálica e ferrugenta, mascarado numas vestes negras e arrepiantes, fixa o quadro defronte: uma maravilhosa praia coberta pelo cinzento da tempestade que se aproxima. “Tenho direito a várias coisas e tu sabes. Espero poder recebe-las em breve. O temporal virá se demorar”, altivo, liberta vagarosamente as palavras, numa calma incaracterística. Amedronto-me e tremo com o impacto do frio, do conteúdo gélido desferido por aquela boca imunda, repugnante, incorporada em cremes hidratantes, em rímel e sombras escuras, incorporada num corpo desfigurado pelas tatuagens e pelos percings que afiguram caveiras e bandas de música. E eu amedrontado, amedrontado como se a morte me tivesse tocado levemente no ombro e sussurrado ao ouvido palavras que exigiam a minha presença, e eu amedrontado por causa da exortação, da advertência do terrorista, e eu amedrontado por não ter alternativas, por não ter escolhas: sem um talvez ou quem sabe por este trilho a coisa resolvia-se, e eu amedrontado, apavorado, estremecendo em solavancos fortes e horrorosos, e eu amedrontado, aterrado, espetado no meu canapé a sofrer. E o meu companheiro, pressentindo que um tormento me consome, me suga a alegria e a boa disposição, salta para o meu regaço de pelo eriçado, miando, miando cada vez mais alto, mais alto, atingindo níveis ensurdecedores, de olhinhos arregalados, furiosos, abatidos por me ver nesta frágil condição, com as unhas desdobradas, prontas a combater e a desfazer a minha tortura: essa maldita pedra enfiada no meu sapato. Sorrio levemente pela coragem de colocar o corpo à disposição das balas sem colete protector; sorrio pelo gesto simples de um amigo eterno, mas incapaz de me proteger contra o canalha que me ameaça e se depara ali, a poucos metros de distância, separados por um espirro mais forte, a mover-se na direcção da porta do adeus, de sorriso estampado no rosto. Junto dela, coloca a mão na maçaneta e, num gesto sereno, abre-a na totalidade. De costas voltadas, com a mão esquerda colocada na ombreira e a mão direita desaparecida nas vestes, “Estamos conversados, meu velho”, atira-me com brutalidade e desaparece. Cruzo os braços contra o meu peito, descaio a cabeça, fecho os olhos e afogo-me, e sufoco-me em complexos soluços e em desesperadas lágrimas. Pouco depois, com o corpo dorido, cansado, enclausurado na nostalgia fétida, banhado em dor, desespero, irritação, abandono o meu corpo e nado para os sonhos soalheiros, paradisíacos, afastados do beijo do diabo.
sujeito a mudanças

terça-feira, 2 de março de 2010

Pedro Sena-Lino


Os que estiveram na Biblioteca Municipal de Gondomar na sessão do dia 13 de Fevereiro, durante a apresentação da obra “333”, “passaram” de meros ouvintes para (quase) escritores, colaborando activamente com o escritor Pedro Sena-Lino naquilo que, concretamente, se tornou numa acção de formação.
A sessão contou com a presença do Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Gondomar, Fernando Paulo. Mas coube à técnica Liliana Pires fazer a apresentação de um autor que, destacou, “escreveu o seu primeiro romance mantendo, na obra, a mesma lógica de poesia de edições anteriores”.
Pedro Sena-Lino instou os presentes a escreverem sobre desconhecidos com os quais se cruzem todos os dias. E, daí, partiu para uma análise das soluções que adopta quando escreve. “É que basta olhar pela janela para se começar a escrever...”, salientou. Esta solução de escrever sobre desconhecidos, esclareceu, “é uma forma, ou vício, de inventar biografias... um exercício que, depois, me leva até personagens fictícias dos meus livros. Admitindo que teve pronto a ser editado um outro romance – que seria o seu primeiro... – Pedro Sena-Lino confessou que se recusou a avançar. “Aquele não poderia ser o meu primeiro livro...”
“333”, de Pedro Sena-Lino, é a primeira experiência no romance de um autor que, até esta altura, centrava a sua produção na poesia. Nesta obra é contada a história (até então secreta) de um livro e de todos os que o leram. Ou que, pelo menos, passaram pela sua vida.Composto por um conjunto de micro-contos, pequenas peças de um mosaico elaborado e imaginativo, “333” trata-se também de uma viagem pela geografia e pela história – já que o leitor atravessa séculos e imensos espaços geográficos (desde Portugal ao Novo Mundo) passando um pouco por toda a Europa, até um final revelador e surpreendente. Que revela que, como quase sempre, e no centro de tudo, está uma história de amor.Pedro Sena-Lino já tem sete livros editados. É formado em Estudos Portugueses e é crítico no jornal “Público”. Desenvolveu (e dinamiza desde 2000) um curso de Escrita Criativa. Já em 2005 fundou a “Companhia do Eu”, um centro de escrita e criatividade.
De referir que após esta apresentação/acção e formação, Pedro Sena-Lino ainda proporcionou uma breve sessão de autógrafos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Não Sei O Que Sinto


