sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sugestão



Fiódor Dostoiévski é, indubitavelmente, uns dos melhores escritores de sempre, sendo igualmente um dos criadores dos moldes responsáveis pela corrente estética e literária denominada modernismo. Foi em 1866, já atravessando a sua fase de maturidade literária, que o romancista russo publicou O Jogador, uma das suas obras mai...s lidas, na qual depositou, tal como em grande parte dos seus outros livros, as suas traumatizantes experiências de vida.



Passado num ambiente de casinos, em Roletemburgo, Alemanha, a história desenvolve-se em torno de um jovem chamado Aleksei Ivánovitch, que, embora portador de um carácter vivo e de um forte sentido crítico em relação ao mundo que o rodeia, carece de objectivos na vida. Trabalhando num Hotel para um general cuja família é sua conhecida, Ivánovitch apercebe-se que algo vai mal quando se depara com a presença de Mlle. Blache e Des Grieux, dois misteriosos franceses que mantém uma pouco esclarecida relação de proximidade com o general e a sua enteada Polina Aleksandrovna. Certo dia, Polina solicita a Aleksei que vá jogar por ela na roleta, exigindo-lhe que lhe traga dinheiro por o necessitar urgentemente. Apesar do estranho pedido, o amor de Ivanovitch por Polina impede-o de a questionar quanto à necessidade do dinheiro, aceitando jogar, pela primeira vez na sua vida, num casino. A sua obsessão pelo jogo iniciava-se aqui.



Mantendo diversos diálogos com o seu amigo inglês Mr. Astley, também hospedado no Hotel, Aleksei Ivanovitch vai, aos poucos, apercebendo-se de estranhas coincidências entre a necessidade de dinheiro por parte do general e a presença dos franceses em Roletemburgo. Aleksei descobre, então, que o general havia contraído uma imensa dívida para com Des Grieux, sendo a sua única salvação esperar pela morte de sua avó, residente em São Petersburgo, para receber a elevada quantia da herança. O plano parece correr bem até que, sem que nada o fizesse prever, a avó surge, doente,em Roletemburgo, causando de imediato o caos no Hotel. Solicitando a companhia de Aleksei Ivanovitch, a avó resolve gastar propositadamente toda a sua fortuna nos casinos, impedindo assim o casamento entre o general e Mlle. Blanche, assim como a cobrança da dívida por parte do filho.



Após a perda do dinheiro, as fraquezas mentais de todas as personagens entram em erupção, originando as mais drásticas modificações na história. Des Grieux desaparece num ápicee não mais é visto. O general falece de loucura.Ivanovitch, obsecado com a ideia de poder viver junto de sua amadaPolina, num impulso de demência, aposta tudo na roleta e ganha uma fortuna incalculável. Contudo, apesar das boas intenções de Aleksei, Polina rejeita tudo e foge para o desconhecido com Mr. Astley. Psicologicamente rendido, Aleksei sente-se perdido e aceita, sem preocupação, gastar toda a sua fortuna com Mlle. Blanche, a qual não volta a ver após um mês. Segue-se para Ivánovitch um período no qual Dostoievski, também ele, em tempos, um jogador compulsivo, exprime com toda a profundidade psicológica como é a vida de um jogador: viver do jogo, gastando tudo despreocupadamente para, posteriormente, voltar a jogar.



Anos mais tarde, após ter estado preso, Ivanovitch encontra Mr. Astley na Alemanha, que afirma vir a pedido de Polina. Este revela o amor que Aleksandrovna sentia por Aleksei, afirmando que o diz sem quaisquer receios por ter a certeza que Aleksei é um homem acabado. Astley oferece a Ivanovitch uma pequena quantia que lhe permite viajar até à Suiça, onde se encontra Polina. A história termina com um conflito interior de Aleksei, indecido entre apostar aquela quantia na roleta ou correr de imediato para os braços de Aleksandrovna.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Sexta-feira, 3 de Junho de 2011




O II Congresso Internacional sobre Cidades, Culturas e Sociabilidades decorre nos dias 3 e 4 de Junho de 2011 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, FLUP, e pretende dar continuidade aos trabalhos iniciados na sua primeira edição (FLUP, Abril 2009). A cidade enquanto fenómeno social total ou texto e contexto será objecto de análise e debate interdisciplinar dada a sua complexidade quer em termos de forma e tamanho, quer de sociabilidades geradas.



