sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sugestão para o Arejo


Isto é uma aberração!


Pretende ser um espectáculo divertido do princípio ao fim.
“A peça de teatro é nada mais que um Grupo de Teatro com péssimos actores. Eles vão tentar entreter o público furioso que pagou para ver uma tragédia e não um desastre teatral. Cuidado com este público, porque é capaz de afinfar com as garrafas de água nas trombas dos actores! Como eles são forçados a compensar a sua falta de profissionalismo, vão tentar outra peça. Será que vão conseguir? Então paguem para ver!”



QUANDO: 31 Out 2009
ONDE: Clube Literário do Porto, Porto
HORAS: 21H30

O Hércules


Tento combater os impossíveis, todo o sempre.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Explicações Fugazes a Tudo


Todos sabemos proferir diabruras, como eloquentes cultivados, sobre todos os assuntos mundanos. Muitas vezes até ajudamos os especialistas a construírem razões para as afirmações. Sempre envoltos numa arrogância elevada e exagerada, como sabichões do outro mundo.
Porém, não passamos de uns iletrados, de umas pobres criaturas encaixadas na insensibilidade e no exagero, porque ainda não percebemos que “só sei que nada sei”.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Apenas um Gesto…


As palavras da rádio, proferidas hoje, relacionadas com um estudo efectuado, são claras e inquestionáveis – “em Portugal, cerca de 40.000 idosos passam fome…” – como o azul que banha o mar. No meio das lágrimas fúnebres, questiono-me sobre os genocídios praticados, neste Inverno de crocodilos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lucidez


Sinto o que tu não sentes, como verdades íntimas que se abraçam no rosto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Adaptar-mos


Da janela que olho, o céu adensa-se com fúria, sobre uma capa escura e terrível. Ao longe, raios súbitos projectam uma noite absoluta por entre ponteiros diurnos, como frases sem consenso.
Sorrio pela objectiva voltada para a verdade; sorrio em ver que a Natureza também se adapta.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Realidade Escondida


Comemos o mundo como se ele fosse infantil.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

“A Palavra Que Mais Gosto É Do Não”




Ainda me treme o corpo e a razão, ainda me treme o olhar. O caso não é para menos, embora sinta uma pontinha de admiração pelos meus tremeliques exagerados, uma vez que Penafiel e eu, e não só, fomos testemunhas da lucidez do mestre Saramago – dinossauro, como disseram muitos – mesmo embrulhado numa debilidade física aflitiva e chocante. Ao lado do seu “Caim”, o mais recente grito do “não”. Aquele não que surge sempre aliado às maiores certezas universais, como um acto “de levantar a pedra e espreitar para o oculto”. Indicando-nos que o caminho não é o de consumir as palavras espalhadas diariamente, que estão enroladas em interesses, mas de as questionar com “nãos”, as vezes que forem necessárias, até chegarmos a uma afirmação com valor, com orientação do eu.
Há pessoas assim, que navegam no pensamento com pensamento, envolvendo linguagem e crença, e as espalham em forma de tradição, como necessidades de mudança mundana. João Tordo, o vencedor do prémio Saramago desta última edição, esse tutor mundial, como discípulo, tem obrigatoriedade de lhe seguir as pegadas: abanando a civilização das malhas do conformismo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Todo o Saramago em Penafiel


