quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Aceito


Depois das palavras, cuspidas numa eloquência que desdenha o mais erudito, o terramoto cobre-nos com dores o corpo sem bolsos, “Mas o que havemos de fazer, eles vão cortar e vão”, ouve-se um pouco por todo o lado, como se a resignação aos direitos morressem nas mãos dos pensadores.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

NÃO SE ESQUEÇAM


Todos os dias, por volta da mesma hora, o vizinho com o leite derramado nos caracóis atira-se à janela. E quando os seus olhos sentem o beijo das lufadas, “Amem-se, suas máquinas de gestos”.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A CHUPENA DA MORTE


Faz hoje anos que o meu amigo Calisto morreu de súbito, “Bateu a bota em dois ais”, nem mais. E foi terrível aquele espectáculo de espasmos sobre o sobrado, coberto pela noite e pelos sapatos dos amigos, no gáudio do burgo. Ainda esboçamos um movimento de ternura, mas o corpo já estava em cadáver q...uando o abanamos. Choramos torneiras de sentimentos, esbracejamos gritos de cólera, enquanto esmurravamos o maço de tabaco que ele tinha no bolso, até adormecermos com a dor agarrada a nós.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O BAQUE DA SOLIDÃO


Depois do almoço encosto a cabeça na única praça da cidade. Como eu, outros ensonados atiram também os seus corpos para o descanso, como se mastigássemos algumas coragens para o trabalho, que virá daqui a pouco. E juntos, abraçamos um silêncio muito imaculado, apenas interrompido pelo chilrear dos ...pardais, que se passeiam por entre os ramos das árvores. Subitamente, numa melancolia de um moribundo, um indivíduo encosta o corpo na estátua do rei, implantada no centro da praça, “A solidão é uma arma que nos mata lentamente”, brame grotescamente. Entreolhamos os nossos mistérios, através de olhares muito intensos, no mesmo instante que o baque muito rouco recompõe o silêncio.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Escrita


Quando a noite atira o silêncio para o burgo, as minhas mãos tocam nas teclas do computador, como se namorassem os lábios de uma ideia. E nesse mesmo momento, rasgo o teclado com frases, até me perder na floresta dos sonhos. Mas quando a maresia rompe com a lucidez, bocejo um cansaço muito comprido e desapareço.
Os cacarejos de uma bola de penas abanam-me como loucas, assim que a aurora pinta o negrume com alegria. Ergo os olhos estremunhados, pela insistência tão desengonçada, e direcciona-os instintivamente para o ecrã. Aí, com os beiços acabrunhados, as palavras esperam-me taciturnas. Leio-as devagarinho, mas na primeira pausa, “Porra, isto não está nada bem”, atiro o desespero.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O beijo da emoção


Quando a aurora perfura a janela, o cãozinho malhado, de orelhitas arrebitadas e de cauda a mastigar o silêncio, atira-se para o meu corpo, que ainda se despede da fada madrinha. Mas assim que os meus olhos casam com os objectos do quarto, a bola de pêlo lambe-me veementemente o rosto, como se eu fosse um doce com muita carne, “Então menino, vamos lá acalmar”, e empurro-o com a delicadeza de uma donzela para o sobrado. Esbraceja, esgadanha, mas acaba por sossegar. Bufo um finalmente, limpando o cansaço da testa, ao mesmo tempo que o meu corpo desliza de novo para a almofada. Aí, refastelado como um leão ao sol, vejo o jornal com baba a roçar-me a perna esquerda, “Que bom companheiro!”, e sorrio uma emoção.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Da sombra


Quando a noite não desperta para a essência, os olhos do meu vizinho descem até à rua. Aí, de pijama mesclado por bonecada, o desgrenhado coloca as pantufas a pisarem o alcatrão, como se fosse um ladrão ao ouro, retirando um cigarro do bolso. Acende-o e fuma-o, quando um pedinte salta da sombra, “Oh migo, dê-me felicidade”.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Voar no escuro


Quando a noite salta para as rochas que amparam o negrume das vozes, o meu corpo não é menos do que um fantasma sem sentimentos, que baila sobre os noctívagos, a namorarem na sombra um cigarro muito comprido, para lhes morder as carnes sem alma.
Porém, quando acordo, penso que o sonho é apenas um veículo de abandono, um outro modo de me ver do outro lado.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Adeus


Quando me aproximo do corpo adormecido na cama desgrenhada, pressinto que não respira. Abano-lhe, cuspo-lhe pelo nome, mas apenas um silêncio transborda dalí. Fico sem saber o que fazer ou o que dizer, como se a minha agilidade morresse na inércia. Até que o meu amigo, através do súbito, derrete a dor com lágrimas para o sobrado envelhecido, que parecem cataratas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ler


