terça-feira, 31 de julho de 2012

SIMPLES

A morte é a primeira noite sossegada.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O FIM

Os ponteiros do relógio avançam. Não há pausas nem hesitações na decisão de correr para o futuro, de encurtar a distância entre o agora e o daqui a pouco. E isso, para os nervos da flor, para o corpo que recebe o vestido branco com pérolas de amor, é um sacrilégio avassalador. Não é de estranhar, portanto, que os braços da noiva vociferam exigências e indicações para os convidados, para os funcionários: para os pobres homens que correm com pratos nas mãos. Os ponteiros do relógio avançam. São duas indicações que procuram a noite. E ela, a dançar ao ritmo do Emanuel, aparece ao fundo do dia. É então que a noiva, exausta mas feliz, beija os rostos cansados e abraça os ombros das crianças, como se indicasse que o próximo passo será aquele.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O TEU DIA

O dia cresce e os nervos aumentam. Quase que tocam no absurdo. Mas tudo é desculpável, tudo, porque amanhã, pela manhã, o véu estará encastrado naquela cabeça, que agora só diz disparates, só vocifera, só amua, e nos olha como se fosse o cano de uma espingarda. A mãe, coitada, anda perdida no meio da cozinha e esquece-se de tudo. O pai, a sorrir, está a fumar e a olhar o horizonte. Talvez esteja a esgravatar na terra dos anjos uma lucidez que o oriente, que lhe diga que o fato tem de ter uma gravata. A brilhantina a lamber o cabelo fica ao critério, pelo menos o avião, que acentua a linha que divide o céu e a terra, é apologista disso. As irmãs, sentadas no tanque de pedra, abanam as pernas e dizem anedotas. Por vezes cantam músicas conhecidas e dizem coisas de adolescentes. Ao pé delas, de braços cruzados, estou a escrever na memória um texto para o teu dia. Mas apenas me surge esta frase: “Faz da união uma Primavera, um beijo que te ajudará em tudo.”

quinta-feira, 26 de julho de 2012

SUGESTÃO

Estão aqui reunidas as cinco «Histórias de Petersburgo» - «Avenida Névski» (1834), «Diário de um Louco» (1834), «O Nariz» (1836), «O Retrato» (1841) e «O Capote» (1841). Acrescentou-se «A Caleche» (1836), pequeno conto que alguns autores integram neste ciclo. Trata-se do chamado «segundo período» da obra do autor, que se seguiu ao período das histórias ucranianas - «Noites na Granja ao pé de Dikanka» e «Mírgorod». Estes contos do fantástico-real (ou real-fantástico), integrando o humor e a sátira inconfundíveis de Gógol, tiveram grande influência no ulterior desenvolvimento da prosa literária russa e, também, no de todas as literaturas ocidentais. A modernidade das propostas de Gógol continua mais viva do que nunca nestas histórias em que a personagem principal é a cidade de Petersburgo: mesquinha, sufocante, ridícula, irrisória e ilusória. «O que é um facto é que o comprido e sensível nariz de Gógol descobriu novos odores na literatura (que conduziam a um novo frisson). Como diz o provérbio russo "o homem que tem o nariz mais comprido vê mais longe"; e Gogol via com as narinas. O órgão que nas suas obras juvenis era apenas um acessório carnavalesco encontrado nessa loja de adereços baratos chamada "folclore", revelou-se, no auge do seu génio, o seu mais importante aliado.»