Não consigo expressar o que sinto. Penso que não existem palavras, nem mesmo imagens, que descrevam a felicidade do meu interior marcado pelas desilusões. Penso que o homem ainda é um ser infeliz por isso. É certo que os génios executam o seu trabalho perto do perfeito, mas não junto à perfeição. Adiante e esqueçamos o namoro com as lágrimas.
Como disse, não consigo expressar o que sinto. Porque a minha felicidade é tão grande que não cabe numa memória como a minha. O motivo? Simples: os livros, as palavras, os escritores e o contexto. Tudo é magnífico, tudo é belo. Nada a apontar. As correntes d’ escritas é um sonho que tive a felicidade de poder embarcar. E não quero sair, não quero sair. Meu Deus, não quero sair!
Amigos, sinto-me esgotado por tanta alegria, que até o meu coração me dói. Amigos, as palavras são tão belas!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sugestão para o Arejo


Bom dia palavras. Estão prontas para voarem nas utopias? Então preparem-se...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O Domingo


Ao domingo, a cidade encolhe-se no aconchego do sossego. Pelo menos, de manhã. Porque de tarde, as portas das casas abrem-se e, de lá, saem os esfomeados pela liberdade, os acorrentados à máquina do trabalho. Que durante a semana os ocupam por largar horas, como se o inferno lhes sugasse o sorriso aos poucos. Mas o tempo chuvoso, por vezes, castra-os a anarquia planeada no calendário, que se mostra diariamente na mente de cada indivíduo. E o choro, em forma de rio enfurecido, surge-lhes de imediato nos olhos pisados, por uma dor que lateja nas pálpebras sem cessar.
A segunda-feira acorda-os, com um abanão furioso. Levantam-se, ainda ressacados pela mágoa, e atiram-se à vida, como se atirassem para um abismo fundo. E tudo continua.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Concerto


CONCERTOS PROMENADE O Mestre de Música de Cimarosa

Um dos mais famosos operistas da segunda metade do século XVIII, Cimarosa chegou a ser comparado por Stendhal a Mozart. Domenico Cimarosa nasceu em Aversas, reino de Nápoles, em 17 de dezembro de 1749. Uma infância de orfandade e pobreza fez com que recebesse as primeiras lições de música num convento. Logo foi transferido para o Conservatório Santa Maria di Loreto, em Nápoles, aperfeiçoando-se em violino, canto, órgão e composição. Em 1772, estreou sua primeira ópera: “Le stravaganze del conte” (As extravagâncias do conde), início de uma carreira de sucesso. A fama do seu talento levou-o até à Rússia, onde passou três anos como mestre-capela da corte de Catarina II. Ao regressar de São Petersburgo, permaneceu algum tempo em Viena, onde foi grandemente acolhido por parte da nobreza. Data de então sua obra-prima, “Il matrimonio segreto” (1792; O matrimônio secreto), base da reputação que manteve durante o século XX.