15.30 – 17.00: Renovação Urbana e Memória Histórica (Anfiteatro 1)
----A instrumentação de actuação na cidade (histórica) – Cláudia Alves, Universidade da Beira Interior (Portugal)
----A informalidade do espaço vernacular na cidade contemporânea – Vânia Teles Loureiro, Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura/ Universidade da Beira Interior (Portugal)
----O vento com duas faces – Sílvio Silva (Portugal)
----Da Vocação dos Lugares - Práticas Urbanas e Sustentabilidade Social – Miguel Costa, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (Portugal)
----Continuar Inovando. Os novos paradigmas de intervenção em centros históricos – Rosa Macedo, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (Portugal)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Frase

“Temos que ser mais locais se quisermos ser internacionais”

terça-feira, 10 de maio de 2011

Livraria



Abro a porta de vidro e caminho para os fundos. Junto da escuridão, um pouco danificada pela luz artificial, devoro a livraria do Sr. Silva, “Bom dia, caro amigo. Quantos livros vão ser hoje?”, rasgo a eloquência da investigação e encaixo alguns sorrisos no rosto, “As finanças estão mancas”, ele atira-me uma gargalhada forte, “Como fui aos correios tratar de uns assuntos, aproveitei para dar um salto até cá”, “E fez muito bem. Cheire o que quiser”, vira-me as costas e agarra num livro que uma mulher tem na mão. Volto a colocar o olhar sobre o pensamento e perco-me nas horas.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Decisões



Perto do horizonte, os galos acordam o dia com gritos desmesurados, como se fossem o trovão da ordem. Quase no mesmo instante, o rádio abana a minha mesa-de-cabeceira. Dou-lhe uma lambada no lombo, daquelas que faria doer a tua cara, e grito-lhe, “Que melga!”. Amedrontado, com as montanhas cheias de lágrimas, corta instantaneamente o grito da goela, “Assim está melhor”. Levanto-me e acendo a luz artificial. Estico depois os braços, numa anarquia irónica, e vou para a varanda, “Que bonito!”, e penso que não devo atrasar as minhas decisões, pois a vida é demasiado curta para a desperdiçar em hesitações.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sugestão



"Neste ensaio sobre 'a organização do espaço', Távora tenta dar um passo importante no seu discurso: a passagem das dimensões arquitectónicas do espaço que experimentava como designer, no estirador e nas obras, para os problemas da organização da cidade e do território, plano em que dimensões socioeconómicas passam a variáveis decisórias estratégicas."

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Questão

Os nossos inimigos são os nossos segundos amigos?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

No avião



Tenho os pés nas nuvens e os olhos na terra, “Apertem os cintos, senhores passageiros”, tiro o olhar da janela e amarro-me ao banco de tecido, usando os segredos dos pescadores. Pouco depois, o focinho da máquina inclina-se, como se detectasse um objecto que não pode conviver com os sorrisos do céu, “Sinto-me um pouco enjoado”, viro-me e vejo uma mulher quase morta, pois a sua pele é uma folha de papel. A caixa abana agressivamente, “É desta que vou morrer. Mas eu não quero”, uma criança sorri, colocando os dentes amarelos na primeira fila do ringue, “Estamos quase a chegar”, grita alguém impaciente. Quase no mesmo instante, as rodas pousam na língua preta, “Estou salva, estou salva. Obrigada”, e beija um Santo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Os pombos



Faço uma pausa na escrita. Tenho os olhos cansados e os dedos doridos, pois as palavras para os juvenis estão a exigir-me bastante esforço, “Que bonito!”, descubro o dia a crescer. Abro a janela e cheiro a Primavera. Junto à fonte, uma pequena árvore dança suavemente. Sobre ela um casal de pombos namora como ninguém, “Olha os malandros!”, e sorrio. Mas quando eles me descobrem, olham-me com tristeza, “Estou a sair, estou a sair”, engulo uma atrapalhação, “Não se esqueçam do preservativo”, e desapareço para a sala.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sugestão