SIMPLES

A crítica aos costumes é feita pelos sorrisos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

SIMPLES

A felicidade é não ter medo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

MODA

As asas saem-me das costas com violência e levam-me até ao café do alto, onde as roupas da moda, desenhadas pelos senhores de Itália, esticam a preguiça todas as noites. Não tenho nada para mostrar, não tenho palavras ocas para dizer, mas estou curioso em conhecer a praça do prazer porque a cidade não fala de outra coisa. Quando entro no rectângulo, vejo gente vestida como nos filmes de ficção científica, a abrir muito a boca, a mover muito os braços, a mexer muito as pernas. Peço um café a um empregado franzino, que tem o cabelo às cores, enquanto pouso os cotovelos no balcão. Alguém me diz, a medo, que o gesto não é bonito. Perco o sorriso e engelho o rosto. Mas o cheiro do café diz-me para ter calma. Agarro então na colher e movo o líquido escuro, “Pst! Pst!”, olho para a direita. Perto de mim vejo a origem da aflição, “O que deseja?”, pergunto ao velho bojudo, “O senhor tem uma roupa esquisita! Quem a desenhou?”, “A loja da esquina. Aquela que ladeia a tasca do Manel, “Pobre! E que falta de gosto!”, e foge. O dono do café, homem forte e elegante, aproxima-se das minhas orelhas. A fotografia que saiu no jornal do burgo é fiel à anatomia. Pouso a chávena e aguço-as, porque o janota abre a boca: “Você não está na moda! Devia de ter vergonha”, “Sinto-me bem com esta roupa”, “As pessoas, no entanto, não têm a mesma opinião”, “Pouco me importa a opinião dos outros”, depois de uma pausa, o elegante chama dois gorilas, “Não é preciso incomodar-se”, deixo uma moeda sobre o balcão e desapareço. Aquele espaço, cheio de futilidades, é uma sombra no meio do escuro.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

SUESTÃO

Um Crime na Exposição retoma alguns dos personagens criados nos anteriores livros do autor, nomeadamente a dupla de detectives da Polícia Judiciária, Jaime Ramos e Filipe Castanheira. É precisamente o primeiro deles que, vindo do Porto e "exilado"em Lisboa durante a realização da Expo'98, se confronta com uma série de crimes ocorridos no recinto da última exposição mundial do século: os cadáveres de um biólogo açoriano apaixonado pelos rocazes, de uma oceanóloga mexicana interessada em gastronomia e de uma arquitecta paisagista ninfomaníaca aparecem como manchas que perturbam a visão de um mundo reunido em redor dos oceanos e da celebração de Lisboa como cidade da modernidade e do futuro. Construído como um divertimento em torno do policial Um Crime na Exposição não deixa, no entanto, de transportar os temas habituais dos livros de Francisco José Viegas : a Solidão dos homens, a crítica subtil ao Portugal pequeno-burguês e convencido da sua importância, os perigos da paixão, a arrogância do mundo da "cultura" e o conjunto de perdas que a civilização vai sujeitando os homens que procuram aceitar o seu destino sem heroísmo nem hipocrisia. Uma escrita maior, que parodia a própria literatura nos seus vícios e vaidades, e que confirma o seu autor como uma das vozes mais originais da ficção portuguesa de hoje.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

SONHO

Tenho o corpo ao sol, ao pé do farol. As gotas de suor, pequenas poças de cansaço, contornam-me o rosto e fazem-me carícias, relembrando-me que tenho sede do sonho que há duas semanas me invade o sono.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

VIDA OCA

Não possuímos nem o corpo nem uma verdade, nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

COMPRAR ALEGRIAS

Desprendo-me do sono, usando gestos anárquicos e violentos. Depois saio da cama e vou para a varanda, onde espio a manhã. O céu, uma mão coberta pela cor da paixão, brinca com as aves. Mas na rua, larga e extensa, a tristeza passeia-se sobre o empedrado. Parece que aqueles corpos precisam de políticas mais animadoras. Ou de políticos que saibam que os subsídios são para comprar alegrias.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ENVELHECER

Quero ler as receitas da minha avó, que estão metidas nas gavetas da cozinha. Com sorte descubro a fórmula para não envelhecer.