"«Há muito que Raimundo Silva não entrava no castelo. Decidiu-se a ir lá. O autor conta a história de um narrador que conta uma história, entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o sim e o não. Num velho prédio do bairro do Castelo, a luta entre o campeão angélico e o campeão demoníaco. Raimundo Silva quer ver a cidade. Os telhados. O Arco Triunfal da Rua Augusta, as ruínas do Carmo. Sobe à muralha do lado de São Vicente. Olha o Campo de Santa Clara. Ali assentou arraiais D. Afonso Henriques e os seus soldados. Raimundo Silva ""sabe por que se recusaram os cruzados a auxiliar os portugueses a cercar e a tomar a cidade, e vai voltar para casa para escrever a ""História do Cerco de Lisboa"". Uma obra em que um revisor lisboeta introduz a palavra ""não"" num texto do século XII sobre a conquista de Lisboa aos mouros pelos cruzados.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Os nervos em palco


O ensaio começa daqui a nada. Sinto um bulício a chamar-me para os nervos, aos quais me embrulho, porque a primeira vez é sempre uma cegueira sem limites. E assim salto para o palco, com o fato de gala vestido.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ribeiro da Silva


O meu corpo nunca pensou morder uma experiência de palco, modificando-se numa personagem que não pensa em livros. Porém, a minha voz escarrou um “Sim” faz dias, a uma proposta sobre uma peça de teatro, que se realizará em Outubro, aqui no burgo. A peça narrará as glórias do Ribeiro da Silva, em cima de uma bicicleta que não lembra ao mais forreta ter agora na sua garagem, e depois as suas comemorações, dentro da adega repleta de pipas de vinho, enquanto que os amantes da modalidade berravam o seu nome, um pouco por todo o mundo. Enfim, quem me mandou aceitar estas comédias?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A noite com inveja


Do rectângulo com caixilharia, vejo a rua a dormir profundamente, sem disparar barulhos que não lembraria ao judas. E contemplo-a nesta intimidade tão aguerrida, de olhar pregado na inveja, porque a noite não me trouxe o sonho. Porém, quando o flagelo me sacode a razão, atiro-lhe com um grunhido, “Atira-te aos corjas, sua tola, eu não sou desses”.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O silêncio amigo


O Setembro já pendurou nas videiras, lacrados no infinito, o olhar pardacento. Mas nas pedras, penteadas pelos braços do mar, ainda se sente o forno de Julho e os gritinhos dos infantes a chapinarem na água tépida, como se fossem ninfas a deambularem uma sedução.
Depois de os respirar com o olhar perscrutador, envio o detective para o areal. À minha frente, a uma distância de vários braços de anões, sugo um grupo que repousa sobre toalhas coloridas. Taciturnos, de olhitos a vigiarem a noite, as mãos dos novos escondem-se nas grutas quando um corpo amigo sacode a areia com a sua chegada. Entretanto, um aventureiro das palavras sopra-lhes com um “Bom dia”. O silêncio vira-lhe costas e adormece.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ler


O Retrato conta-nos a história de um agiota que, prestes a morrer, pede a um pintor o seu retrato, de forma a permanecer vivo. Quando o retrato se encontra terminado, o efeito da corrupção e miséria que o agiota tivera sobre as pessoas é, miraculosamente, transposto para a pintura.Tchartkov, um pintor pobre, jovem e desconhecido, será, anos mais tarde, uma das vítimas do retrato, iniciando uma vida de corrupção, luxos e inutilidades que o conduz à miséria interior.E à semelhança das personagens deste livro, impelidas à miséria e, mais tarde, à sua introspecção através do retrato, os leitores serão certamente conduzidos à reflexão sobre si mesmos e sobre as suas ambições. Em O Retrato, o último dos cinco Contos de Petersburgo, o fantástico e o real confundem-se, numa reflexão wildeana sobre arte e vida.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Revisão


À minha frente, os papéis sem branco embrulham-se em imperfeições. E por elas namorarem o meu texto, desespero e tusso uma aflição que não lembra às tempestades varrer as cidades ou os campos Mas os pontos negros não devem viver nas faces perfeitas.
Suspiro mais um pouco, olhando para o monte de papéis que me chama, e continuo a rever o filme imaginado, com a caneta preta a agastar-se como nunca.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Trabalho para alguns


Na mesa do café, o patrão com um balão proeminente na cinta pousa um copo de fino. O cliente, um homem com uma cara de esqueleto, a esburacar a crosta suja das narinas, agarra-o e entorna o liquido pela goela abaixo como um esfomeado. Depois, com a maior das calmas, pousa-o na mesa. E diz, “Preciso de um emprego”, o patrão volta-se e olha-o, “Oh amigo, eu estou a precisar de um funcionário”, “Trabalha-se no fim-de-semana?”, pergunta-lhe, fechando o olho esquerdo, “De quando em quando, será necessário”, liberta a pressão sobre o olho e sorri, “Então esqueça”.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O bicho dos hábitos