À segunda edição, o Escritaria elege a obra de José Saramago como eixo central de um programa que, em 2008, homenageou Urbano Tavares Rodrigues. Até domingo, os itinerários saramaguianos cruzam-se em Penafiel.
Com a devida permissão da Azinhaga, terra natal do escritor, Penafiel vai converter-se, durante quatro dias, na localidade de Saramago por excelência. Não tropeçar em referências ao único Nobel da Literatura de língua portuguesa vai ser uma tarefa condenada ao insucesso, tão evidentes são as marcas da sua obra espalhadas por Penafiel.
Por isso, Manuel Andrade - administrador da Cão Menor, editora responsável pelo evento, a par da edilidade local - reconhece que o objectivo do festival passa por "contaminar a cidade com aforismos, frases soltas, referências históricas, cosmogonias literárias, imagens e obras plásticas que remetam para o peculiar universo de José Saramago".
Do ambicioso programa do Escritaria fazem parte não apenas os habituais colóquios, em que participam figuras como o cineasta brasileiro Fernando Meirelles, o arquitecto espanhol José Joaquín Parra e os escritores Laura Restrepo e Miguel Real, ou o lançamento mundial do novo romance do autor, "Caim", mas também iniciativas que visam aproximar a comunidade local do autor.
Os exemplos deste esforço de dessacralização são tão abundantes que o palco mais frequente das iniciativas não é nenhum auditório, mas sim as ruas e praças penafidelenses. Além de frases do autor pintadas na estrada e de cartazes em forma de 'post-it' contendo frases emblemáticas da sua obra, o Escritaria vai apresentar insólitos "bancos que narram", em que, graças a dispositivos sonoros, vulgares assentos vão reproduzir gravações de excertos saramaguianos.
O cenário não fica completo sem instalações que se prevêem igualmente marcantes, como as "Caixas de leitura", que podem ser recolhidas e até levadas para casa pelos transeuntes, ou a designada "Avenida em obras". Nesta artéria literária, situada na Avenida Sacadura Cabral, "cada romance de Saramago dá origem a uma instalação que contém informação e ilustrações", explica a organização.
Quem se deslocar à cidade duriense até domingo, pode ainda ser surpreendido com Blimunda de Jesus, Ricardo Reis, Jesus Cristo ou Tertuliano Máximo Afonso a passearem tranquilamente pelas ruas, como resultado do projecto "Cidade das personagens", desenvolvido por arquitectos nascidos na década de 70.


notícia do Jornal Notícias - 14/10/09

O Aplauso


Um aplauso para quem não consegue sorrir! Vamos lá, todos. Um, dois e… Sim, um aplauso, um verdadeiro aplauso! Um, dois… bolas, não fique assim, não enrugue as sobranceiras nem me olhe assim, como se fosse uma trituradora. Já lhe disse, temos que aplaudir, sim senhor, quem nasceu – ou veio a estar – de costas voltadas às respiros felizes da vida, por factores alheios às nossas verdades. É um simples aplauso, um apenas, mas com sentimento, com convicção, com alma. Vamos lá. Não se esqueçam, o nosso gesto poderá apagar-lhes o negrume taciturno, nem que seja por momentos. E isso já é uma conquista do mundo. Vamos lá, um, dois e três…isso, muito bem. Grande aplauso.
Já a caminho de casa, a um bom par de distância do antigo acontecimento, uma ideia de utopia perfura-me a visão. Paro e esfrego os olhos. Ela permanece, mas agora alicerçada com uma pergunta: “Todos aplaudiram com convicção?”

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Monólogos da Vagina de Eve Ensler


Em 2009, "Os Monólogos da Vagina" estão de volta numa nova encenação de Isabel Medina, com Guida Maria, São José Correia e Ana Brito e Cunha a partilhar estas histórias ao mesmo tempo comoventes e divertidas.

Teatro 6 e 7 de Novembro, sexta e Sábado, 21h30 Grande Auditório. Entrada: 12 euros

M/16Duração 90 m.

Escrita em 1996 por Eve Ensler, "Os Monólogos da Vagina" é uma peça de sucesso mundial, com apresentações em mais de 119 países e traduzida em mais de 45 línguas. Com um título propositadamente irreverente, a peça pretende chamar a atenção para assuntos tão particulares como a violação, a menstruação, a mutilação, o prazer, as infidelidades conjugais ou as terapias de grupo.Já protagonizada por actrizes como Jane Fonda, Whoopi Goldberg, Susan Sarandon, Oprah Winfrey ou Meryl Streep, estreou com grande sucesso em Portugal em Outubro de 2000 com interpretação de Guida Maria.

Casa das Artes - Vila Nova de Famalicão

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Concerto Divino


A sala estava cheia de olhares ansiosos pelo início dos acordes serenos e esplêndidos, que remexem os sentimentos alojados numa concavidade escura, nas profundezas do inexplicável, provenientes das mãos da diva e dos três músicos de luxo que a acompanham. Sempre com o burburinho das eleições autárquicas a borrifar o ar.
Ao meu lado, uma cadeira vazia suspira Memórias de Elefante (desculpe o plágio, Sr. António Lobo Antunes), banhada nas mais profundas tristezas, que me comoveu. Fiz um gesto ligeiro para a reconfortar, mas, sem saber como, trespassei as brumas da ilusão e vi-a a voar. Voamos, como dois velhos conhecidos, como dois amigos íntimos, até às incertezas da geografia.
“Desculpe, está ocupada?”, reviro os olhos e relembro-me. “Não, não, pode sentar-se”.
Aplausos. O concerto começou.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Criador de Morte