domingo, 15 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

PROCUREM-ME NESTA PÁGINA

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SUGESTÃO

«Livro absolutamente inolvidável por mais anos que se viva. Ou, de outro modo, um livro para a eternidade.» Miguel Real, JL «É um livro cheio de fantasmas, fantasmas dos Lusíadas, fantasmas do homem contemporâneo, uma viagem, uma anti-epopeia, e é um livro extraordinário. Estou convencido de que dentro de cem anos ainda haverá teses de doutoramento sobre passagens e fragmentos». Vasco Graça Moura, TVI24 «Trata-se, como sempre em Tavares de um texto inteligente, brilhante mesmo […]» Pedro Mexia, Público

quinta-feira, 12 de julho de 2012

PAI

As lágrimas do meu pai empapam-lhe as curvas da “juventude”. Não diz velhice; não diz que o tempo é uma praga para o corpo. Diz apenas “juventude” quando fala dos velhos ou das traquinices que faz no café da esquina, onde param os amigos das patuscadas. Beijo-lhe a humidade e digo-lhe “parabéns”, entregando-lhe um embrulho, “O que andaste a tramar?”, “Abre”, é o que ele faz. Aos poucos, a palavra amo-te é desembrulhada.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

ROUBO

O dia enfraquece e a noite, cheia de olhos que parecem estrelas, ganha um pulmão do tamanho do céu. Desligo o motor. Fecho a porta da garagem e janto. Foi feijoada. Com os pés no passeio, que carregam algumas das histórias da cidade, olho para os vultos que dão voltas e mais voltas às notícias dos jornais, porque as divergências de interpretação são duas tempestades aos gritos. Perto do rio, paro. O cheiro do frio acaricia-me o rosto, mas os jagunços das sombras regam-me de cólera: “A minha carteira!”

terça-feira, 10 de julho de 2012

AO PÉ DA CAMA

Sentado defronte da janela vejo a solidão a percorrer as ruas da cidade. Nas fachadas dos prédios estão cabeças a olhar para a noite; estão buracos pretos a olhar-me. Fico atónico. Detesto que me observem. Mas saio do miradouro quando fico com os nervos irritados. Ao pé da cama, atiro o corpo para os sonhos, onde os beijos das mulheres são desejos excitados.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

TARDE

Os beijos do sol enfraquecem. A tarde, envolta com o azul do céu, abandona a cidade. Prepara-se para dormir. Os candeeiros públicos, sujos e imundos, acendem-se. Os rostos das lojas, dos carros, das casas, fazem o mesmo. A corrente artificial, aos poucos, mostra aos olhos dos homens os lugares que se escondem na sombra.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

PRAÇA

E paramos na Praça dos Leões, onde o silêncio barra a solidão e as teias da aranha afogam o busto do patriota, que descansa num dos topos do paralelepípedo boleado. Ao pé dele, as tábuas dos bancos namoram com as rosas vermelhas. Os espinhos, compridos e largos, estão deitados no jardim mal cuidado. A rodeá-los estão as fachadas das casas. São paredes simples, repletas de janelas e de portas taciturnas, com flores de pedra a salpicar os contornos das aberturas. Dentro delas é provável que haja palavras irritadas, gestos desesperados, amores-perfeitos. Ou nada. Ou quase nada. Ou espaços despidos dos aconchegos das rendas, dos mimos dos móveis, dos sussurros dos passos. Dentro delas tudo é provável, tudo é previsível.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

SIMPLES

O que há de mais reles nos sonhos é o convívio com o inacessível.

terça-feira, 3 de julho de 2012

SIMPLES

A Natureza inteira é a primogénita da minha sensação.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

CREPÚSCULO

O calor pontapeia-me o corpo. Destrói-me o discernimento. E por isso perco a coerência. Mas o lombo das montanhas, que recortam o horizonte em ziguezague, dizem-me para me encostar às sombras. É o que faço quando encontro eucaliptos a salpicar o rosto. Pelo menos é o que me pareceu o conjunto de pedras sobre o cume na altura em que percorria o vale. Adormeço. A meio das brumas vejo os romanos a empurrarem pedras gigantes com a força dos braços. Hoje, todas as máquinas do mundo, todas as cabeças do mundo, não ergueriam a mesma história, a mesma paisagem, a mesma civilização. Na retaguarda dos músculos estão os senhores, os arquitectos e os filósofos. Atrás destes está a comida. O mar de fruta constrói uma serenidade, embora surja, por vezes, uma onda maldita. Talvez a irregularidade do caminho, que é largo e extenso, possa ser a causa dessa brusquidão. Acordo. Ao fundo, o céu está vermelho. É um vermelho desbotado, porque a noite vai escondendo o crepúsculo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

