sexta-feira, 4 de março de 2011

Sugestão


Elisa e Alexandre conhecem-se num fim de semana no Caramulo. São ambos jovens, pertencem a círculos diferentes, veem o mundo de perspetivas quase sempre opostas - e, no entanto, parecem incapazes de escapar à atração que lentamente os envolve. Com avanços e recuos, iniciam então uma relação que não entendem e que questionam. Mas que os marcará para sempre.

Elisa tem medo da lua e de janelas sem cortinas. Pensa de mais e quer entender o mundo nas suas múltiplas facetas. Alexandre, pelo contrário, avança sem grandes reflexões, preocupado em aproveitar cada momento do presente antes que as responsabilidades o amarrem.

Romance de iniciação à idade adulta, O Passado Que Seremos dá-nos o(s) retrato(s) de uma geração e dos caminhos onde procura encontrar a "sua" verdade.

terça-feira, 1 de março de 2011

Peditório


Coloco os gemidos da garganta na banheira, enquanto repouso o cansaço sobre as peças sanitárias. Quase no mesmo instante, um vendaval de berros sacode a noite. Encarquilho a admiração e atiro-me para a janela, “Cala-te, rufia”, diz uma mulher para um miúdo demente, “Quero o carrinho, quero o carrinho”, “Já tens o quarto cheio de carrinhos”, “Quero o carrinho, quero o carrinho”, e o silêncio é apenas uma memória muito velha, “Cala-te”, insiste a incauta, “Caluda, quero descansar”, aparece subitamente uma voz, “Dá-lhe a merda do carro”, “Tem razão. É o que vou fazer”, “Amanhã será um carrão”, murmuro com suavidade, fechando a janela.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Caçadores de tempestade


Com os olhos mergulhados nas correntes d’ escritas, entro no ritmo do passado. Não existe nenhuma vírgula a mais ou a menos nos meus movimentos, porque tudo se resume ao mesmo nada e porque o nada nunca vê novos horizontes. Porém, o fim dos “caçadores de tempestade” traz-me o isco com sabor a morango, que o lanço suavemente para as trevas, como se tentasse pescar a palavra exacta. Por vezes pesco uma enguia, e com ela surge um turbilhão de ideias; por vezes pesco uma bota sem sola, que destrói o pensamento eloquente.
E é com as estas premissas que o vento me leva para a meta.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Correntes d' escrita


As malas ainda não estão empanturradas de roupa e de livros, mas já sentem a ansiedade de voarem para a Póvoa de Varzim. E eu também. Porém, as próximas horas servirão para arrumar papéis e despachar ideias, como se usasse a tempestade para desarrumar a mesa, "Falta pouco", diz-me alguém. Alargo os cantos da boca até às pontas das orelhas, "Já sinto o mar a bater nas páginas", "Ninguém te vai ver os dedos até sábado", o franzino senta-se e olha-me, "É verdade. Preciso de pensar no fim dos Caçadores de Tempestade, enquanto mergulho nas tertúlias", "Força nisso", levanta-se e desaparece.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ideia simples

AS PALAVRAS SÃO MEROS ENCARGOS DE CONSCIÊNCIA

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O desconhecido


Estou com o corpo a baloiçar num centro comercial. Sinto-me estranho por isso, esquisito, com falta de ar, mas a obrigação leva-nos a cometer destas loucuras. Mas quando a preça de restauração se apresenta às minhas iris, alargo o beiço e os olhos, porque um sorriso namora com o meu rosto, "Senhor, ó senhor, diga-me uma coisa", e vejo um catraio a puxar-me o casaco, "Ó rufia ainda me vais estragar a preciosidade", e sigo para a cafetaria. O desconhecido persegue-me à distância, com as ventas a dançarem uma aflição, "Porque me segues?", pergunto-lhe subitamente, de dedo indicador direito em riste, "Já foi visitar algum país estrangeiro?", "Já, porquê?", "Não me queres contar como foi?", "E qual é o interesse?", "Se me contares com pormenores, é como se estivesse a visitá-lo", e arregalo a admiração.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Bom dia


Todos os dias, antes de entrar nas paredes do trabalho vejo um desconhecido com a cara desfigurada. Não sei os motivos da deformação, mas espanto-me por o ver sempre a sorrir, dentro da sisudez do burgo, "Tenha um bom dia, menino", e diz-me, assim que os meus ombros roçam nos dele, "Irei ter com certeza. Desejo-lhe o mesmo", e olho de soslaio para as costas da felicidade, que me ensina a amar o dia.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A idade do fim


