sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

CALMA

no céu está uma estrela que te olha. por isso não te preocupes, vive a tua vida sem preocupações.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ELOGIO

Quando alguém me dá um elogio, do tamanho do exagero, desconfio. Tenho esse hábito. E irei tê-lo até sentir que estou errado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

LÁBIOS

Abro os braços para receber a ternura do teu corpo. Mas fecho os olhos quando sinto a delicadeza dos teus lábios.

sábado, 26 de janeiro de 2013

HOMEM DOS MORTOS

Dois acordes, uma voz e uma ideia. Tudo isto faz parte do meu pensamento, tudo isto pertence à página que não vejo mas que me obriga a estar acordado no meio da noite. Por isso é que descubro, sobre a estrada silenciosa, uma sombra em movimento. Tem limites estranhos, embora o miolo pertence ao bagaceiro errante, que é conhecido na tasca do Zé, o manhoso, como o homem dos mortos: o homem que lança terra para os olhos que perderam o brilho da vida, que já se esqueceram o prazer de respirar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

SAUDADES

Inspiro o chilrear dos pássaros, beijo os raios da alvorada e abraço o perfume da Primavera. Mas quando acordo, a chuva pontapeia com furor os vidros da janela.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

PENSAMENTO

Desligo o telefone. Preciso de olhar para a cidade que está a sonhar com o verão, porque gosto de ter o progresso no pensamento.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

OBRIGADO

Foi há dias que o meu pensamento pensou em vós e no vosso gesto; foi há dias que os meus lábios fizeram primaveras. E é provável, bastante provável, diga-se, que daqui a dias tudo continue na mesma. Tenho então o dever, a necessidade, como diz a minha razão, de vos dizer que as vossas palavras, direccionadas para o meu aniversário, foram ternuras inigualáveis. Obrigado, caros amigos da simpatia…

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

ANIVERSÁRIO

E a cidade adormece quando o silêncio pede ao negrume para atropelar as luzes, que permitiam aos homens viver nos espaços. Mas o sino da igreja, para além de enxotar o sossego, avisa-me que eu estou a entrar no mundo quando as enfermeiras ouviram os gritos da minha mãe.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

TRATANTES

os dias passam, sorrateiros. mas a tristeza continua. porque as nuvens, as amigas do diabo, continuam a namorar com a minha cidade. malvadas! podiam dar conversa para outro lado

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

CHUVA

A água que caiu durante a tarde empurrou a terra para a pedra, apagando-lhes as memórias. Por isso é que os catraios, amuados, estão metidos no meio dos cavacos, onde o silêncio comanda-lhes o pensamento. Mas quando o brilho do sol amacia a dureza das sombras, as pequenas pernas empurram os sorrisos para o campo de milho.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

SOLIDÂO

Não há sombras sobre a rua que ladeia a espinha do monte, onde as cabeças das árvores dançam o hino do medo porque o vento é uma mensagem do diabo. Também não há lavradeiras por perto nem gritos de crianças ao pé do tanque, que tem no rosto as marcas do tempo. Também não há jornaleiros na tasca do Santos que outrora fora um conquistador, um coleccionador de mulheres. Também não há pássaros no céu, nem vestígios de aviões. Infelizmente, nesta paisagem nefasta, a vivacidade do passado infiltrou-se no esquecimento. E nem as sementes dos homens a recuperam.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SUGESTÃO

O bater de asas O Anjo Negro de uma borboleta em Nova York autor pode provocar um tufão em Pequim? Título gratis de um antonio tabucchi dos seis contos de Anjo negro, a cama questão resume um dos aspectos mais impressionantes da O Anjo Negro obra de Antonio Tabucchi: seu cosmopolitismo. promocao Tradutor italiano de Fernando Pessoa e Carlos livro Drummond de antonio tabucchi Andrade, professor de literatura portuguesa, e um gratis dos nomes mais importantes da literatura italiana contemporânea, O Anjo Negro Tabucchi leva personagens e leitores a best-seller viajar pelo mundo.Mas não se trata de domestica literatura de antonio tabucchi viagem. Mudam as paisagens, as culturas, as livro regras sociais, mas as histórias de Tabucchi parecem O Anjo Negro mostrar que o mundo é sempre compre o mesmo e as pessoas viajam mais leitura para procurar antonio tabucchi do que para encontrar.O universo de seus domestica personagens é formado pelos territórios da mentira, do O Anjo Negro equívoco, da ambigüidade. São anjos sem cama plumas, alguns de asas negras, que se escritor encontram à antonio tabucchi beira da loucura e da tragédia. Ou leitura fantasmas como o do capitão Nemo, ainda revirando O Anjo Negro o fundo do mar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