SUGESTÃO

Em 1937, Ernest Hemingway decidiu ir para Madrid, a fim de aí realizar algumas reportagens sobre a resistência do governo legítimo de Espanha ao avanço dos revoltosos fascistas. Três anos mais tarde, concluiria a elaboração do mais famoso romance sobre a guerra civil de Espanha, Por Quem os Sinos Dobram. A história de Robert Jordan, um jovem americano das Brigadas Internacionais, membro de uma unidade guerrilheira que combate algures numa zona montanhosa, é uma história de coragem e lealdade, de amor e derrota, que acabou por constituir um dos mais belos romances de guerra do século XX. «Se a função de um escritor é revelar a realidade», escreveria o editor Maxwell Perkins em carta dirigida a Hemingway após ter concluído a leitura do seu manuscrito, «nunca ninguém o fez melhor do que você.»

quarta-feira, 27 de junho de 2012

TELEFONE

O telefone atira para a sala um grito. É um barulho forte, rouco, que me faz estremecer, que me faz perceber que o silêncio é um engano, uma mentira, porque a sua essência altera-se conforme as necessidades ou apetites de qualquer coisa. Atendo. Do outro lado surge uma voz pacífica, um pouco filosófica quando as palavras voam na direcção da política. No meio da memória descubro que é o meu pai que fala. Sorrio, “Estás bem?”, “Nem por isso, filho. Mas é normal: a conjectura…”, “E a mãe?”, interrompo-lhe, “Está com saudades tuas, claro”, e as lágrimas saltam-me dos olhos como se imitassem a água das cascatas, como se fugissem da tristeza, “Também tenho saudades dela, e tuas”, e prometemos que no próximo sábado iremos abraçar os corpos com afinco.

terça-feira, 26 de junho de 2012

MESA

A mesa está deserta, embora alguns cotovelos intoxicam o branco com manchas de vinho. Os gatos, de caudas erguidas, miam e mordem as pernas adormecidas. Por vezes, com brusquidão, aparecem bofetadas que tocam e magoam os pobres bichos. Ao vê-los a saltar para a erva, as bocas dão casquinadas elevadas. Mas os meus olhos fazem tristezas que não existem nas histórias.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

S. JOÃO

Sobe, sobe, balão sobe, enquanto as sardinhas bronzeiam-se nas brasas. Os pimentos serão a seguir. A dança fica para o fim da digestão. Mas a música tem que estar sempre presente.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

VERÃO

a sombra do verão aproxima-se, mas a chuva dominará o dia de amanhã.

terça-feira, 19 de junho de 2012

DICIONÁRIO

Abro o dicionário. Dois rostos cheios de palavras mostram-me, ao acaso, um punhado de mortos. A culpa é das bocas. Das mãos. E dos dedos. Porque a comodidade do rotineiro permite fugir ao engano. Como se o erro fosse um monstro. Abano severamente a juba. Mas a folha de papel, que descansa ao pé do candeeiro, lembra-me que o prelúdio da mudança pode ser feita por mim. Paro e amedronto-a: “Dacoma”, enquanto retiro a esferográfica para longe.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

FOTOS

Saio da noite. Devagar, entro no quarto, onde o computador afugenta as sombras. Sento-me. A cadeira, de madeira, faz uns gemidos. Mas o bulício, estreito, fino, perde-se no silêncio da madrugada. Respiro. É um acto divertido, porque me permite brincar com a camisola. Suspiro, e deixo que as lágrimas escorram pelos vales quando as fotos dos defuntos pintam o ecrã da máquina.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ASSALTO

abro a porta e saio do dilúvio com a convicção de que o inverno assaltou a primavera.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