Neste romance, talvez o mais importante de Mário de Carvalho, tudo se passa numa cidade da Lusitânea, Tarcisis, no momento em que Império Romano começa a soçobrar, devastado por factores internos e externos, as invasões bárbaras e a cristianização. E é num ambiente de decadência que todo o romance se desenrola. Apanhado na vertigem dos acontecimentos e rodeado de sinais que escapam ao seu entendimento, Lúcio Valério, o magistrado supremo é espoliado e perde todo o seu poder. Mário de Carvalho avisa-nos, no começo do romance: "...Tarcisis nunca existiu...", no entanto, devemos estar atentos, sobretudo os detentores do poder, aos sinais dos tempos, para percebermos o que nos acontece.

domingo, 1 de maio de 2011

Os afluentes das mamãs



Os afluentes da mãe são os beijos e as carícias, que os rebentos lançam-lhe ao corpo. Mas estes regos não podem secar no Verão, pois ela sentirá falta do aconchego do amor, “Todos os dias cansa”, dizem os monstros apáticos, “Vocês sentem diariamente a presença da sua mão?”, cuspo-lhes com agressividade, como se fossem inimigos da humanidade, “Não respondem?”, engulo um sorriso, “O silêncio responde a tudo”, tiro a fotografia do bolso e beijo a minha mamã com delicadeza, “És o meu paraíso, que me arrasta da tristeza”.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Livros



Abriu em Lisboa a festa dos livros. Milhares de pessoas irão navegar nas mentes dos escritores, como se fossem alunos muito atentos, “Este gajo é tolo. Escreve cada coisa!”, “Este tem sumo”, “Já não se fazem escritores como antigamente”, “É um Deus”, provavelmente estas palavras serão vociferadas com genica; provavelmente muitos livros serão atirados para o cano do esgoto; provavelmente outros tantos serão levados em ombros para os púlpitos das memórias; provavelmente tanta coisa, “Mas cada palavra escrita é uma partícula de pensamento”, por isso, aprecie todas as obras.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Para todos




Faz hoje uma semana que deixei a divisão das obras privadas. Foram quatro anos de desilusões, de alegrias, de surpresas, de loucuras e de tristezas, de trabalho e de festas. Mas a vida prossegue sem capítulos, como se fosse um filme sem intervalos, “Como estás a lidar com essa memória?”, pergunta-me um velho fantasma, que rodeia diariamente o meu quarto, “Com sorrisos muito largos”, “Com sorrisos?”, “Sim, porque toda a malta foi maravilhosa”, “Não entendo”, “Quando o passado roçou a maravilha, as saudades do presente são diluídas nos bons momentos”, engulo uma emoção, “Obrigado, rapaziada”, e grito com a força do mundo.

Atitude moderna



A manhã vai longa e os nervos ultrapassam a barreira da loucura. Respiro o âmago da floresta, como se acariciasse as curvas do teu corpo, e beijo a fresquidão da placidez. E quando calcorreio as veredas do céu, o areal embrulha-me a delicadeza. Sorrio, iço a epiderme e olho para o azul infinito. Junto às pestanas de uma nuvem mais grossa encontro um cartaz, “A cidade sem sorrisos”, e penso que nunca vi ninguém puramente feliz.

terça-feira, 26 de abril de 2011

As três coisas



Tenho o corpo cansado. Parece que os Deuses da paciência me bateram nos ossos com força. Porém, sou um osso duro de roer, como se fosse uma pedra que não fura, como se fosse uma madeira que não parte. Por usar a dureza dos guerreiros épicos, o que parece uma utopia transforma-se numa verdade que respiro suavemente, “Caro camarada, estás bem?”, descruzo o olhar e penteio o cabelo do Zé, “Tenho saúde, tenho amigos e tenho objectivos”, levanto-me e abraço-o com veemência, “Como vês, tenho tudo”, e sorrimos, como quem sorri para a essência do respiro.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril



A minha voz não existe, pois sucumbiu na montanha da liberdade. Mas ainda tenho os dedos para gritar os últimos cartuchos: LIBERDADE.