Em todas as veredas da cidade, os olhos dos morenos acariciam o chão empedrado, arrastando os corpos desiludidos. Debruço-me na soleira da janela, arreganhando o ouvido coscuvilheiro e fitando-os como um detective, assim que navegam próximo do meu aconchego. Pouco depois, uma velha desdentada, a cheirar a flores e a retirar pedrinhas pequeninas do cabelo, encosta-se na árvore centenária, mesmo ao meu pé, “A retirar piolhos, vizinha?”, lanço-lhe ironicamente, cuspindo-lhe com um sorriso, “Estou a retirar o hábito das duas últimas semanas”, e chora como se fosse morrer.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O novo dia


Lá fora, a noite boceja um dia mal dormido, assustando os pontinhos brancos que saltitam os seus desassossegos para os tanques com trevas, situadas na vastidão do infinito.
Aqui dentro, a velha mesa alegra-se copiosamente assim que os nossos olhos rasgam as saudades com sorrisos. Foram três semanas de afastamento, foram três semanas em que os nossos cheiros não se misturavam nos arrotos dos problemas, nos gáudios deselegantes, ou em qualquer outra forma de contacto; foram três semanas, três longas semanas que não agarramos no dicionário e escolhemos palavras com sentido (como se eu apenas tivesse navegado nesses dias num vazio sem nome e sem rosto, muito à semelhança dos bichos da praia que namoram impropérios para o nu). Todavia, o vento suão cravou-se-me no corpo e levou com ele as porcarias do quotidiano, quando o beijo da velha mesa me abriu a janela do novo dia.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O vento desfavorável


Cuspo para o chão porque uma navalha com pêlos, que me faz lembrar o teu rosto cáustico, bufa dois impropérios enérgicos para uma vizinha que sorri, marchando como louca para o inferno vermelho que pousa com carinho nos telhados do infinito. Mas outros dois se seguiram, quando as costas da desconhecida baloiçam no frio do dia. E depois o silêncio borrifa-me o olhar azedo, assim que os caracóis desaparecem para o caminho desconhecido. Solta-se uma lágrima resignada, vinda das entranhas que mostram sentimentos, e corro como um felino para o princípio do último fim. Pelo menos assim espero - pois já não sinto a alegria a mimar-me o corpo com cicatrizes, com muitas cicatrizes.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Maravilha


O sol ainda espreita o longe, no último canto do dia, e os retardatários abraçam a areia quente das tristezas, porque o pedaço da tarde esvoaçou a maravilha.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

E tudo o vento leva


O frio arrepia o susto, na escuridão do dia. Talvez por isso, a rua não absorve vida como devia. Aqui dentro, o mar de gente desliza o tempo com a leitura de palavras, estampadas nos livros, nos jornais, nas revistas.
E assim se faz o namoro com as férias.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

As folhas no areal


O vento soprou e o sol voa agora sobre o meu corpo que se passeia na marginal. E ele, aberto aos sorrisos, olha para o mar de folhas pequenas que amassam o areal, e murmuro, "Nunca vi tanta gente a ler".

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A câmara que filma


No jardim da cidade, o reboliço cresce desmesuramente porque um microfone e uma câmara de filmar, com um símbolo muito florido, poda os olhares azedos ou os olhares estremunhados, que passeiam a manhã em passos trôpegos. Ao bulício interrogador, que faz desaparecer os verdes verdejantes, os senhores do poder, assentes em bicos de pés, constroem o palco do mundo como se fossem a nata imaculada de um sonho.

A uma distância segura, rastejo o corpo sobre uma cadeira desconfortável, que abraça uma esplanada cheia até aos dentes. Embora sinto os pares de olhos a perscrutarem o enredo da magote, com os lábios a morderem o café em chávenas muito descosidas da verdade iniciada, o cheiro daqueles senhores é consumido com uma certa indiferença.

Quando pouso a chávena amarrada na solidão, as luzes acendem-se, a câmara lança um pontinho vermelho muito fininho na nossa direcção e os comentadores atiram palavras com sabor. No seguimento, as cabeças iletradas esbracejam a brutalidade, "Ó mãe, estou aqui".

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Finalmente


E eis que o sabor do sonho materializasse num texto de 170 A4. Foram longos meses a chorar com desespero, a morder o tutano da desistência, mas as sombras da noite amarravam-me sempre ao computador, como se fossemos irmãos muito unidos, muito únicos. Estou grato eternamente a elas.
Mas estou também grato à paciência dos meus pais, porque “o tempo não tem tempo” e tudo passava rapidamente sem o beijo da minha presença, sem o abraço das minhas palavras a bailarem a sinopse do dia. Transformei-me assim por longas eternidades, num fantasma sem rosto, num invisível sem sentimentos; transformei-me, portanto, num rio que não desaguava no dorso do mar. Mas eles sempre me viram a boiar na felicidade, através dos vincos do meu rosto. E assim, a desilusão de não terem o meu corpo, desaparecia por entre a satisfação do meu contentamento.
Não sei o que dizer mais. Talvez um obrigado me falta: OBRIGADO.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ler