Dentro do corpo velho que suspira terrivelmente nas ruas lamacentas, as horas passam como cortes de navalhas pelo silêncio do telefone. Das brechas, ainda impregnadas pelo cheiro da lâmina, corre um manancial de nostalgias: de imagens a preto, carregadas de abraços a uma mulher macia e lasciva e de paisagens deslumbrantes, associadas ao Douro. Solta-se um aguaceiro de sentimentos pelo passeio pavoroso, escondido pela sombra do chapéu enterrado na nuca. E as horas, persistentes, ausentes das construções dos suicídios, florescem a cada sessenta minutos. E o telefone sempre vazio de vozes ou de palavras que o amarrem aos respiros na terra.
Num dos limites da cidade, o precipício do silêncio sente-o no aconchego da sua cama.
O telefone sempre vazio.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mecanismos/In Tensões


“O discurso do amor é, normalmente, um envelope liso colado à Imagem, uma luva macia que rodeia o ser amado” (Roland Barthes). Essa pulsação primitiva, que celebra o movimento dos corpos é o ponto de partida do espectáculo de Joana Providência In-Tensões, cuja coreografia impele ao movimento Amoroso, atópico por excelência: o da perda agónica, da exuberância da espera em volúpia, enfim, da escravidão dos sentidos: o louco de amor. Esta alegoria do desejo em que cada gesto é já palavra e discurso, reveste os corpos de um latejar único, simples, que corta em consciência o discurso frenético do dia a dia, pois mesmo aqui não sublima. É único. “Eis o que eu sou: É o prazer narrativo que (…) enche e atrasa o saber (…) No encontro de amor, salto sem cessar, sou ligeiro” (Ibidem)


Data: 17-10-2009
Horário: 21h30
Local: Teatro Municipal - Vila Do Conde

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Sufrágio às Palavras Parte 2


A qualquer hora e em qualquer local um cardume eufórico, com bandeiras desfraldadas, surgem de todas as esquinas, gritando futuros renovados.
A ver vamos, meus senhores, a ver vamos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ideia Simples


As palavras são meros encargos de consciência

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Feira do Livro Manuseado


Está aberto ao público a mais recente edição da Feira do Livro Manuseado promovida pela Assírio & Alvim. Trata-se, na sua maior parte, de livros com ligeiras imperfeições e por isso vendidos a preços baixos.

Mas desta vez haverá também livros esgotados, fora do mercado, cartazes da editora e postais.


detalhes: Livraria Assírio & Alvim,

Lisboa

até 31 Outubro

2ª a Sábado, 10h-19h

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Futuro


E eis que a garrafa de champanhe explode de alegria pelos resultados obtidos. E eis que os olhares taciturnos rasgam o sossego pela derrota.
Na rua, cabeças desproporcionadas deambulam aos saltinhos e aos gritinhos, com bandeiras desfraldadas ao vento. Ladeadas por rectângulos coloridos que silvam ensurdecedora mente por uma vitória pessoal, por uma vitória pelo progresso, como se as suas vidas dependessem da cruz vitoriosa.
Como sempre, e após a queda do limbo neutral, o tempo será o amigo da verdade…

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Sufrágio às Palavras


Queimam-se as últimas palavras de arromba nos comícios repletos de cabeças de todas as formas, de todas as cores; queimam-se os últimos cartuchos na eloquência e nos sorrisos dos encontros fugazes espalhados pelo país. Sempre, sob uma luz intensa vinda do negrume dos bastidores e sobre o trabalho de profissionais competentes, engaiolados em quatro paredes, com o café a escorrer-lhes constantemente pela goela.
E os flashes, as câmaras e as perguntas sempre presentes, demasiado próximos dos odores, sempre interessadas numa crítica, numa arrogância, num deslize, em algo de polémico para agitar o mundo, para o prender à resposta de uma voz ou para se rir com o dedo apontado, porque ele vive à sombra das frases certas e constantes dos dias.
No meio desta barafunda, destas palavras borrifadas pela emoção, o povo amarrar-se-á às verdades, e nunca às utopias, e votará com consciência.
Viva à democracia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Quarto 108