sábado, 23 de abril de 2011

Paraíso

A brisa do bolo de chocolate embrulha-me com veemência, como se te sentisse a beijar-me as saudades. Mas antes de enlouquecer, voo para a cozinha e como duas fatias do paraíso.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Páscoa



Espero que tenham uma santa páscoa. tenham cuidado com as amêndoas :)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

É tão simples

O cinzento do céu desfaz-se com o sorriso do teu rosto. Por isso só depende ti mudar a estação...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Frio



Amasso a cadeira com o meu sorriso e olha para o rectângulo silencioso, que me olha tristemente como se o fim do mundo fosse no segundo seguinte, "Não fiques assim, camarada. Prometo que te virei visitar", uma das janelas abre-se e uma lufada carinhosa despenteia-me o cabelo, "Prometo que não irei esquecer dos mimos", despega-se do dilúvio e cola-se aos meus sentimentos para um longo beijo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Sob a chuva



Estaciono o carro e desligo o motor cansado. Visto depois o casaco de linho e coloco a verticalidade na chuva, como quem coloca a roupa a lavar, "Quem abriu as portas?", murmuro com veemência. Mas antes de chegar ao alpendre que faz sorrir, vejo uma mulher aos gritos, "Acudam-me, acudam-me, levaram-me o rolo!", "O rolo?". A magote, de dentes afiados, salta dos esconderijos e corre até à causa dos bramidos, "Quem?", "Onde?", as perguntas abafam a praça, "Mas quem?", "Mas onde?", "Na puta que vos pariu. Deixem-me", e todos desaparecem.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Nem mais

"As pessoas adoecem porque são pobres, mantêm-se pobres porque são doentes e continuam doentes porque são pobres".

domingo, 17 de abril de 2011

Ideia simples

Cruzo o pensamento com o calor do descanso e vejo que não há mar mais belo do que a água da verdade.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sugestão


Pelo autor de Soldados de Salamina, o aclamado best-seller internacional.

No dia em que conhece Daniel Berkowicz, o seu novo vizinho e inesperado colega de trabalho, Mario Rota torce o tornozelo. Estes dois factos imprevistos e simultâneos assinalam o início de um período terrível, em que a sua monótona vida de professor de Fonologia é subitamente dominada pela adversidade, e desencadeiam um pesadelo cheio de ameaças, presságios e acontecimentos estranhos em que o leitor é tão apanhado quanto o próprio protagonista. Um romance curto e vertiginoso, cheio de labirintos à maneira de Borges, que anunciava já a maturidade do autor de Soldados de Salamina e que chamou a atenção de críticos exigentes como Francisco Rico, que num inquérito promovido pelo jornal El País, o incluiu entre os melhores romances dos últimos quinze anos, ou como Roberto Bolaño, que o qualificou de “romance fabuloso, de um autor de um talento fora do comum”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A saliva dos golfinhos



“Tenho os olhos cansados e o corpo dorido; tenho a boca magoada e as mãos feridas. Mas o meu coração tropeça na lama e sorri, pois a silhueta do teu rosto e a montanha do teu nariz desponta-lhe no pensamento, como se o fogo dos sentimentos ardesse com o negrume do inferno. Agarro a ferida que não se vê e corro para os beijos dos golfinhos, que salivam conselhos muito acertados”, “E depois?”, o corpo velho cruza os braços e responde ao neto, “E nasceu o teu pai”, sorrindo como um cavaleiro sem medo, “Que golfinhos tão queridos!”, “Que netinho tão giro”, a abraçam-se com ternura.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Olá

Tenho saudades dos meu pais. Sei que eles estão preocupados comigo. Sinto o desespero a dilacerar-lhes a calma. Mas sei, como eles sabem, que a felicidade está no vento, que a felicidade está no empenho.