SUGAR A NOITE

Inspiro a noite que afoga o céu e encho-me de ideias diabólicas que nem o Diabo se lembrou. Mas o beijo da lua recorda-me que ter sorrisos no pensamento permite viver melhor.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

NOVO ANO

Tiro os pés da cadeira quando os ponteiros do relógio encontram o norte. E peço aos bons ventos para me trazer a sorte quando os coloco no chão. Depois olho para a cidade, que dá abraços ao novo ano, e digo aos meus botões que as minhas pernas estão preparadas para tudo.

domingo, 30 de dezembro de 2012

NOVO ANO

A velhice tropeça e cai. Quando se levanta, o rosto assemelha-se com os rostos dos miúdos, que berram quando têm fome, que choram quando têm sono. Fica então histérica, pedindo aos anjos para a proteger daquele mistério. Mas os foguetes e os alaridos da cidade, que pintam a linha do horizonte com a cor da boémia, recordam-lhe que o ano velho deu lugar ao novo ano. E isso faz-lhe apaziguar os nervos, e isso retira-lhe um peso das costas, porque a razão diz-lhe que a esperança de ter uma vida melhor ressurge. (PS: para vós, quero que a esperança vos traga certezas. Bom Ano, camaradas do pensamento?)

sábado, 29 de dezembro de 2012

ASAS

Nos dias em que a chuva domina o dia apetece-me morder o algodão pardacento. Mas não tomo atitudes, porque a minha imaginação me impede de ter asas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

PINÇA DA PACIÊNCIA

A pinça da paciência retira as impurezas do texto, que ao longo das noites me tira o sono e os sonhos. É certo que os olhos me ofuscam o olhar, mas é certo que a necessidade de fabricar uma voz me permite fugir das obrigações. Felizmente, dentro de mim, está a arma dos obstinados : persistência.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

PRESENTES

Sob a árvore estão sorrisos envolvidos com papel colorido. Mas as mãos dos meninos destapam-nos com veemência, porque o mistério cria-lhes aflição. Aos poucos, a sala enche-se de alegria estridente, enquanto o pai Natal bebe uma bebida quente.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

NATAL

Quatro beijos, três abraços, duas palavras: “Bom Natal”. Foram os gestos mais utilizados no jantar, que todos os anos decorre na tasca da tia Maria. A idade, associado à saudade, permitiu no entanto que as reminiscências aparecessem junto às bordas dos olhos com frequência. E isso obrigou-nos, para desespero da proprietária, a pedir muitos guardanapos. Mas a manhosa, habituada a estas coisas, trouxe-nos a conta, abrindo-nos a porta de madeira.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

SAUDADES

Depois do crepúsculo, o dia dá lugar à noite. E isso permite-me trazer da memória o nosso encontro, porque a tua alma subiu até às estrelas depois dos nossos beijos. Há três anos que olho para cima. Mas há três anos que não te encontro. Já não sei o que fazer. A minha mãe anda preocupada comigo. Acha que tenho alguma coisa na cabeça. Por isso é que trouxe um médico a casa para me analisar. Para a contrariar, não o deixei trabalhar, alegando uma saída urgente com o Vitorino. Na verdade fui até ao parque para chorar, onde o ladrão, de surpresa, te matou com uma faca. E para pedir a todos os santos que me trouxessem a mão do diabo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

CHUVA

A chuva é violenta; o vento de norte embrutece-a. Não é de estranhar que as fachadas percam algum revestimento. Mas os transeuntes que deambulam pelos passeios detestam tais acontecimentos, porque o beijo da cerâmica pode trazer o braço da morte.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

DESíGNIO

O homem tem as mãos brancas; tem o nariz roxo; tem os olhos ensanguentados. O frio, que se passeia pela tarde como se fosse um janota, é o causador daquele aparato, que faz do jovem um decrépito. Fico angustiado e sinto um aperto no estômago, por ver o futuro de Portugal a viver assim na rua. Mas a vontade aniquila-me com a inércia e pede-me para lhe gritar. Faço-lhe a vontade, depois de ter aquecido a sala com o calor dos meus desígnios.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