EMÍLIA FERREIRA - CARTOGRAFIA ÍNTIMA

Nasceu em Lisboa, em 1963. Licenciada em Filosofia (FLUL). Mestre em História da Arte Contemporânea, (FCSH/UNL) e doutoranda em História da Arte (FCSH/UNL). Começou a publicar em 1987, tendo colaborado com O Jornal, Público, o suplemento DNA (do Diário de Notícias) e revista MID. Tem ainda colaborações dispersas pelas revistas Seara Nova, Escritores, Faces de Eva, Margens e Confluências, Casa & Jardim e Rua Larga.Na ficção, tem dois romances publicados: O Espelho Que Reflecte (Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 1998) e No princípio do mundo, uma tâmara (Prémio Literário Vasco Branco, Câmara Municipal de Aveiro, 2001). Recebeu ainda as seguintes menções honrosas com as colectâneas de contos Obsessões Exemplares (menção honrosa no Prémio Nacional do Conto Manuel da Fonseca, 2004) e Visões do Azul (menção honrosa no Prémio Literário Carlos de Oliveira, 2004). Outros prémios: Prémio Literário Afonso Duarte 2007/2008 (com uma monografia sobre Mily Possoz); Prémio Literário Branquinho da Fonseca – Conto Fantástico, 2007; Prémio Literário Almeida Firmino, 1996; III Edição do Prémio Literário 25 de Abril, 1994.


No meio do caminho, Helena recupera o corpo de mais uma cicatriz, quase fatal - o coração que falha… mas revive. É então altura de lembrar as suas idades, o convívio contido com a mãe, Eduarda, a distância atenta com a filha, Matilde, mas, sobretudo, o convívio com a avó, Beatriz, lembrando dela que a pele não deve chegar intocada à última morada. E Helena viveu: primeiro, dividida entre uma amizade de infância e um casamento de conveniência, que oficializa metida dentro de um vestido inacabado, derradeira maldição da amiga Mariana, que assim vinga a sua sexualidade interrompida. Depois, dividida entre a obediência à tradição familiar, governada pelo verbo «manter», e o desejo de marcar na pele uma vida adiada, longe da clausura, que até então apenas pôde entrever durante uma viagem pela Europa, na adolescência. Helena acolhe agora a vida plenamente, entregando a pele à experiência verdadeira do amor, das coisas mais simples que se havia negado, até que a doença ameaça a sua vida e o seu coração. Perto do destino final, há oportunidade de redimir a rivalidade entre Helena e Mariana com um vestido perfeito, fechado, e cumprir assim o destino que a cada uma pertence… agora, mas não tarde de mais. Cartografia Íntima é notável ao percorrer quatro gerações para encenar o retrato de uma mulher em transformação, procurando, no desenho do seu íntimo, a essência da intuição e psique femininas. O desencontro de amor, o destino pessoal e a tragédia de uma doença grave, sem ressentimentos, sem uma percepção fatalista, são temas fulcrais donde as personagens emergem com uma dimensão verdadeiramente humana e rara na literatura portuguesa contemporânea.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Talvez um pouco mais


Incêndios e mais incêndios polvilham a terra de ninguém, no fim deste mar de telhas. E a eloquência que destroça as almas em alvoroço, os bombeiros correm para o inferno, de cravos vermelhos na ponte da esperança.
Já a noite baloiça as lufadas desesperadas, quando a frente do mal arrasa com o choro débil. É então que os braços carregados de dores descobrem a insuficiência de meios.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O rosto negro


Depois do trabalho, corro para casa como se tivesse asas no dorso, porque as palavras me saltam na ansiedade. Instantes decorridos, dispo-me da máquina com rodas na toca das sombras e subo as setenta e duas escadas num só fôlego. Assim que venço a última, a saliva sem oxigénio tropeça num papel colado na porta do vizinho. Acumulo bisbilhotices nas orelhas até sentir a inevitabilidade nas vontades. Aí, já quase no desespero, deslizo o olhar para o texto, “Este imóvel está em hasta pública”. Deito-me com as exclamações no abismo inexplicável e farejo que o Doutor dos Doutores, sempre acorrentado ao ouro, me sorriu ontem com um cheque sem cobertura.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A noite das gargalhadas


Quando a noite morde o dia, as luzes e luzinhas acendem-se com opulência. Ao mesmo tempo, do outro lado da margem, na terra recalcada pela história, começa um combate medieval. Guerreiros e cavalos esgrimam uma ficção quase real dos primitivos, enquanto que as donzelas, peito para a frente, correm como dementes para as ervas altas.
Aos meus lados, um grande mar de algas come o fundo empapado de pó e esconde as barraquinhas com petiscos do céu, que eu não paro de as olhar. “Mata o cabrão!”, estremeço pelo súbito, desferido por uma voz grossa ao meu ouvido direito. Digo adeus ao fumegar dos deuses, com um pequeno desgosto a roçar nos lábios, e cravo o olhar no malvado. Este, de dedo a escarafunchar as aberturas do nariz e de balão proeminente, faz saltar palavras que não lembra ao diabo. Encarquilho uma fúria nas fuças e abro a boca para o colocar no respeito. Mas, pouco antes do som da minha voz rasgar o ar, o tipo arrota, “Aquele caralho nunca mais morre”, e toda a gente desata às gargalhadas malucas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Quando achamos que sabemos