Não há agora dia que não apareça um velhinho estendido num canto qualquer, com as moscas varejas a digladiarem-se pela posse da carcaça, como se fossem abutres do deserto. A família, essa casta do diabo, quando lhe cheira a herança, aparece a vociferar direitos e a resmungar com veemência para a memória velha, uma vez que não os avisou das dores que sentia. Porém, no mesmo instante em que as câmaras desligam a luz do directo, "Maria, vai ao quarto e traz as jóias, enquanto entretenho os jornalistas", "E o corpo?", "Quero lá saber do velho ranhoso. Nunca nos ajudou a pagar as contas", "É verdade, é verdade", e desaparece, abanando os quadris como uma fufa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ementa que não deve escolher


Daqui a algumas horas, a noite vai cair. E com ela, o amor irá percorrer as brumas da memória e irá vociferar sentimentos imaculados, "Que querido, és tão simpático!", "É verdade, és o berço que me sustém na vida", de mãos entrelaçadas com a felicidade. Porém, quando os pratos com comida repousarem na toalha, ela irá conversar com as batatas fritas e ele com o bife, esquecendo-se que estão a construir pequenos divórcios.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Telefone


O mar azul serpenteia palavras com conteúdo, que dão corpo ao romance da minha cosnciência. A luz do fim ofusca-me o discernimento, mas uso as armas dos obstinados para navegar até às margens do paraíso. Porém, sem que nada fizesse esperar, desperto do meu mundo e ouço guinchos de um aflito. Atiro o corpo para a janela e subo violentamente a persiana. E quando ela embate na padieira, coloco a ansiedade na cidade e vejo um miúdo sob um carro. Alargo os olhos e corro para o desespero, "Vamos-te ajudar. Tem calma", esticamos os braços, mordemos as línguas e içamos a máquina da mania, "Não viu o rapaz?", "Estava ao telefone", e alguém lhe deu um murro.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Enfim


Nos erros urbanísticos da periferia, dois corpos mastigam o silêncio da praça. Estão com as mãos entrelaçadas, mas não existe indícios de amor nos lábios. Olham para o empedrado e para as fachadas taciturnas que se queimam ao sol, sem trocarem palavras ou cânticos que fariam conhecer e fortificar as margens da união, "Vamos embora?", levantam-se e caminham em direcções opostas, assim que o crepúsculo abana a cabeça com reprovação.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Silêncio na voz


Arrasto a parede de vidro para o encaixe e salto para a varanda, onde uma lufada tratante me acaricia o cansaço. Olho para a cidade, que se borrifa de luzinhas de várias cores, e penso no mar de omissões que aquelas paredes dizem às outras; e penso que não há nada mais belo do que ter silêncio na voz.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Inveja


A tarde repousa o cansaço numa nuvem pardacenta, que baloiça o medo no horizonte. No empedrado, o sossego é ensurdecedor, pois os transeuntes são apenas memórias. Pouco depois, viro à direita e subo uma rua estreita e cheia de sombras, que me leva até ao parque da cidade. E quando piso a relva fofa, vejo um cãozinho a mastigar um osso sobre o contentor do lixo. Encarquilho a emoção junto ao coração, mas antes de mover a vontade, um carro embate com violência no plástico, que o faz voar por entre as árvores, "Matei a bola de pulgas?", pergunta-me um bojudo da janela do veículo, "Era esse o objectivo?", "Claro, não gosto que me façam inveja", e alargo o olhar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ler


NADJA

André Breton - Editorial Estampa


Nadja, publicado originalmente em França em 1928, é o primeiro e talvezo melhor romance surrealista alguma vez escrito, um livro que define a atitude do movimento perante o quotidiano.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sugestão para o arejo


CLUBE LITERÁRIO DO PORTO
sábado, 17h
Debate "Os 50 anos de bloqueio e a luta do povo Cubano em defesa da Rebolução

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bolsos


Na praça que mora o ditador, os nervos da magote evaporam-se com terror, formando longas nuvens sobre os prédios, "Canalha, vigarista", "Tenho aqui uma faca para ti, seu corja", mas da varanda presidencial o silêncio acena-nos com desprezo. Porém, quando o crepúsculo pinta o céu com sangue, o grande senhor abre as portas do púlpito, "Não gosto do que vejo, povo. E por isso, vou aplicar mais impostos sobre vós", e os pardais esvoaçam aflitos, "Meninos birrentos, vão para casa. Desapareçam", e desaparecemos, com os olhos nos bolsos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A aula