SUGESTÃO

Um amigo procura outro amigo.Sua trajetória: hotéis de luxo e bordéis, hospitais, jesuitas. Local: Índia. Ao texto da procura do amigo, Tabucchi escreve um subtexto no qual o leitor é remetido a outros escritores cujo imaginário escolhe o mesmo local: "A realidade passada é sempre menos má do que foi efetivamente: a memória é uma formidável falsária. Certas contaminações são feitas, mesmo sem querer. Hotéis assim povoam a nossa imaginação: já os encontramos nos livros de Conrad ou de Maugham, em algum filme americano extraído dos romances de Kipling ou de Bromfield: parecem-nos quase familiares." Estaria Tabucchi tentando afirmar que o texto qualquer que seja, já viria como que "contaminado" por outros textos? Que ao tentar criar algo, nos deparamos sempre com o já criado? Tabucchi leva o leitor consigo nessa busca, nesse universo em que a escrita faz do personagem o seu duplo.Um clima de sono desperto, uma procura sem respostas:"A substância é que nesse livro eu sou alguém que se perdeu na Índia... Há um outro que está me procurando, mas eu não tenho nenhuma intenção de me deixar encontrar." Ao leitor que espera surpresas, prossegue e pergunta, melhor seria fechar o livro e esperar que as respostas surjam depois do livro fechado - cumprida a narrativa, só nos resta imaginar.

SIMPLES

As casas que dançam no promontório gostam de olhar para o mar. Mas as janelas pardas escondem desgostos que obrigam os incautos a ter tristezas nos olhos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

MEMÓRIA

Para se ter memória é preciso colocar os sentidos na direcção da coisa.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

TELEFONE

Quando o telefone toca, o dia transforma-se em noite e a cidade fica calada, como se alguém tivesse o poder de parar o tempo. Mas tudo se modifica quando não ouço a voz que tenho de ouvir.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

PENSAMENTOS GRISALHOS

Os dias agarram-se ao meu corpo para o envelhecer, como se fossem martelos a embater nas montanhas. Mas a minha mente sorri, porque nada lhe vai obrigar a ter pensamentos grisalhos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

SUGESTÃO

De acordo com as palavras do autor, História Universal da Infâmia «São a irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu em fabricar e tergiversar (sem justificativa estética, vez ou outra) alheias histórias.» As narrativas reunidas neste livro foram executadas de 1933 a 1934, e, segundo o autor: «Derivam, creio, das minhas releituras de Stevenson e de Chesterton e também dos primeiros filmes de Von Sternberg e talvez de certa biografia de Evaristo Carriego.»

sábado, 8 de dezembro de 2012

BEIJO DA NOITE

Saio do sonho para entrar na manhã fria de sábado. E saio da cama para fugir às sombras do quarto. Na sala, o vidro das janelas estão inundados pela humidade, que desenha uma curva dum rosto. Mas impeço-a de dar vida a um mistério porque o desconhecido é um beijo da noite.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

CANSAÇO

Estou cansado. E quase que não sinto o peso da manhã, que refresca os aromas da cidade e desperta os senhores dos galinheiros. Mas o trabalho, direccionado para o desenho dos espaços, diz-me que o repouso tem que ficar para depois.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

OBRIGADO

Caro poeta do betão, o mundo perdeu a tua voz. E irá perder a imagem do teu rosto quando a nossa memória ficar envelhecida. Mas o teu pensamento irá perdurar porque as curvas da tua obra ficarão expostas nos troncos das cidades.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

PARAÍSO

A casa está implantada na parte mais fria do terreno, embora a sombra cubra a totalidade do rectângulo. Na cota mais alta do monte, que fica atrás das telhas, os pinheiros, robustos e alongados, parecem mãos a amparar os tiros do sol. Mas no horizonte, onde as cabeças das árvores desenham uma comédia, só há vestígios de luz. Infelizmente, o paraíso está para além das minhas possibilidades.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