Obrigado, pais. Amo-vos. Voçês estão no meu coração.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Deserto


No deserto, as praças e as ruas são rios de areia, que atropelam as montanhas e os sentimentos. No deserto, os edifícios são castelos imaginários de grandes proporções, que albergam doentes com desilusões. No deserto não existe magotes com facas nem soldados com metralhadoras. No deserto, o beijo dos Deuses é um mimo que não encontramos nos eventos da cidade. No deserto é tudo tão perto, é tudo tão distante.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sugestão


Cresceu em Cádiz e licenciou-se em Arquitectura, em 1971. Catedrático de Projectos na Escola de Arquitectura de Madrid desde 1986. Já deu conferências sobre a sua obra por todo o mundo. A sua obra foi amplamente divulgada e publicada nas revistas de arquitectura mais importantes do mundo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Coincidência


Vou visitar um amigo do peito. Já algum tempo que o meu coração não o abraçava e que a minha boca não se admirava com o seu pensamento eloquente. É das poucas pessoas que os meus olhos fixam e sugam toda a essência do mar, como se a minha locomotiva procurasse o vulcão sempre com luz, "O nosso sentimento pousa nas almas que fogem de nós. Mas haverá uma tarde que ele chorará com a imaculada. E...", no apartamento superior ouve-se uma trovoada de gemidos, E quando a encontrar, será isto...", e rimo-nos como uns perdidos.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Problema


De perna cruzada, as esplanadas conversam sobre a sociedade, com passagens sobre o além. Mas quando um incauto fala de trabalho, os pássaros esvoaçam para outra cidade.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Parabéns


As doze badaladas saltam nos sinos da igreja, onde as pedras repousam a cabeça no passado. Inspiro-as e sorrio, como se o sol me mordesse as faces tristes. E quando o meu vazio perde o peso do flagelo, empurro o muro de vidro e sopro para a noite, "Parabéns. Tudo de bom", "Ó meu, caluda. Quero dormir", "Cortem o pescoço ao tipo", "Quem grita?", e a rua acorda com alvoroço. Encolho-me e fujo para a cama.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Paraíso


Calcorreio as memórias da cidade, com a corcunda a pensar na noite. Porém, pouco antes de pisar a Praça do Município, onde o púlpito lança regras, as minhas pernas encostam-se ao vidro de uma agência de viagens, "Olha, o paraíso!", murmuro suavemente, "Tu és o paraíso, caro amigo", arregalo a melancolia e perscruto a rua. Junto ao deserto, que está nas minhas costas, encontro um amigo,"Os teus olhos estão cheios de defeitos e de qualidades, como é natural. Mas a tua alma vive no céu", penteia o cabelo encaracolado com os dedos grossos, "Não penses que os outros são o mundo e que tu és a porta, porque na verdade tu és o universo e os outros são a desgraça", sorrio e mexo os dedos com genica, como sentisse pudor a fervilhar na emoção, "Não tenho palavras", "Eu também não tenho sentimentos para te descrever", e abraçamo-nos que nem os anjos.

domingo, 3 de abril de 2011

Crespúsculo

A tarde abre a porta à noite, como se fosse uma escrava da natureza. Sobe as costas do poder e cheira o púlpito, quando a sala azul engole-a com vivacidade. Nesse mesmo instante, o crepúsculo amedronta os fundos da cidade que não pensa. Sorrio e respiro-o, da mesma forma que a tempestade varre os incautos.

Dias assim

Tenho os pés no calor do sol, onde a chama se encontra com a tua.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sugestão


Sente que o novo acordo ortográfico é confuso? Que nunca se vai habituar? Que nem sequer teve voto na matéria? E de que lado ficaria se pudesse, de facto, votar? Até onde estaria disposto a ir? Juva Batella foi longe, e criou uma trama insólita - onde não faltam mistérios, sequestros, assassinatos, suicídios e investigações policiais à italiana...

1 de Abril

1 de abril...divirtam-se, façam um brincadeira a alguém...vamos conviver com o dia das mentiras...mas com respeito, ok?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Finalmente

Desligo a música dos James e emcerro o computador. Aliado a estes gestos simples, um sorriso com lágrimas despenteia-me o pensamento, "Terminei o romance".

quarta-feira, 30 de março de 2011

Trabalho

Eram três da manhã quando coloquei a metralhadora no conforto dos lençóis. Perto das nove, o gatilho chama-me para a guerra. Tenho ainda muito que desbravar.