A acção passa-se num quarto de hospital – o “Quarto 108” - onde um homem de 40 anos vai passar pela experiência de ser confrontado com a notícia de uma possível doença grave.Como se a situação não fosse já de si melindrosa e aflitiva, ele vai ter dividir o quarto com outro paciente mais velho, hipocondríaco e mexeriqueiro que vive na angústia de ter “alta”.Este confronto vai ser arbitrado por uma jovem enfermeira que se esforça por aturar e confortar estes dois pacientes tão diferentes um do outro e que, com ternura e profissionalismo consegue atenuar as carências e angústias de um, e a solidão e velhice do outro. O ser humano tem por vezes dificuldade em aceitar os diferentes destinos a que a sua condição o obriga. Um quarto de hospital não será o melhor local para partilhar conhecimentos e sentimentos, mas neste “Quarto 108” Gérald Aubert consegue falar da solidão e da doença com um humor bastante lúcido, levando estes dois homens a aprender a ser felizes e a ganhar, de novo, o gosto pela vida.


Na Casa das Artes - Vila Nova de Famalicão

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Indicadores dos Inícios


A noite estava coberta por um perfume tépido; desgovernado perante a longevidade da estação quente. O vento era apenas uma miragem, uma bruma coberta de sonho. E na rua, os contornos dos transeuntes, torneados pelo ginásio, deambulavam despidos pelos passeios, de sorrisos largos estampados nos rostos, como se fossem íntimos do calor ternurento borrifado pela felicidade.
Na mesma proporção, rodeado de um velho hábito português, chegava ao pequeno adro do Cine-Teatro de Vila do Conde atrasado para o concerto, enrolado em partículas de transpiração. O meu companheiro, velho amigo, era uma figura decadente, um derrotado pelo esforço, com um respirar diabólico. Muito próximo de um eclipse vivencial. Sim, é verdade, não poderei evoluir com a omissão, eu também não estava em melhores condições.
Mas, por entre sinfonias aflitas, o meu olhar desgarrava a aflição e, de sobranceiras agudas, dirigia-o para o murmurinho que evoluía na atmosfera, como a fumaça de um cigarro. E, como uma câmara pachorrenta, a magote surgia sob o véu, unida e concentrada às palavras.
O estranho estranha-se fundo, bem fundo, e surge a dúvida pela minha certeza. Olho para o relógio, gosto das certezas, e verifico que as verdades dos cartazes são meros indicadores dos inícios.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Romance que escrevo e que ainda não tem título


O crepúsculo, situado no infinito do horizonte, finda num adeus fugaz. A noite nasce num breve respiro. A este gesto repetido da natureza, como capelões vestidos de mágicos, assisto sempre maravilhado da varanda do meu apartamento, a três pisos de altura do pavimento asfáltico. E penso, numa voz surda, que não há nada mais belo do que sentir e abraçar o arrepio deste movimento. Mas a minha tristeza cresce, pois o tempo não tem tempo, e tudo acaba rapidamente. A noite cai. Com ela, surgem do nada, do vazio, por toda a parte, nesta escuridão mórbida que nos embala, pontinhos brancos que apenas nos sonhos molhados pelo suor os consigo ladear. A par, candeeiros públicos, presos nas fachadas dos prédios, acendem-se, iluminando os caminhos dos transeuntes. É nesta altura, mesclados pelas luzes, sombras recortadas pelos objectos, como espelhos fiéis, polvilham a cidade, colorindo-a com uma solidão enfraquecida. Ao vê-la, recordo-me da distância que nos afasta desmesuradamente, através de um agasalho nostálgico que me acaricia a memória. Pelo facto, um deslizar singelo dos lábios e um encolher minuciosos dos olhos, iluminam a chegada de uma lágrima, numa reentrância criada especificadamente para o aparecimento das sensações. Mas outras gotas, com simbologia idêntica, surgem umas atrás das outras, como rios culturais que invadem uma aldeia salpicada por montanhas. E o meu regaço enche-se de sentimentos feridos, presos a uma reminiscência passageira. Por momentos, o chão desaparece e o frio da queda violenta incorpora-se no meu corpo. Pouco depois, como se de um nada se tratasse, volto à noite. Na rua, a luz artificial paira de forma ténue e constante; as sombras tácitas e imóveis permanecem pintadas nas construções do homem. Na rua, nenhum movimento. Aqui, nenhuma palavra.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Os Gestos