TELEVISÃO

Desligo televisão. Ultimamente, o aparelho só me dá maus programas. Já pensei escrever uma carta e remetê-la para os doutores – os tipos que definem as estratégias. Mas perdi a vontade quando a lucidez me disse para ter juízo. Depois vou até ao quarto dos meus pais. E reparo, assim que entro, que os olhos deles estão fechados. É provável que o comboio do sono já lhes tenha estacionado o cansaço numa quimera. Dou-lhes então um beijo e vou para a cama.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

CAMINHO

A noite já pintou o céu. E as estrelas, olhos de alguém, iluminam a pedra que define o caminho. Os transeuntes agradecem. Mas os fantasmas, escondidos na erva alta, ficam zangados porque a luz denunciam-nos. Por isso é que os ouço a guinchar; por isso é que vejo a tristeza a saltar para longe. Dou um suspiro, um suspiro profundo, e abano a cabeça. Depois, quando os músculos do pescoço me vociferam, continuo o meu caminho até encontrar a sala dos sorrisos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

GRITOS

Dois gritos invadem-me a garganta e obrigam-me a matar o silêncio. Por causa disso, os vizinhos acordam e perguntam-me se preciso de alguma coisa. Digo-lhes que não, usando as lágrimas, a calma e os dentes para modificar a voz. Mas a amizade diz-lhes que estou a mentir. Voltam então a perguntar. E eu volto a responder como respondi. Depois fujo. E aproveito a noite para me esconder numa toca, onde posso namorar a solidão e onde posso pedir ao céu um desejo.

HOMEM

A mão arrasta as migalhas para o chão. Por isso a mesa é o céu sem nuvens, é o mar sem ondas. O dono dessa proeza é o Jaquim, homem gordo, pálido, que olha para as coisas como se visse a morte estendida ao sol. Há quem lhe mostre que a vida é mais do que isso; que a vida também é feita de outras coisas. Mas o olhar do homem é persistente e a mente inviolável. Há quem lhe diga que a vida é para se viver, como fazem as crianças no recreio da escola. Há quem o abane e o faça engolir a comédia. Ou o divertimento. Mas os olhos do homem, do homem que perdeu os beijos da mulher, apenas querem reencontrá-la junto a um miradouro, onde se vê o mundo em minúsculo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SOLIDÃO

A rua está cheia de carros. Mas a solidão escorre pelo asfalto como se fosse um rio à procura do mar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ENFIM

Infelizmente, quando damos dois passos para a frente, há sempre alguém que nos tenta tirá-los. Felizmente, como somos feitos de certezas e de determinações, ziguezagueamos os problemas com facilidade.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

PARLAMENTO

Ligo o rádio, depois de levar a cara e os ouvidos. A noite trouxe-me vozes que me vociferaram ideias do diabo. De súbito, o parlamento, sem autorização, entre na minha casa e diz-me que para o ano vou pagar mais impostos. Alargo o olhar e mostro-lhe os dentes. Mas não obtenho resultados. Por isso pontapeio o aparelho e peço às pernas para me levar até à praia, onde as gaivotas tocam a música da paz.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

CATRAIA

O céu está cheio de nuvens. Mas são nuvens com fissuras. Por isso é que o sol, perto do horizonte, varre o cinzento das cabeças dos prédios. Está frio. Muito frio. Embora, para a catraia que está ao pé do sobreiro não está, porque a saia parece um cinto e a camisa um sonho, para quem usa a noite para se masturbar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PALAVRAS TOLAS

Troveja. E volta a trovejar. As luzes da rua e dos apartamentos assustam-se e fogem. Por isso a noite acentua-se. Alguns animais, ao vê-la com o corpo gordo, fazem barulhos esquisitos e atacam indefesos. Não sei porque o fazem. Mas os entendidos nestas coisas, com eloquência, afirmam nos cafés, onde o nevoeiro cega os olhos, que a terra vai tremer. Ou, na pior das hipóteses, o olho do vulcão, vai cuspir lava. Sinceramente não acredito. Não acredito nessas coisas. Nessas hipérboles desmesuradas. Não é de estranhar, portanto, que as minhas costas digam adeus às palavras baldias e aos leigos, que têm os dedos a escarafunchar as tocas dos narizes.

domingo, 18 de novembro de 2012

MANHÃ

A manhã está quente. Há muito que não a via assim. Por isso quero aproveitá-la; quero contar-lhe um segredo que me aflige. Mas o despertador, sentado na cómoda, dá-me tautau aos ouvidos. Fico triste, quase que choro, mas o tipo tem razão: preciso de trabalhar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