terça-feira, 29 de março de 2011

Romance 1


Já com o sol sobre a nuca da cidade, acordo com a cara enterrada no pântano viscoso, que brota da minha boca entreaberta. Junto a ele, o meu companheiro suga-o descontraidamente, com a cauda a varrer a satisfação. Abano a cabeça, reprovando a atitude do malandro, e sopro-lhe uma indignação para o focinho. De olhitos a piscarem uma aflição, a bola de pêlo abana a cabeça com veemência, mas quando o vento lhe provoca incómodos, ele pula para o sobrado, “Este menino tem cada uma!”, atiro-lhe o enfado, ao mesmo tempo que estico anarquicamente o esqueleto preguiçoso, sob o olhar desdenhoso e mesquinho do meu companheiro, que rebola a ironia perto do rectângulo escuro. Pouco depois, este desequilíbrio desgrenhado cessa, com a mão direita a mergulhar nos líquidos pegajosos. Suspiro desconsolos, rugindo palavras incultas, enquanto um pequeno sorriso me faz umas caretas muito deselegantes, “Olha o tratante!”, e cuspo-lhe a almofada.

Parabéns


Eduardo Souto de Moura foi distinguido com o prémio Pritzker 2011, o maior galardão mundial na área da arquitectura, considerado o Prémio Nobel da área. Esta é a segunda vez que um arquitecto português vence este galardão.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Romance


Perto dos objectos minúsculos, o crepúsculo finda num adeus rápido, enquanto a noite nasce num breve respiro. A este gesto de camaleão, assisto com grandes sorrisos da varanda do meu apartamento, a três pisos de altura do pavimento asfáltico. E penso, com uma voz agarrada ao silêncio, que não há nada mais belo do que sentir ...a palpitação desta magia. Todavia, como o tempo não tem tempo, tudo acaba rapidamente sobre o negrume da minha tristeza, surgindo na manta da noite muitos pontinhos brancos, que apenas nos sonhos molhados os consigo ladear. A par, candeeiros presos nas fachadas dos prédios acendem os caminhos dos transeuntes, que me fazem lembrar os passeios da solidão. E por vê-la assim em liberdade, um agasalho nostálgico acaricia-me a memória. Como consequência, brota das minhas reentrâncias umas lágrimas saudosistas, como se fossem rios a caírem do sopé da montanha, enchendo de reminiscências o meu colo surpreendido. Porém, quando sinto o frio do desânimo a percorrer-me a coluna, relincho e abano as crinas húmidas até as secar, da mesma forma que o exorcista faz ao seu paciente. E assim que a saudade me desaparece da visão, vejo que a rua está sem movimento e vejo que a varanda está sem palavras.

domingo, 27 de março de 2011

Aviso

O romance que escrevo, já começa a cheirar a luz do fim.

Ideia simples

A noite com silêncio é apenas uma fórmula do pensamento.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Deixa-me beijar-te

Tenho sede. Preciso de palavras. Mas não podem ser vocábulos quaisquer, porque o meu sentimento está demasiado ferido, demasiado ensanguentado. Tenho sede. Preciso do conforto das palavras, preciso dos beijos das frases. Tenho sede. Aproxima-te, deixa-me beijar-te.

Sugestão


«O silêncio e a calma do deserto só eram interrompidos pelo chispar do seu isqueiro. Acendia-o e colocava-o em frente dos olhos esperando que o vento o apagasse. Quando o vento o apagava, voltava a acendê-lo e a chama elevava-se por um instante, vibrando na sua alaranjada transparência, até que a brisa o fazia desaparecer outra vez. “Talvez devesse comprar um cachimbo” – pensou Maurício, ‘“dizem que é uma boa maneira de deixar de fumar”. Isto era o que Maurício pensava. Entretanto, todo o deserto parecia estar à espera que o seu isqueiro ficasse sem gás.»