SUGESTÃO

Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?

segunda-feira, 11 de junho de 2012

ESCURIDÃO

Do céu, vem uma luz enfraquecida. A culpa dessa tonalidade tão singela é das nuvens e do vento, porque trazem do inferno a mão da escuridão.

domingo, 10 de junho de 2012

NÃO HÁ PRIMAVERA

Não há sinais da primavera nas montanhas. Não há pássaros a sobrevoar as ruas. As praças. O campo de futebol. E as cabeças dos prédios. As pessoas, sem os suspiros que caracterizam os bem-aventurados, lançam palavrões ao nevoeiro, que chefia o trono do céu. Os miúdos, de narizes tortos, de olhos tristes, de bocas fechadas e de pensamentos duros, olham para o horizonte com ansiedade. Mas as terras longínquas não trazem a mudança desejada.

sábado, 9 de junho de 2012

SIMPLES

O que faz falta é agitar a malta.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

VINHO MENOS AZEDO

entro do café, as bandeiras do país estão estendidas nas mesas. Os funcionários, de olhos cobertos pelo cansaço, dão sorrisos para os clientes, que se alimentam em esperanças vitoriosas. Há quem salte esse imaginário e diga que a selecção vencerá todos os jogos. Mas os jornais pousados a um canto alertam que o desemprego subirá até às estrelas, onde os monstros triturarão a paciência dos infelizes. Como sempre, as mentes regam-se com o vinho menos azedo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

SIMPLES

Se não dormes, podes ficar sem ideias claras.

terça-feira, 5 de junho de 2012

PASSADOS

As paredes da rua estão caladas. Mas por detrás das pinturas, dos pósteres de publicidade, estão vozes. São camadas esquecidas que voltam à superfície quando o artista usa martelos pneumáticos para esculpir um rosto enrugado, uma cicatriz no peito. Os cidadãos, no entanto, não fotografam essas preciosidades, porque as palavras e as imagens dos outros tempos são futilidades. Os afazeres do futuro, essas coisas que dão a ganhar o pão e a sopa, não lhes permitem descobrir que na quietude está a luz do conhecimento ou o princípio da tese, que levará o incauto a compreender o chão que pisa.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

SIMPLES

As pegadas indicam os caminhos dos outros.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

SOMBRAS

Saio da toca, onde os sonhos são o fruto do meu pensamento. O dia, repleto de sementes a boiar a dois passos da terra, é um assador que coze a carne exausta. Mas as sombras que saltam dos prédios dizem-me que a aflição não deve estar no topo da testa.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

SUGESTÃO

O Velho e o Mar é, porventura, a obra-prima de maturidade de E. Hemingway. Santiago, um velho pescador cubano, minado por um cancro de pele que o devora cruelmente, está há quase três meses sem conseguir pescar um único peixe. Vai então bater-se, durante quatro dias, com um enorme espadarte, que conseguirá de facto capturar, para logo o ver ser devorado por um grupo de tubarões. Esta aventura poética, onde Hemingway retrata, uma vez mais, a capacidade do homem para fazer face e superar com sucesso os dramas e as dificuldades da vida real, é seguramente uma das suas obras mais comoventes e aquela que mais entusiasmo tem suscitado, ao longo de mais de meio século, entre os seus fiéis leitores.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PASSADO

Saio de casa e deslizo nos corredores de alcatrão. Não há muito movimento. Quando chego à terra da minha juventude paro o carro e ligo a memória. As traquinices e os suspiros, os pássaros e os coelhos, os avós e as tias, os filmes e o futebol, são imagens que dizem às lágrimas para me cegar. Limpo a escuridão e olho para o passado: a casa continua igual; o jardim continua a trepar pelas paredes; as portas e as janelas continuam entreabertas, como se os medos da rua fossem convidados a entrar. Apenas o musgo das telhas cria no objecto a passagem do tempo. Olho para o retrovisor e vejo que o musgo também se apoderou de mim.