SIMPLES

Saio de casa sempre acompanhado pelo Inconformismo, com quem vou ao café todos os dias.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SUGESTÃO

Ficções reúne os contos publicados por Borges em 1941 sob o título de O jardim de veredas que se bifurcam (com exceção de "A aproximação a Almotásim", incorporado a outra obra) e outras dez narrativas com o subtítulo de Artifícios. Nesses textos, o leitor se defronta com um narrador inquisitivo que expõe, com elegância e economia de meios, de forma paradoxal e lapidar, suas conjecturas e perplexidades sobre o universo, retomando motivos recorrentes em seus poemas e ensaios desde o início de sua carreira: o tempo, a eternidade, o infinito. Os enredos são como múltiplos labirintos e se desdobram num jogo infindável de espelhos, especulações e hipóteses, às vezes com a perícia de intrigas policiais e o gosto da aventura, para quase sempre desembocar na perplexidade metafísica. Chamam a atenção a frase enxuta, o poder de síntese e o rigor da construção, que tem algo da poesia e outro tanto da prosa filosófica, sem nunca perder o humor desconcertante. Em Ficções estão alguns de seus textos mais famosos, como "Funes, o Memorioso", cujo protagonista tinha "mais lembranças do que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo"; "A biblioteca de Babel", em que o universo é equiparado a uma biblioteca eterna, infinita secreta e inútil; "Pierre Menard, autor do Quixote", cuja "admirável ambição era produzir páginas que coincidissem palavra por palavra e linha por linha com as de Miguel de Cervantes"; e "As ruínas circulares", em que o protagonista quer sonhar um homem "com integridade minuciosa e impô-lo à realidade e no final compreende que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando".

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

E AGORA?

Há quem cruze as pernas e olhe para o mar. E tire daí esta ideia: “Puxa, o trabalho é duro!”, mas há quem coloque as mãos na vassoura e esteja de madrugada a varrer o serviço. Qual das atitudes devo seguir?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

BEIJOS

Duas palavras, colocadas no sítio certo, dão alegrias a quem sente no pensamento os gritos na morte. Mas dois beijos, daqueles suculentos e ternurentos, mostram a luz a quem tem nos olhos a mão da escuridão.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SIMPLES

Tenho o corpo com frio. Mas as palavras, que estão encapadas, dão-me o conforto necessário para dormir calmamente.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

SIMPLES

Sinto beijos no rosto. E isso faz-me ter cócegas no interior.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CHUVA

A chuva cresce. Cresce continuamente. Nas costas da rua, a água acumula-se e, como as sarjetas estão entupidas, o asfalto dá lugar ao rio que corre até às portas do jardim, onde as asas dos pobres levam-nos para as tocas do medo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

SUGESTÃO

Joaquina da Ega (que mais tarde se virá a saber chamar-se Genoveva), natural da Guarda, casada com Pedro da Ega, vivia em Lisboa. Mas, logo após o nascimento do filho, abandona este e o marido para fugir com um emigrado espanhol. Em Espanha, torna-se cortesã. Entretanto, Pedro da Ega morre em Angola. Joaquina casa-se depois com M. de Molineux, um velho senador, com quem vive em Paris. Mas a queda do bonapartismo, trazem-na de volta a Portugal, agora com Gomes, um brasileiro, já que o senador havia falecido. Faz-se, então, passar por Mme. de Molineux. Em Lisboa, instala-se na Rua das Flores. Logo se envolve com Dâmaso de Mavião, a quem irá explorar sem piedade. No entanto, apaixona-se por Vítor, um jovem de 23 anos, bacharel em Direito. Quando faz 40 anos repele Dâmaso, planeando voltar para Paris com Vítor. O tio de Vítor, Timóteo, o único detentor da trágica verdade, tenta acabar com a relação dos dois. Decide, então, contar toda a verdade a Genoveva. Ao saber que era amante do seu próprio filho, Genoveva atira-se da varanda de sua casa, na presença de Vítor, que nunca chegaria a perceber tal atitude nem a saber a verdade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

VOZES

As vozes são como pedras, como ramos secos no meio da tarde: o silêncio é uma ordem que se espalha pelo cemitério. E termina na periferia, onde os euros dão lugar a flores. Mas no púlpito, espetado junto à capela mortuária, o padre, de aspecto tísico, rasga-o timidamente. A tristeza, agarrada aos nomes que estão gravados nos jazigos, levanta os lábios trémulos e canta, colocando alguns dedos sobre o coração.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

HÁ NOITE A MEIO DA TARDE?