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fila de trânsito


Tenho os dedos a fervilhar maluquices. Talvez necessitem de respirar um pouco de sentimentos imaculados, que na língua negra da rua possam encontrar. Mas antes que uma nova especulação me percorra o pensamento, iço a massa inerte e atiro-a à vontade, “Saia da frente, velhinho”, po, po, po, po, “Ó mulher, mexa o coiro”, “Vai conversar com o carago, pá. Pensas que sou da tua laia?”, “Grande vaca, és cá uma assanhada!”, po, po, po, po, “Carregue no acelerador, velhinho”, arreganho os dentes e desato às gargalhadas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A porta do desgosto


"O telefone nunca estremece. Não sei o que se passa", "Ó meu, tem calma. O que importa é teres saúde e amigos", "Pois, é verdade", "Já te basta as chatices da crise, companheiro", o Zé desliza o olhar para a cerâmica, enquanto engole o café fumegante, "A frontalidade deveria ser obrigatório nos lábios", "Gosto da tua boca", digo-lhe, acariciando-lhe a tristeza. Sorrimos vagamente, mas ele sacode-a no momento seguinte, "Bem, vou-me embora. Preciso conversar com a almofada. Tenho muita coisa para matutar", "Segue o teu instinto, meu. Estarei aqui para o que for preciso", atira-me um sorriso ténue, ao mesmo tempo que iça o desgosto, "Precisas de largar a má onda", "Cheguei aos meus limites", "Eu sei, Zé, eu sei", "Bem, vou-me embora. Fica bem", "Tu também", vira o negrume e caminha até à porta. Abre-a e sai, "Tenho que o ajudar. Ele não pode continuar assim", engulo o café e corro.

terça-feira, 22 de março de 2011

Pastelaria


Todos os domingos, exceptuando os de chuva, coloquei os ouvidos a sugar o burburinho da pastelaria, “Já viste a porca! Mama tudo!”, “Coitado do Zé, não merecia uma companheira assim”, e encarquilhei um vasto pensamento, “Aquele gajo é um goleador. Todos os jogos molha o bico. Não há igual”, “É pena estar no teu clube”, e sorriram como dementes, como se estivessem refastelados num sofá do hospício. Porém, no domingo passado, decidi não voltar a colocar o corpo nas trivialidades, “Sinto-me arrepiado, pois não sinto o cheiro da eloquência intelectual”.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Primavera


Junto à magotes de livros, que me sorriem com vivacidade, vejo a passarinhada a saltitar nos ramos moribundos das árvores sem alegria. Aguço a curiosidade, como se esticasse a lupa, e indago a natureza. E quando lhe acaricio o dorso, vejo a Primavera a renascer da mortandade, "Por isso o gáudio, meninos", murmuro com suavidade, esticando o prazer do rosto.

sábado, 19 de março de 2011

Pai

O perfume da alvorada desliza para o meu quarto, amedrontando as sombras sem sentimentos. Limpo o rosto estremunhado e coloco um sorriso vasto nos lábios. Depois pulo para o sobrado e encosto os dentes na parede de vidro, “Que lindo dia! O meu pai vai ficar todo contente”, e olho para o presente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sugestão


O último desejo de Liborio Uribe ao tomar conhecimento que a hora da morte está traçada, pede à nora que o leve a contemplá-lo. Homem do mar, passou toda a vida no Dois Amigos, onde muitas histórias se passaram. O neto Kirmen sempre desejou recordar essas histórias, de que tinha memórias esfiapadas, e decidiu reconstituir a vida a bordo do barco.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sentimentos


Sinto que as minhas mãos não arrefecem os nervos do decrépito, que chora e esbraceja a morte da companheira, "Tenha calma, homem. Agarra-se à vida", "Mas ela morreu", "Deus vai tratar dela com carinho", e chora como um desalmado, "Ela morreu, mas está viva", encarquilho os vincos da testa e sacudo a incompreensão, "Tenha calma, tenha calma", "Ela não gosta de mim; ela não me liga...", "Ah, então é isso!", e sorrio, "Tenha calma, homem. As dores de amor são duras, mas há pessoas que não as merecem", assoa o nariz ao lenço amarelado, "Acha?", "Se não lhe liga, acho. Quem gosta, procura", "Tem razão", iça a tristeza e indaga a felicidade.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Início da polémica


Junto à porta da tasca do Zé, o Manel esbraceja razões, "O jagunço vai sair da junta, tenho a certeza", "Ó Manel, eu conheço-o. E ele disse-me que não sairá", "Olha, mas disseram-me que ele vai sair. E é uma fonte segura", "Mais segura do que o próprio?", e o bom Diogo desata a sorrir, agarrando na malga de vinha, "Mas disseram-me, pá", "Tá bem, tá bem", e engole o líquido precioso, "Tas a gozar comigo?", atira-lhe o Manel, colocando os punhos no nariz do Diogo, "Ganhem juízo, camaradas", vocifera subitamente o Zé.