Com impropérios para o ar e com cuspidelas para o chão de areia, minado por grandes crateras, o futebol arrota golos para a noite, que está despida de fantasmas.
Na bancada de madeira, os homens taciturnos olham os movimentos dos jogadores, bramindo um gemido surdo com algum lance mais perigoso, enquanto que as mulheres gritam uns agudos arrepiantes, por tudo e por nada, com bebés nos braços a dormirem um sossego. Coloco lenços de papel nos pobres dos meus ouvidos para não os ouvirem, em fugacidades desmedidas, e sorrio de prazer quando o silêncio beija-me a paz. E é com ele a seguir o meu olhar que, do lado oposto, um tipo vestido de preto corre como um maluco, fugindo dos paus da magote e das suas palavras, “Anda cá, ó gatuno”.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ler


Manhã Submersa é um romance de Vergílio Ferreira publicado em 1953.
O livro retrata o dia-a-dia da vida num seminário e será um pouco biográfico uma vez que o seu autor passou vários anos a estudar num seminário.
Foi adaptado ao cinema em
1980 num filme realizado por Lauro António: Manhã Submersa (filme).

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Simplesmente não te quero


No computador, o cursor estanca o último mistério da personagem principal, porque o cansaço apodera-se dos meus dedos. Sacudo o vermelhão dos olhos e, quando o bulício do frigorífico me beija o silêncio, vejo que o escritório engaiola a penumbra. E é por ela passear nestes limites, sem aviso prévio, que um bocejo salta do meu corpo esfomeado de descanso.
Já na cama, a respirar o calor que se evapora do tijolo das paredes, a minha vizinha do piso superior arremessa subitamente a afirmação, “Não te quero ver mais, seu palhaço. És pior do que um rato”, acendo a orelha, “Mas querida, eu perguntei aquilo para esclarecer as minhas dúvidas. Penso que não há necessidade de morder o exagero”, diz uma voz quase apagada, “E mais a mais, ficas a saber que eu tenho um amante”, “O quê?”, e adormeço quando o modernismo esbarra na minha compreensão.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Eterna indecisão


Num adeus pouco chorado, a marginal desprega-se do asfalto para cobrir-se com pernas carregadas de escuridão, que dançam a samba da sedução, enquanto que as gaivotas sobrevoam o infinito em ziguezagues muitos recortados, libertando de quando em quando a diarreia que um peixe podre lhe provocou. Que depois de um voo vertical, a massa pestilenta explode nas cabeças distraídas.
Os infelizes, a escorrerem a vergonha no corpo, esbracejam impropérios para os sorridentes voadores, como se fossem fantoches a digladiarem-se na guerra. Eu, com os glúteos sentados num banco pensado pelo Siza, gargarejo gargalhadas que nem o mais feliz, quase agarrado ao descuido de um tombo.
Por fim, tudo evapora-se, ficando a monotonia dos gestos a namorar o presente e os bramidos de um cigano, que tenta vender bugigangas que lançam bolinhas de sabão para o ar. Num deles, talvez no mais sentido dos berros, uma criança lambe com o olhar o plástico colorido, agarrando-se na borda do carrinho metálico e dizendo, “Mãe, quero um”. Os pais travam a velocidade alucinante dos passos e espreitam-no de soslaio, “Está bem, escolhe um”. O pequeno infante olha, olha e por fim, “É este”, “Boa escolha”, diz o cigano, que logo o agarra para o embrulhar, “Espere, deixe-me pensar melhor”, e a noite chega subitamente, com os pais a tremelicarem de frio e o cigano a ressonar um cansaço, quase junto ao meu ombro esquerdo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sinto que vos amo


E quando os dias são todos somados, em gestos de alentejanos ao sol, verifico que junto letras há um ano no recanto do meu blog, que sempre duvidei que ultrapassasse a vontade de um mês, talvez dois, porque o meu sentido de disciplina fora sempre o impulso da novidade, nada mais. Mas o bicho do amor mordeu-me nos dedos da mão direita, rasgando os ossos do ócio, com as suas mandíbulas invisíveis aos meus olhos.
Não o reconheço por entre as magotes dos seres que vejo nos microscópios do laboratório, e isso aflige-me, deturpa-me o sossego em actos tão repentinos, tão fugazes, que a morte súbita de um corpo nunca alcançará o mesmo movimento, uma vez que a minha educação obriga-me a brotar agradecimentos. Fico doente até que a demência apodera-se do meu cérebro, chorando por não o ver, como se eu fosse a fonte de um rio.
Mais tarde, com a cabeça esquecida do desgosto, pego no “Primo Basílio”, do Eça de Queiroz, pego na “Metamorfose”, de Franz Kafka e pego no “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, juntando todas as pessoas que me empurram para as letras, e agradeço-lhes por me mostrarem o caminho dos sorrisos, de joelhos a beijarem o sobrado do crepúsculo, murmurando, “Obrigado”.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