Cercada por uma bruma amarelecida, a alvorada cresce amorfa e fria, no término de uma linha distante e intocável. E o azul do céu dissolve-se nos braços coloridos, desferidos pelo seu crescimento, e na cidade sombras fantasmagóricas diminuem a sua elasticidade, projectadas nos edifícios e nas árvores, como sonhos de vampiros a recolherem aos aposentos almofadados.
Entretanto, os gritos dos despertadores estremecem com o silêncio imaculado. Deles surgem outros ainda mais agudos, ainda mais pesarosos. Mas o relógio escorrega para o próximo número e o eventual atraso encrava-se na verdade como verdade. “Não posso, tenho que ir”, pressente-se na trovoada das afirmações que ecoam no vento.
Pouco depois, já a alvorada vive a adolescência na plenitude, as formigas proliferam em cada esquina, em cada pedaço de circulação e a cidade vive mais a palavra.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As Palavras da Discórdia


A cidade dorme num único sono. Silêncio sobrevoa as colinas salpicadas de prédios velhos e infelizes, por não sentirem o aconchego da ternura de uma obra no lombo. Apenas os meus passos dão esperança de vida ao nada, caso ele esteja por aí a seguir-me. Por vezes, sinto-o próximo, quase que me toca, mas, no último movimento de aproximação, no derradeiro momento final, desiste sempre e esconde o pudor num gaveto próximo. Sorrio pelo gesto, sorrio pela atrapalhação juvenil, sem deixar que um pé avance sobre o outro, nas margens seguras de um noctívago.
Entretanto, a praça do município, esse belo local florido por inúmeros nomes exóticos de flores, surge-me lentamente na retina, como uma suculenta iguaria transmontana. E próximo da nudez completa, ainda às voltas com a volúpia, arregalo o olhar com as palavras gigantescas, de cores diversas, empoleiradas por duas estacas robustas de ferro, que conquistam e destroem todo o espaço.
Aproximo-me devastado e agastado por entre o sangue liberto da paisagem. Deixo descair uma dor pela face envelhecida e sento-me no banco de pedra, perto da estátua. E uma tempestade brusca visita-me pelo interior, e eu abandono a felicidade.
Pouco depois, um barulho tépido liberta-me da insolência muda. Procuro-a e encontro, na retaguarda dos meus quadris, uma planta moribunda a tossicar. Fito-a e pergunto-lhe se quer ajuda. Numa voz presa à morte, responde-me que perdeu a guerra para os candidatos às eleições, e que já não há nada a fazer.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Imagem que Nunca me Sai


As ideias da frase são interrompidas pelo movimento pacato da folha a deslocar, exercido pela mão envelhecida que me pertence. E o desencaixe do momento faz-me conviver com o branco tépido e misterioso que me surge na visão. Envolvo-me em carícias com ele e, pouco depois, de mãos dadas, fugimos para o contorno do teu corpo, com paragem prolongada nos teus ouvidos, a fim de sussurrarmos os nossos sentimentos ardentes pelo teu coração.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Gaguez


As palavras inacabadas surgem sempre quando me lembro ou quando palro com amigos da cidade que visitei não faz dias. É certo que a memória ainda contém as imagens límpidas como de um filme, e daí o encravamento do discurso, mas a sua enorme qualidade cultural, em todos os parâmetros associados, espalhada por todo o território, com princípios na idade média, antevê uma gaguez eterna.
Já estou a ver o futuro, parece que a televisão está ligada, as pessoas a baterem-me nas costas, a abanarem-me, ou, no caso extremo, a reanimarem-me a minha velhice, porque acham que estou a colocar as mãos no desconhecido cedo de mais, e os curiosos encostados ao acontecimento, de braços dados à especulação infinita, a vociferarem que sou louco e que fugi do hospício tal. E eu, com as bochechas encarnadas, quase a explodirem, a enraivecer por não me sair palavras de esclarecimento para toda aquela malta, ela sim, maluca.
Por fim, removida a espinha por artes mágicas, no meio do cansaço, digo que “o cheiro da arte imobiliza-me os sentidos que vos contacto” e da multidão paralisada surge uma voz enrouquecida, “estão a ver, ele é louco”.

O Namoro Com as Ondas


É incerto a intensidade e a direcção do vento, é incerto a visibilidade do céu coberto a cor azul, ligeiramente desbotada pela velhice, é incerto a trovoada a barrar ao de leve os próximos dias esperados até ao sonho, mas é certo que o meu olhar namore as ondas sonolentas do mar, sentado num dos muitos bancos de pedra, salpicados na marginal da cidade que está conquistada pelas vozes fugidas à prisão do quotidiano, porque o meu casamento com a felicidade das palavras assim o exige.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

"As Palavras são Armas que nos Matam"