Há noite a meio da tarde? Para mim há. Basta olhar para os gestos, para os sorrisos, para os olhos dos senhores que percorrem as rectas da cidade, para perceber que o dia é constituído por pontos negros, que se assemelham a olhos do diabo. A crise talvez explique esse fenómeno, esse flagelo que nunca abrangeu os meus sonhos. Felizmente, a minha cama nunca se transformou num lago, ou numa arriba medonha, ou numa Assembleia da República, onde as vozes do poder me obrigam a votar em coisas que pensei nunca dizer sim. Felizmente, a minha cama só me tem dado sorrisos, só me tem dado bons presságios. É o que eu gostava de dar aos olhos pardacentos. Mas a minha pequenez impede-me de ser grande.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

SALTO

Salto depois de abrir a clarabóia. E as pedras da cidade, que observam os passos dos anos, amparam-me como se eu fosse uma montanha. Por isso não perdi o vigor, nem fracturei os ossos, nem perdi ideias. Fiquei desapontado, porque tudo deve morrer na data que quer. Mas expulsei-o do pensamento, a pontapé e a empurrão, quando as lágrimas me dizem que a amizade imaculada encontra-se sempre na vivenda do improvável.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

POR CIMA...

Está escuro em cima das árvores, em cima das nuvens, em cima das estrelas. O avião, no entanto, deixa ficar um fio de dia que se apaga quando o vento tropeça no atraso.

NADA

Tenho os pés descalços. A alma não lhes fica atrás. O pensamento segue-lhes as pisadas, como se fosse alguém a seguir um caminho traçado por um grupo. Mas as mãos, com uma lucidez profunda, quase mitológica, dizem-me para me afastar do nada. De facto, o vazio é uma forma de morrer, é uma forma de viver a desilusão como nenhuma outra. O vazio é ter lágrimas coladas ao corpo, é ter a tristeza encravada na garganta. Como não as quero perto de mim, como não as quero dentro de mim, agarro num livro e deixo-me mergulhar nos pântanos da emoção.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

VIDA

O meu corpo caiu nos rios da amargura, onde os beijos não existem. É certo que os braços dos amigos tentam empurrar-me para as margens ou para ilhas dos sorrisos, mas também é certo que a bala continua ao pé do coração. Porém, amanhã irei respirar com outra desenvoltura e irei retira-la com o esquecimento. Não há outra forma de encarar as coisas; não há outra forma de viver.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

TARDE

A tarde cresce. Sob as oliveiras, o camponês brinca com o cão. O cachorro, de pêlo escuro, embora no dorso surjam pequenas manchas brancas, saltita e ladra como se afirmasse que o domingo é um dia especial. Porém, pouco depois, a noite pinta o céu e esconde as montanhas, que recortam o horizonte com formas hilariantes. Talvez por isso, os rostos perdem o fulgor dos sorrisos e os corpos arrastam-se tristemente para os ninhos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

SUGESTÃO

«[...] incorporámos o inferno no quotidiano do mais fascinante e atroz dos séculos. Basta passar em revista o imaginário deste fim de século -- da ficção à música, do cinema ao teatro, da biologia à tecnologia -- para ter uma ideia do ponto a que chegou um mundo onde o horror se tornou invisível, consumido como pura virtualidade, para ter uma ideia da metamorfose da cultura humana. Pode discutir-se se a desordem em que estamos mergulhados -- desde a económica até à da legalidade e da ética -- releva ou não, em sentido próprio, do conceito de caos. Do que não há dúvidas é de que o habitamos como se fosse o próprio esplendor.»

SIMPLES

Duas palavras são duas ideias; são duas forças do pensamento.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

POBRES COITADOS!

As nuvens embrutecem os pensamentos dos caminhantes. As notícias, que pincelam as folhas dos jornais, seguem o mesmo caminho. E os políticos, de pernas cruzadas e agarrados ao conforto, dizem-lhes que o bolso vai ser esvaziado com afinco. Pobres coitados! Não lhes gabo a sorte!