HOMENAGEM A ANTÓNIO FEIO


O actor António Feio morreu, no Hospital da Luz, em Lisboa, onde estava internado desde terça feira - "temos que sorrir"

Quando a toalha vermelha é mesmo vermelha


Para os dois pares de olhos, o problema com arestas, que lascam o jumento mais duro, não é mais do que uma tertúlia sem olhos, porque a verdade vive nas trevas dos interesses. É certo que os terceiros, esses seres imaturos que vivem a viva imaculada como se fossem rebentos sem pêlos, desembrulham-na para os ouvidos dos corjas, mas quem nasce sem princípios jamais lava a merda na fonte da esquina. E aquilo que parecia um simples desencontro, portanto, transforma-se na cegueira com defeitos, mesmo que aqueça toalha vermelha seja mesmo vermelha.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ler


Num ambiente rural onde a religião é uma âncora fundamental e a visão do pecado uma pesada herança do Estado Novo, "O Nosso Reino" começa como uma aventura terna e cândida, contada por uma criança obcecada pela diferença entre o bem e o mal…

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O crepúsculo das duas da manhã


Da varanda vejo a fronteira entre o céu e o inferno a colorir a noite com laranjas, amarelos e cinzentos muito escuros, que o incêndio brota da floresta aterrorizada. No prédio ao lado, na única janela aberta ao cinema, dois homens de tenra idade abraçam o êxito, “Finalmente mordemos a alegria”.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Praia com tudo


No areal centenário, a contar pelas palavras dos historiadores, os guarda-sóis crescem como cogumelos, assim que o presente se transforma em memórias verdes, a crescerem dentro dos observadores que olham o bulício festivo nas varandas de pedra, que polvilham a fronteira do natural com o construído. Antes do crepúsculo perfurar o horizonte azulado, quase, quase, de mãos entrelaçadas com a dança das ondas, empurradas pelas lufadas que mais parecem sinfonias das antigas, a conquista do areal atinge o esgotamento de um amor a percorrer as entranhas do medo. E com a proximidade da desilusão, que fará derreter as partículas de alegria nos rostos sardentos, os sovacos dos banhistas cospem cheiros pestilentos para as uvas do vizinho, que as come com delícia, ao lado de nádegas gordurosas a verterem umas flatulências acumuladas pela digestão da feijoada, que a personagem comeu ao almoço.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Para quem casou com a solidão


“Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor”, porque o infinito é uma bandeja que não mora nos possíveis. Todavia, quando um veemente pelo trabalho beija a sorte e lhe acaricia as lágrimas de júbilo, a sua altivez repugna os triviais com dentadas às coisas comuns, que tantos sorrisos lhes dão, como se fossem chicotes dos pais a rasgarem as ideias inovadoras dos filhos, sobre o negócio familiar. Na sequência desta vassourada, a mesa com bolos e velas, que formam palavras satisfeitas pelo resultado das horas envoltas na solidão, está taciturna e despegada de sentimentos, já que o amontoado das fotografias, com muitas caras a fitar o subjectivo, não compreendem a urgência e a necessidade do aplauso.
Dias depois, com o prémio a emoldurar uma parede caiada, o selvagem sobe o promontório, com passos muito certos e firmes. No cimo, os cabelos grisalhos saltam para a anarquia, desgrenhando-o agressivamente as ideias. Pouco depois, quando o dia passa a noite, o génio despido de convívio, a chorar, atira-se para a libertação, voando para as nuvens que lhe darão amor.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ler


Os Cus de Judas é um livro de António Lobo Antunes editado pela primeira vez em 1979. Retrata a experiência pessoal de Lobo Antunes como médico de campanha enviado para Angola na Guerra Colonial portuguesa. Ao longo do livro, o leitor que assume mesmo a dimensão de "interlocutora" do personagem principal, constata uma Angola degradada, em plena guerra colonial, esse "inacreditável absurdo da guerra". Muito mais do que uma opinião, a descrição do autor é a explosão de uma dura experiência, focando-se em vários pontos: as inúmeras baixas da guerra (desprezadas pelo Estado), os inocentes da vida (as pobres crianças de Angola e as miseráveis condições em que viviam), a distância de casa, a perda dos laços familiares, o medo da morte mas, sobretudo, a eterna incompreensão dessa guerra.