21 de Fevereiro de 2010, 11h30 - Coliseu do Porto

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Confesso


Confesso que a noite não cospe alegrias nem produz sentimentos acolhedores no meu peito descalço de amores taciturnos. Confesso que a noite devia de ser abolida ou transformada em palavras carregadas de luzes, como se o dia as embalasse. Confesso que não gosto de apalpar a noite e de senti-la nos meus sonhos. Confesso que não sinto alegria quando ela me beija as pálpebras e me faz uma carícia no rosto, como um sorriso maligno a percorrer-lhe os sentimentos dos dentes, impregnados pela escuridão como podridão.
Confesso, meus amigos, que a palavra confesso já me enoja, já me atormenta, porque a loucura da inércia já me perdura em demasia!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

‘Assobiar em público’

Este é o nome do livro, do conhecido autor Jacinto Lucas Pires, que foi apresentado recentemente na Biblioteca Municipal de Gondomar. A obra, uma antologia de contos, dá a conhecer textos do escritor recolhidos de outros livros e de revistas ou livros de circulação mais restrita.
O vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Gondomar, Fernando Paulo, acompanhou Jacinto Lucas Pires nesta sessão de apresentação (seguida de uma breve sessão de autógrafos). Admitindo que “é muito mais difícil falar do que escrever”, Jacinto Lucas Pires destacou que “escrever é falar de nós sem falar.” O autor nasceu no Porto, em Julho de 1974. Vive actualmente em Lisboa.
Já publicou livros para/de teatro, ficção e ainda vários textos em publicações e revistas. Filho do advogado e dirigente político Francisco Lucas Pires, a sua carreira passa também pelo cinema, como argumentista, e pela música (sendo membro da banda ‘Os Quais’).
Em Novembro de 2008, Jacinto Lucas Pires foi o vencedor do Prémio Europa, atribuído pela Universidade de Bari e pelo Instituto Camões. Na opinião do vereador Fernando Paulo, Jacinto Lucas Pires é “um dos bons exemplos de uma nova geração de escritores que se tem afirmado em Portugal.”

Movimentos Cuidadosos


Levanto-me. E na verticalidade do gesto intencionado, percorro toda a extensão da sala até ao telefone escuro que toca, em cima da madeira esburacada pelo tempo. O ambiente está embrulhado numa escuridão tépida e amena. “Tou, quem fala?”, do outro lado indefinido, um barulho de tempestade fura o meu ouvido, como um martelo pneumático, mas, em menos de um segundo, uma voz troveja, “Então pá, é o Zé da Tina”, “Oh, grande amigo!”, “Olha, será que posso ir a tua casa? Preciso de falar contigo a sós. Sabes como é, estas estórias das escutas…” Sorrio pelo movimento cuidadoso do Zé. “Sim, claro que podes.”
Pouso o telefone e faço o movimento do caranguejo até me sentar na poltrona de veludo. Acendo um cigarro, numa calma exagerada. Fumo-o, com o olhar preso ao mar arrogante. E de repente uma ideia cuidadosa invade-me as pálpebras, “Será que colocaram algum microfone na roupa dele?”

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Bom Carnaval


A festa carnavalesca surgiu a partir da implantação, no século XI, da Semana Santa pela Igreja Católica, antecedida por quarenta dias de jejum, a Quaresma. Esse longo período de privações acabaria por incentivar a reunião de diversas festividades nos dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma.

Sem Sentimento


Os movimentos do amor circularam ontem no ar. E sentia-se esse cheiro em qualquer compartimento, em qualquer nuvem pintada de negro.
Ontem as flores voaram para o regaço brilhante de um ser que estremecia por qualquer lufada menos sentida, menos apaixonada.
Ontem, ao jantar, num restaurante perto da minha porta de saída, que por vezes entro, que por vezes ladeio, encostado ao balcão, acompanhado por um copo vazio, observei as falsidades dos gestos ou o silêncio mais rico. Para tal, ele conversava com o bife e ela com as batatas fritas, com a vela a consumir-se, ali ao pé.
Ontem foi mais um dia que passou, como um dia para o outro, como qualquer outro, sem a intensidade de consolidar uma relação por palavras, afim de o orientar para as margens da ilha chamada felicidade. Ontem foi mais um dia que não houve significado, mais um dia sem sentido porque o amor, nos dias que correm, é apenas sentido como uma tentativa fugaz de prazer, sem sentimento para explorar os caminhos da batalha, sem sentimento para abraçar o sacrifício e a dor.
Todavia, por estas terras, há sempre algumas excepções. Será?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Máquina de Fazer Espanhóis



Realizou-se ontem, na Biblioteca Almeida Garrett, Porto ...