terça-feira, 15 de março de 2011

Poder


A aragem empurra a porta envelhecida contra a parede sem cimento, ao mesmo tempo que a noite me lança os braços peganhentos. E quando eles me acariciam o pijama, salto para o desconhecido, como se voasse para outra margem, "Aproxima-te", e caio numa praça em terra batida. Iço o desconsolo e limpo o fraque, "A tua cidade está cheia de fogo!", indago o espaço, mas nada encontro, "Não percebo", "As pessoas não são simples, porque todos querem a cadeira do poder", "Sim, é verdade", "Cala-te, sua cobra sem cérebro", mastigo uma aflição, "Diz à tua cidade que a amizade e o amor são o vento da felicidade. Caso não o faças, levarei a tempestade à podridão", "Fique descansado, senhor", e desapareço.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Futuro


Caminho por entre o paraíso e respiro a saudade do futuro. Mas há sempre um passado que esburaca o meu sorriso; mas há sempre uma réstia de trevas que navega nos meus braços, "Hei, tu aí!", grita-me uma voz, que mais parece uma tempestade, "Pontapeia a noite para o deserto sem água e deixa-a morrer como na matança do porco", iço a tristeza e olho para a linha do mistério, "O horizonte é o meu futuro. E no futuro não cabe o passado", "Nem mais", suspiro uma satisfação imaculada e peço à nuvem que me leve até às margens do desconhecido.

domingo, 13 de março de 2011

Praça dos mortos


Embrulhado em nervos, deambulo na praça dos mortos. Está frio, mas ele não me corta os lábios, pois a minha consciência azeda-os com razões. Pouco depois, estaciono o desassossego num banco centenário e cravo o olhar nas rosas, “Volta para a tua terra”, diz-me um moribundo sem braços, “Mas lá não sinto felicidade”, “Não há nada mais bonito do que respirar. Fala a voz da experiência”, encarquilho o rosto e bebo a verdade. Quase no mesmo instante, abro as persianas e vejo o meu quarto com problemas, “Tudo se resolve”, e sorrio, saltando da cama.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Verdade


No outro mundo sentiu-se infelizmente um forte abalo. Por cá, sentimos também o estremecimento: é o que nos dizem os bolsos. Porém, analogias à parte, as réplicas estarão na "Parva que Sou" durante décadas.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sugestão


Com a Cidade e as Serras Eça defende mesmo um regresso ao campo? Em que termos ou com que meios? Aliás, a oposição da cidade às serras resiste a uma leitura do romance? E onde situar a tão famosa ironia? Como foi lido e como tem sido ensinado o último romance do Eça?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Grito


Coloco as pernas no passeio e movo-as até à praça da tristeza, onde os guardiões do azedume não falam. Mas antes de empurrar a fronteira, que pesa toneladas, uma felicidade estaciona o contentamento à minha frente, "Sacode o coração", "Não tenho forças, cara amiga", suspira uma pequena ironia, "Só não temos forças para o que não queremos", "É verdade", "Então...?", sorrio com dificuldade, "Vamos, anima-te. A porta do paraíso fica ao virar da esquina", mas alargo-a com exagero, "E quando a penetrares, grita ao mundo que ninguém deve viver aqui", "Assim farei", viro as ancas e desço as escadas.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O anjo


Tenho o meu desassossego a passear na marginal, que namora constantemente com as ondas do mar. Pouco depois, um pequeno promontório exige-me que suba até à ponta do seu nariz, onde o vento dança uma valsa trágica, “Que paisagem!”, murmuro, quando as cabeças dos prédios piscam-me com suavidade, “Não há nada mais bonito!”, acrescento, “Não há nada mais falso”, sopra-me uma voz. Encarquilho a aflição e indago a pequena praça, “Porque as imagens não mostram o lado negro”, e descubro um caquéctico a mamar um cigarro, “Nunca devemos navegar nas primeiras impressões. Deixa o tempo mostrar-te as imperfeições”, e desaparece.