É o segundo livro do autor e valeu-lhe em 1987 um prémio da embaixada de França em Lisboa.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Reflexão

‎"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce", de Fernando Pessoa

quarta-feira, 21 de julho de 2010

“Saber ver a arquitectura”


Dentro da tarde, ainda a meio, o sol aquece a conversa que envolve paredes, janelas e as portas de uma habitação em construção. Para muitos, ela não passa de uma camisa que se compra numa qualquer loja, ao pé de uma esquina da cidade, como se o corpo e a mente fossem uma chatice que necessita de quatro paredes. Mas para este jovem casal, ainda a cheirar a tinta branca, todo o pormenor não é concluído sem uma conversa prévia que esmiúce o milímetro e, por vezes, o nada.
Já em casa, depois de concluídas as alterações no projecto, olha para a cidade que dorme. E ao fim de alguns momentos, que mais não foram do que instantes minutos, murmuro com um sorriso a mosquear a minha face enegrecida pelas sombras, “As casas deveriam ser carros com grandes cilindradas”.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A eloquência da língua esquisita


A esplanada está cheia de palavras diversas. Muitas delas não são mais do que desconhecimentos para os meus ouvidos, porque implicam uma língua com características muito específicas, muito peculiares, oriundas de pensamentos antagónicos à minha rua. E por isso, a elas, arregalo a minha coscuvilhice, desprendendo-me do tudo colorido que olha o céu de olhos fechados e que estende os membros como lagartos ao sol. Fico assim até surgirem eternidades, rodadas nos ponteiros do relógio que nunca se atrasa e nunca se adianta, estendido naquela parede com sombras, sem nada acrescentar ao nada ou ao vazio do conhecimento, conforme os apetites de cada um.
Com a cabeça cheia de palavras para colocar no romance que escrevo, esse texto com muitas palavras pintadas em papel morto – que já foi vivo, quando era uma árvore – abandono o que é dos outros e ergo a verticalidade. Aí, nesse profícuo à locomoção, despejo as moedas que pagam a despesa em cima do plástico, pintado num vermelho muito aguerrido, e depois viro-me com a eloquência de uma bailarina. Mas antes de iniciar os primeiros passos, os que falavam pelo esdrúxulo transformam a língua em algo que conheço. Viro-me, olho-os e vejo que são portugueses. Enfim, manias.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O churrasco com Portugas


Quando o calor aperta o domingo em horas que os olhos estão abertos, o parque de lazer defronte dos meus olhos, que estão a dois pisos de altura do pavimento asfáltico, descose a solidão acumulada durante a semana com os gemidos histéricos dos da cidade. Ladeados pelas brumas do churrasco, que saltam dos fogareiros com carne para regimentos esfomeados, os toncos nus passeiam a volúpia da gordura pelas ervas secas. Muitos deles, mesmo a esta distância, lançam cheiros pestilentos que se sobrepõem aos da comida aos da comida e me magoam a sensibilidade do nariz. Arrepio-me à brutalidade dos descuidos para, no momento seguinte, lançar-lhes salivas surdas, cobertas de impropérios. E depois fujo para um país mais limpo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ler


Morrem Mais de Mágoa, de Saul Bellow - Livros QuetzalKenneth


Kenneth Trachtenberg, o narrador de Morrem mais de Mágoa, é um especialista em literatura russa que abandona Paris, a sua cidade natal, para ir ao encontro do tio. Morrem mais de Mágoa tem o humor ágil da farsa francesa, mas são inseparáveis do seu enreedo tragicómico as análises engenhosas do autor sobre a vida moderna e o dilema de dois homens, cujos espíritos brilhantes não os salvam de Benn Crader, um botânico famoso. As muitas facetas da relação entre estas duas personagens inquietantes, irrequietas e excêntricas - ambas procurando no erotismo e num amor calmo, diverso das convulsões sexuais do século XX, resposta para a satisfação que os persegue - são o pretexto de uma narrativa cheia de humor e inteligência e sabedoria. Por que será que, quando surgem os problemas, as pessoas procuram em primeiro lugar o remédio sexual? Por que será que as pessoas inteligentes e dotadas se encontram invariavelmente atoladas numa miserável vida particular? Por que será que os sobredotados, os intuitivos, os que são capazes de ler no livro dos mistérios da Natureza, hão-de ser tão incautos e tolos?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Falta-me o gesto


As folhas acumulam-se no estirador. Já é uma espessura que faria inveja ao meu avô, que já não dorme a noite e já não vive o dia. E aquilo que parecia martelado em três pregos transforma-se numa infinidade de marteladas, necessárias ao suporte do enredo. Enfim, existem personagens que se agarram aos nossos dedos como sanguessugas, chorando que nem infantis os abandonos dos criadores. Mas a eternidade é apenas uma utopia para os dementes, que não vivem este território de caça. E como não o sou, em nenhuma parte do meu perímetro, a navalha que dá adeus encontra-se na minha mão. Agora falta-me a coragem para o gesto.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Como ódios


Aos domingos, durante a tarde, passo pela praça coberta de árvores e de pessoas sentadas na sombra de pedra, a conversarem muito alto as fofoquices das ruas.
Por vezes, quando menos espero, eles encostam-se no silêncio para contemplar um pensamento uníssono, que surge subitamente do nada. Estão assim durante momentos incontáveis, até que por fim todos inspiram a mesma vontade. E quando ela transborda dos ossos, surge o escarro amarelo para o chão, desferido pelo expiro do alívio. Que muitas vezes, levadas pelas lufadas do diabo, me pintam os sapatos de verniz.
Ainda lhes encarquilho impropérios cáusticos, com palavras grossas, mas as suas gargalhadas jocosas ao meu corpo obriga-me a comer ódios.