Tento fingir, mas bloqueio no primeiro movimento da mentira. Estranho-me, olho-me como se faltasse alguma coisa no corpo ou como se tivesse a olhar para um estranho, demasiado defeituoso para ser possível a sua existência, e pergunto-me “porque não consigo entrar na sala dos habituais cânones?”. Volto a tentar, mas a mesma barreira surge-me como resposta.
Hoje precisava de mentir e de não transparecer a minha verdade; hoje a minha voz deveria seguir os trilhos enviesados da precisão. Apenas hoje, apenas um dia, o suficiente para abrir o sucesso infinito.
Na reunião, à hora marcada, transformo o meu sentimento em palavras. E os indivíduos taciturnos, sentados defronte, ouvem-me com o despego visível. Continuo e finjo que não os percebo.
Por fim, deixo-me descair para a cadeira e arrumo os meus papéis. Estou vazio, não tenho mais nada a dizer.
Silêncio na sala, por entre as palavras proferidas pelos olhares dos indivíduos. Pouco depois, desfazem a algazarra e olham-me de olhos desfigurados. E nesse estado tresloucado enviam-me as seguintes palavras: “as palavras são armas que nos matam”.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Praça dos Desencantos


A praça está repleta de presenças humanas, estendidas pelos bancos envernizados há dias. Palram diabolicamente sobre nadas, sorrindo e gesticulando muito, como fantoches descosidos. Ao lado, os miúdos histéricos deambulam por entre loucuras.
Eu, taciturno, aprecio os movimentos que se desenrolam, sem palavras a correrem-me no silêncio dos pensamentos, fitando-os de alto a baixo.
De súbito, um casal de idade próxima da extinção aproxima-se, acorrentados ao ombro do outro. Trazem o luto vestido, provavelmente de um cordeiro amigo ou familiar, mas os rostos transparecem uma alegria tímida. Alguns passos mais param e arquejam pelo desgaste dos movimentos. Estão exaustos.
Todas as palavras continuam a vaguear na indiferença dos contextos alheios, continuam fechadas ao abraço do vizinho. E nem os apelos mudos dos olhares os movem para a vitória social. Levanto-me, aproximo-me e, junto deles, de braço dado, levo-os ao paraíso dos beijos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sentimentos Imaculados


A verdade da nostalgia situa-se apenas no choro das reminiscências, inundadas de diversos sentimentos imaculados. Mas a sua presença apenas comanda o meu corpo quando alguém nos bate nas costas e nos dizem “olá” ou “olha ele”, com um sorriso estampado no rosto e de braços abertos para um abraço à memória. E com ela, uma ligeireza tristeza, pelas longínquas acções repletas de jovialidade, faz-me escorregar uma gota de sabor a adeus.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A noite


A noite absorve o crepúsculo junto do infinito, num ritual diário. E com a conquista do último bastião do dia, as trevas conquistam o trono do poder.
É neste ambiente anárquico dos transeuntes, onde a escuridão esconde os gestos punidos por cânones, que as palavras me despontam violentamente das mãos, com ideias fortificadas de genialidade. O único problema, e terrível, é a insuficiência do papel.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Silêncio


Sentado defronte da janela vejo a presença do sol a espraiar pela cidade adormecida nas férias. É um momento raro por estes dias, já que a presença das nuvens pardacentas têm sido uma constante. O que para esta época do ano é de estranhar. Ou talvez não, se associarmos o negrume aos movimentos do meu bolso, provavelmente ao teu, provavelmente extensivo aos vossos.
E a cidade, no meio das memórias e das sombras, brota lentamente um perfume de saudade. Onde está a vivacidade dos movimentos humanos?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Discurso do Adeus


O silêncio das palavras está para breve. É um momento esperado – uma pressão que a suporto há meses. Não a deixei que me prejudicasse nos meus movimentos, pois tenho força de espírito para me libertar das algemas. Mas os seus resíduos estão ali, juntinhos ao meu peito, entranhados numa das válvulas do meu coração. Não os posso negar nem os confundir com outras partículas. Estão ali, a respirar o mesmo oxigénio que respiro. Os meus gestos, o meu percurso de sempre, alheios a eles. E o silêncio das palavras tão perto do meu abraço. Falta pouco, muito pouco, apenas uma semana para o adeus do quotidiano, uma semana para o voar das férias.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Palavras soltas por ideias nefastas



Mordo-me por causa dos pormenores indiscretos que apenas são visíveis pelos meus olhos alheios às palavas moribundas.

E aqui estou para não acabar devorado pela minha raiva.