terça-feira, 29 de maio de 2012

SIMPLES

a noite é apenas uma porta para o dia.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

CORPOS

Desconheço o conteúdo que os levou a pensar que os sentidos são anzóis incapazes de capturar alegrias; desconheço os contornos da luta; desconheço o que os matou. Mas conheço-os da mesma forma que conheço os vincos da minha mão ou as curvas que ladeiam a minha morada e sei, por isso, que aqueles corpos, deitados nas ilhargas do céu, são perfumes da coerência. É por causa deles que a essência do meu corpo vive com a simplicidade.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

SUGESTÃO

Livro recomendado para as Novas Oportunidades, destinado a leitura autónoma - Grau de Dificuldade II. No prefácio dos "Azulejos do Conde de Arnoso", emite Eça a sua opinião sobre o conto: "No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida". O enredo é simples, linear. Não é analítico. Há neles concentração de ação, tempo e espaço. Eça realiza-se também como contista.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

PRIMAVERA

As gotas da tarde mergulham na cidade como pássaros no rio e humedecem as caras dos incautos que percorrem as ruas com suavidade. O sábado dá para isso. Mas o incómodo afasta-se e deixa-nos em paz. Sorrio. O frio, no entanto, recorda-me que a primavera não tem ainda espaço para sair do meu rosto e dar às abelhas o produto de que precisam.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ESPERANÇA

Descobri que a esperança é uma lufada de emoções, que se prende aos músculos das pernas como carraças. Por vezes, os séquitos do coração não estão preparados para responder a esse desígnio. O cansaço, provocado pelo somatório dos dias, são a resposta dessa incapacidade. Mas a esses dias incaracterísticos, obscuros e inválidos, a inércia é destruída pela faca da vontade. E o que parecia impossível de se obter torna-se, como por magia, um braço mais perto de mim.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

CAMINHOS

Os dias de chuva fazem parte da memória. Mas há quem sonhe com ela, há quem peça a tudo para tê-la aos pés. As cabeças dos homens são, por isso, uma fábrica de caminhos que desaguam em terras distintas, onde as praças alojam vidas próprias. O meu, imutável, navega ao longo dos dias de sol, porque é do brilho que nasce o sorriso.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

AMIGO

Tiro as pernas da inércia. Ao pé da porta, agarro na maçaneta e puxo-a com ímpeto. Na mesma proporção, a figurinha caquéctica do meu amigo desenha-se à minha frente. Infelizmente, o meu sorriso tropeça na sua tosse.

terça-feira, 15 de maio de 2012

ÚLTIMO SUSPIRO

Levanto a persiana. Utilizo gestos calmos e sonolentos. Lentamente, o quarto perde o fulgor da noite e ganha o brilho do dia, que saiu do horizonte há mais de uma hora. Quando os bocejos do sol encontram os meus olhos, perco o norte e fico cego. Mas a magia da surpresa indica-me a porta da visão. Sorrio quando vejo a alcateia a passear nas costas da montanha e dou gargalhadas quando descubro as traquinices das crianças. Não há nada melhor do que ouvir a inocência a esgravatar nas folhas e nos ramos que a natureza criou. Deixo a janela. Tenho uma dor no coração. A meio do quintal tropeço numa pedra e caio junto da sepultura do meu cão. Foi uma queda violenta. É então que sinto a morte a visitar o que lhe pertence.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