terça-feira, 13 de julho de 2010


T A M E R A

Campo Experimental para uma Nova CulturaUniversidade de Verão: 26 de Julho a 4 de Agosto

Seminário: 30 de Julho a 1 de Agosto

Dia Aberto: Sábado 31 de Julho


Universidade de Verão:Chegada dia 25 de Julho, saída dia 5 de AgostoThink Tank para o Trabalho pela Paz Global e Construção de ComunidadeConvidamos para um think tank sobre trabalho para a paz global e construção de comunidade. A Universidade de Verão 2010 será um local de encontro para aqueles que se recusam, mesmo em tempos difíceis, a perder a esperança e insistem em manter o seu poder visionário. Convidamos, sobretudo, jovens de todo o mundo, trabalhadores pela paz a juntarem-se a nós.
Um think tank de 10 dias com os seguintes temas:
 
Campo Experimental da Aldeia Solar: energia solar para a autonomia e sustentabilidade
.Paisagem aquática inspirada na Permacultura: cooperação com a Terra
.Movimento por uma Terra Livre: Perspectivas para um trabalho pela paz global.
Campus Global – iniciativa de educação a nível mundial para profissões que usam a Paz, a Arte e a cultura como elementos de resistência não-violenta
.Construção de comunidade, resolução de conflitos e verdade no amor como base para uma nova cultura.Línguas: Alemão/ Inglês/ Português/ Espanhol

Preço, incluindo alojamento e alimentação: (para participantes portugueses) €480 
Para Jovens (até 25 anos de idade): €


Seminário30 de Julho – 1 de AgostoConvidamos todos os que queiram conhecer Tamera pela primeira vez, tal como todos os que queiram aprofundar e renovar a sua experiência com Tamera.Durante a Universidade de Verão, reúnem-se em Tamera muitas pessoas e grupos da nossa rede internacional, trabalhadores pela paz de todo o Mundo.Este seminário de fim de semana é uma oportunidade de conhecer o trabalho ecológico de Tamera, e também o trabalho político internacional da comunidade.Participaremos no programa da Universidade de Verão, e teremos também espaços para perguntas para aprofundar os interesses individuais.Acompanhamento: Meike Müller e equipaLíngua: PortuguêsPreço, incluindo alojamento e alimentação: €50, pagamento à chegadaImprescindível trazer tenda própria!Início: 30 de Julho, 19h (jantar), fim: 1 de Agosto pelas 17hInscrições: office@tamera.org


Dia Aberto- Sábado, 31 de Julho Durante a Universidade de Verão, convidamos os nossos vizinhos, amigos e colaboradores para um dia aberto em Tamera.Programa9h: Chegada, inscrições10h: Palestra por Bernd Müller: Água é Vida11h: Espaço para perguntas13h: Almoço14.30h: Visitas guiadas: Paisagem Aquática de Permacultura e Campo Experimental da Aldeia Solar17h: Celebração no Campo Experimental da Aldeia SolarPalestra: “O que é uma vida sustentável?”Celebração com música e petiscos, com os nossos vizinhosA participação é gratuita, e agradecemos contribuições financeiras!


TameraCentro Internacional de Pesquisa pela Paz, AlentejoPara a cooperação com a Natureza, a Solidariedade entre as Pessoas e para um Futuro sem GuerraTamera, Monte do Cerro7630-392 Relíquias, Portugal

Tel: 283 635 306

Fax: 283 635 316


Quando o paraíso és tu


Sinto a noite fresca, arrebitada por bofetadas que o vento dá nas folhas das árvores. Em baixo, junto às pedras com musgo, apenas os meus passos, acompanhados pelos do meu pai, rompem a solidão dos inertes, porque a cidade está no sonho dos moribundos.
São da três da manhã e hoje o meu pai faz anos (é como se fosse um somatório constante que faz arrebitar qualquer cabeça grisalha). Mas ele está calmo, alheio à plantação de velas no bolo com creme de chocolate, que comemos em três dentadas não faz minutos, embora o brilhozinho dos olhos me indicam alguma tristeza.
“Pai, estás bem?”, lanço-lhe um sorriso, “Não podia estar melhor. Faço anos, tenho saúde e tu estás aqui”, não me olha, “E o resultado da soma?”, pára e eu paro de seguida. Olha-me com aqueles olhos de cor de mel, muito sedutores, e por fim, “Indica-me que subi mais um degrau, na aproximação da porta do choro. Contra isso não podemos lutar. E também não quereria, caso fosse possível, porque quem te tem, tem o paraíso”.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Quando os vizinhos são mais fortes


Arrumam-se as bandeiras e as vuvuzelas; chora-se a derrota e grita-se a vitória.
Na minha rua, talvez como noutras ruas, não há mais do que silêncio, sob as lufadas vindas do norte.