A tempestade desgrenha os longos cabelos da professora, que abre a porta da aula assistida. Passou semanas a cheirar documentos, um pouco por todo o lado. Está preparada, mas está com receio que as palavras se engasguem numa gagauez súbita ou que os alunos suspirem perguntas irónicas. A compainha, uma hora depois, empurra os alunos para as travessuras, enquanto a professora pinta as paredes com tristeza, "Os nervos morderam-me a ciência", e chora com uma desalmada.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Diferença


A noite abre a porta do castelo. A manhã penetra-lhe com vivacidade até conquistar o púlpito do dia, que não veste fatos brancos. E com ela a desferir luz para a cidade, a marginal enche-se de pernas a deambularem, "Hoje, o mar e o céu esconderam o horizonte", atira um idoso, que abraça uma idosa, "Mas o nosso amor nunca se esconde", e beijam-se apaixonadamente, enquanto um casal de namorados juvenis esbracejam entre eles longos impropérios.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ler


Gustavo podia fazer um pequeno catálogo de mulheres que tinha tido, mas outro ainda maior das que o tinham rejeitado, conseguia ser uma alma compassiva e comovida, mas não era capaz de perdoar as rejeições acumuladas ao longo da vida. A ligação com Maria alfreda percorrera toda a escala de sofrimentos e vexames, num desgaste constante, que o havia esgotado, para corresponder às suas paradas e evitar sentir-se diminuído ao lado dela. Partilharam momesntos de amor, de raiva, de luta, de ironia, de crueldade, de arrebatamento e regelo naquela sala de tons de magenta, num conchego alcatifado, a um tempo tranquilizador e abafadico.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Homenagem


Faz hoje 110 anos que o compositor italiano, Giuseppe Verdi (1813-1901), morreu. O deus de todos os deuses. Ouçam: "La Traviata", "Aida", "Othelo", "Nabucco"...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Para ti


Mergulho o desespero nas árvores, que se amontoam sobre a mesa de mogno, quando o telefone móvel me arremessa uma mensagem, "A Catarina, linda como a mamã Eduarda, já nasceu", alargo o céu azul e abraço a felicidade, "O rebento é um amor que beija os coiotes babados. Mas é o prelúdio das insónias, porque a noite é um abismo sem fim", penso, ao mesmo tempo que uma pequena lágrima atira-se para o meu vale direito, "Já há fumo branco, pessoal", e a laje não aguenta com o gáudio.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um simples gesto


Uma parte do mundo corre na mesma proporção que o meu carro desliza no asfalto retalhado, como se os cabelos grisalhos fugissem do meu perímetro. Despois da ponte, travo a vontade e viro para a direita. Junto a essa esquina, mãe e filho abraçam-se com intimidade, "Boa tarde, Maria, está tudo bem?", "Como sou a mulher mais feliz do mundo, estou nas nuvens", e olha para o José, que é franzino e tímido, "Continuem aos beijos", sorrio e avanço o atraso.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Os copos de tinto


A tarde está fria. Muito fria. Os miúdos, com os narizes a pingar viscosidades, correm e dão pontapés na bola sem cor. Ao lado deles, a magote abraçada a muita roupa escarra pensamentos iletrados sobre as eleições, "Vai ganhar, é certo", "Não sei, tenho as minhas dúvidas", "Olha que vai", "Olha que não", "Olha que vai", o bojudo no meio dos franzinos despenteia os nervos, "Deixem-se de paródias, caros companheiros. E vamos beijar os copos de tinto", e saliva para o chão.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sugestão


O HOMEM ELEFANTE
teatro - tnsj - 20 a 30 de janeiro

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ler


Este romance baseia-se em factos verídicos ocorridos no século XIX, no meio da juventude boémia, mas intelectual, do Porto, da qual fazia parte o escritor Camilo Castelo Branco.

Retrata a vida de um jovem, filho dum oficial Inglês que se deixara envolver pelo amor; um amor intenso que lhe viria a provocar o fatalismo e a desgraça.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Omissão


Sento o aborrecimento num banco do jardim e despejo as sobranceiras para indagar o dia. Ao fundo da vereda, junto ao adro, o incauto fareja a omissão que o corja camufla nas palavras bonitas, "É para acreditar?", "Ó velho amigo, não sou o hipopótamo que se esconde na água", abraçam-se e dizem adeus. O tísico, de sorriso africano, desce as pedras e assim que me vê, "Olha, olha, quem descansa o corpo!", sorrio levemente, como se pintasse os dentes com ironia, "O que lhe queria o desnaturado?", "Pouca coisa", "Então pode esquecê-la. Nunca mais a vê", encarquilha a surpresa, "Aquele esputor! Não se pode confiar", e esbofeteia as pernas com as mãos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Adormeço o cansaço