SUGESTÃO

Às vezes, as traduções fazem com que os títulos deixem de ser fiéis ao que realmente significam. É esse o caso de "Gente de Dublin", do escritor irlandês James Joyce - "Dubliners", no original. É que "Gente de Dublin" é diferente (talvez substancialmente diferente) de "Dubliners". Se no primeiro se lê "conjunto de pessoas, gente que vive em Dublin", no segundo, contudo, lê-se caracteres-tipo, indivíduos feitos da mesma massa, do mesmo sangue. Há algo que os une e algo que os separa. Não são "apenas" homens e mulheres que vivem na capital irlandesa. Longe disso. São as mesmas origens, a mesma pobreza e o mesmo orgulho, os mesmos sonhos e desalentos. "Dubliners" é um conjunto de quinze contos e foi escrito por James Joyce por volta de 1905, quando o escritor estava em Trieste a leccionar - é o segundo livro do autor da obra-prima "Ulisses", e também de "Retrato do Artista Quando Jovem" ou "Finnegans Wake". "A minha intenção foi a de escrever um capítulo da história moral do meu país e escolhi Dublin como cenário porque a cidade me parecia o centro da paralisia. Tentei apresentá-la ao público em quatro aspectos: infância, adolescência, maturidade e vida pública", explicou Joyce. E é exactamente assim que o livro se apresenta. A "infância" é vista pelos olhos de crianças: um miúdo a quem morre o tutor ("Irmãs") ou rapazes que descobrem os prazeres ilegais da vida - livros proibidos e raparigas ("Um encontro"). A juventude ou a puberdade estão em "Eveline", a rapariga que olhava pela janela do quarto e que queria mudar de vida; em "Dois conquistadores", Corley e Lenehan, que se gabam das suas conquistas, ou em "A pensão", em que Polly e o sr. Doran se apaixonam sob o olhar reprovador da mãe desta. Em "Camaradas" está a maturidade deprimida de um empregado de escritório, como em "Uma nuvenzita" está a vida pública estraçalhada de Little Chandler - e "lágrimas de remorso começaram a brotar-lhe dos olhos". Em "Um caso doloroso" estão os primeiros prenúncios de uma velhice pintalgada de solidão, como em "O morto" está a crónica de uma morte anunciada. O que há, então, em "Dubliners"? Irlandeses ruivos bebem uísque de malte ao final da tarde; meninas de convento ajudam as mães na cozinha; putos reguilas jogam à bola do outro lado do rio; ruas e mais ruas, numa cidade que parece enorme e, ao mesmo tempo, minúscula, tal é a facilidade com que se sai de Temple Bar e já se está no Ringsend. Há também uma cidade suja e triste, vestíbulos quentes e apertados, cheiro a mofo, ácaros, vestidos de domingo, relógios de corda, álcool entornado em tampos de mesas. E há, sobretudo, um desalento - quem é esta gente, unida por um mesmo espaço, um mesmo tempo, a mesma classe? Parecem-se uns com os outros. Os anos vão passando, eles vão crescendo e, com eles, o desânimo, a infelicidade, a amargura acumulam-se como o papel nas paredes, as fotografias da família, a preto e branco, bolorentas. E o velho "dubliner" já não é o mesmo - está a envelhecer. Mas o rio continua, imponente, a correr para longe daquela ilha, da Irlanda, a correr, quem sabe para outra ilha, para Londres, quem sabe para o continente, Paris, Berlim, para longe do "ramerrão" de Dublin - para as "cidades imorais" com que sonha Little Chandler.

sábado, 12 de maio de 2012

SOL

O sol fugiu. Escondeu-se no meio das mãos pardacentas que as nuvens lançam ao azul do céu. A cidade, a deambular com tristeza, perde a profundidade das cores e o brilho dos olhos. Mas a vivacidade volta a pintar as ruas quando o sol descobre um rasgo na brutalidade, “Ninguém o entende”, “Pois, o governo parece maluco!”, “Não me refiro a isso, homem!”, “Então?”, “Ao tempo”, “Ah!”, dois homens de meia-idade, sentados a dois palmos da igreja, olham para a fila que, a passos lentos, entra na junta de freguesia com intuito de receber um carimbo. Uma nova exigência do centro do emprego, “Faz chuva. A seguir faz sol. O tempo está como a economia: maluco”, “É uma palavra meiga”, “Não me venha com palavrões”, “Está tudo fodido”, “Podia ter sido pior”, o zumbido pousa no silêncio. O lugar, taciturno, embora os pensamentos dos desempregados façam grandes barulhos, pelo menos é o que me dizem os seus olhos, vai mergulhando nas malhas da desilusão.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

SIMPLES

ontem como hoje, o amor é um fogo que arde sem se ver.

terça-feira, 8 de maio de 2012

SUGESTÃO

Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade… No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam. Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Por que razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância, Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece - desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte. Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos recantos mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ÁGUA

o rio já é um mar. as montanhas, aos gritos, vão perdendo território para a água barrenta.

sábado, 5 de maio de 2012

DIABO

Agarro no casaco e saio de casa. Chove como se não houvesse amanhã. Abro o guarda-chuva e enfrento a intempérie. Ao pé da câmara escondo-me na arcada do museu que já fora uma escola, porque as lágrimas das nuvens formam um oceano nervoso e possessivo. Estou só. Do outro lado da praça, as fachadas estão taciturnas. Os rectângulos que as recortam estão despidos de caras coscuvilheiras. Só os ramos das árvores afogam a monotonia que abraça o contexto. Sorrio e murmuro: “Há sempre uma mão que nos recorda que a vida deve ser vivida com esperança”, guardo a frase na memória e saio da arcada para enfrentar com robustez a dificuldade imposta pelo diabo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

AMO_TE

Não há tempestade que vocifere como eu a palavra amo-te.

BORBOLETA SEM ASAS

Chove com abundância. Há semanas que é assim. As nuvens, carregadas de negrume, influenciam os rostos dos transeuntes, porque a primavera dá lugar à tristeza. O meu, envelhecido e cansado, está no mesmo trilho, está enfeitado com a mesma massa. Pouso o corpo num café e olho para o vidro que enfeita a entrada. Por detrás dessa parede vejo a cidade a contar os tostões. Alguns carros, pertencentes a magnatas sem respeito pela cultura, informam-me que o capitalismo é um patrão que vigia sempre os empregados. Indago os esfomeados e descubro que os sorrisos foram decapitados e que a esperança é uma borboleta sem asas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

DESÍGNIO

A noite avança. As estrelas, sossegadas, rasgam a monotonia da bruma. Nos candeeiros públicos não há luzes. A austeridade obrigou a autarquia a minimizar os gastos. Coisas de quem tem os bolsos descosidos. Ligo a lanterna e desço as escadas. Está frio. Com os pés no empedrado, ouço um barulho ténue, frágil. Olho para todos os lados e apenas vejo o silêncio a mordiscar a paisagem. Porém, pouco depois, os senhores dos galinheiros assobiam uma melodia erudita. Dão à alvorada um motivo para crescer. Há quem precise de empurrões, de palmadinhas amigas para fugir da inércia. Entretanto, no meio do horizonte, surge o corpo de um avião. É pouco maior de que um ponto cravado numa folha. Apuro o olhar e observo-o como se observasse o meu desígnio.

terça-feira, 1 de maio de 2012

1 DE MAIO

Em 1886, realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago nos Estados Unidos da América. Essa manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias e teve a participação de milhares de pessoas. Nesse dia teve início uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou com uma escaramuça com a polícia e com a morte de alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket. Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu por proposta de Raymond Lavigne convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama esse dia como dia internacional de reivindicação de condições laborais. Em 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica o dia de 8 horas e proclama o dia 1 de Maio desse ano dia feriado. Em 1920 a Rússia adota o 1º de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países. Apesar de até hoje os estadunidenses se negarem a reconhecer essa data como sendo o Dia do Trabalhador, em 1890 a luta dos trabalhadores estadunidenses conseguiu que o Congresso aprovasse que a jornada de trabalho fosse reduzida de 16 para 8 horas diárias.