A estrada é uma vereda sem rumo que abraça a língua da noite, perto do promontório florestal. Mas quando o cansaço me consome a vontade, pouso o esqueleto no asfalto e choro uma tonelada de aflições. Limpo as reminiscências com a mão trémula e olho para o rectângulo que serpenteia a montanha, "Nunca mais te apanho", e adormeço o cansaço.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Obrigado


Voei até ao mar azul, que rugia uns impropérios escabrosos. Depois lancei para o areal o bolo de aniversário, que os séquitos do mistério devoraram em dois respiros. Mas quando as migalhas descansaram na areia, os invisíveis abraçaram-me com palavras de felicidade. Sorri, chorando que nem cataratas, e agradeci o carinho desferido. Obrigado.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sugestão


Concerto
CASA DAS ARTES DE VILA NOVA DE FAMALICÃO
28 e 29 de Janeiro - Pedro Abrunhosa - 21.30h

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O tempo


As paredes da cidade pestanejam sonolência, porque a magia do horizonte faz sacudir o negrume dos fantasmas. Na consequência, as persianas dos rectângulos, que rasgam o dorso da preguiça, estragam o silêncio imaculado. E daí, com os cabelos ao vento, a curiosidade espreita o tempo. E o tempo, diz-lhe para vir.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ler


Um livro que gosta do Douro.
Um livro que conta a história do povo, dos seus trabalhos, dos seus amores, das suas tristezas, alegrias e dores...COISAS DA COISA, como só Miguel Torga sabe contar.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Vendem as próprias mães


Abro a porta da maravilha e cheiro a delícia do céu. E quando me debruço sobre o balcão, peço a vitrina para comer. Mas antes que o funcionário mova os músculos, dois indivíduos gesticam muito alto a sua razão, "Esta malta está toda passada, o que fazem para morder a fama!", "Vendem as próprias mães, camarada. Hoje é assim", rasgo o pacotinho de açúcar e despejo-o no leite castanho, "Para os corjas, os desígnios são conquistados sobre o tractor", "E quem não quer morrer, que fuja", enfim, a modernidade no seu melhor.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Para morrer é preciso estar vivo


O dia que parece noite sacode as gotas das nuvens como quem se liberta de uma grossa viscosidade. Estaciono o carro nos paralelos e voo para o abrigo do rectângulo. Sopro aí a humidade do casaco e olho o rio que atravessa a praça que nem gente, "Saem da frente, saem da frente", viro o corpo com um passo de dança desconhecido e salto para o lado quando dois gorilas de batas brancas ao pescoço empurram um moribundo sobre uma cama articulada, "Para morrer é preciso estar vivo", atira baixinho o desgraçado.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ler


O advogado José Alírio de Sousa, figura bem conhecida no Mindelo, morre subitamente no dia do seu aniversário. Decorriam os preparativos para a festa quando todos foram surpreendidospor este funesto evento. Tão inesperada foi a sua morte, que é o próprio Alírio a relatar-nos os acontecimentos do atribulado velório. O seu espírito, demasiado preso às coisas terrenas, vagueia pelas divisórias da casa onde viveu ouvindo e observando aqueles que acorreram a acompanhá-lo naquela longa noite. Cada familiar, cada amigo, cada conhecido, representa uma estória na estória doq eu foi a sua, apesar de tudo não muito longa vida. E é em recordação em recordação que José Alírio nos vai revelando a sua agitada e aventurosa passagem por este mundo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Homenagem


O pintor moçambicano Malangatana (1936-2011) morreu aos 74 anos, no hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, vítima de doença prolongada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Não perca a vida nos exageros


A chuva acelera a velocidade e o vidro do modernismo agarra-se ao medo, como quem perde a brutalidade. Apresso os movimentos dos macacos e o dia pardacento salta-me para os nervos, "Sai da frente, meu. Não tenho a tua vida", limpo a aflição da testa, "Andor, molenga. Sai da frente", e dou um bofetada no volante. Subitamente, da caixa com luzes, aviva-se uma voz, "Não perca a vida nos exageros".

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Adormeço


Antes de os galos acordarem a alvorada, o meu nariz espreguiça-se na varanda, a três pisos de altura do asfalto. Subitamente, no balanço ao lado, "Bom dia, vizinho. Como vai hoje surprender o mundo?", "Não me lembro de o ter feito alguma vez", "Anda distraído, homem", sorrio, "Vejo luz nos olhos, paz no pensamento e amor no coração. Não é para todos", arregalo a curiosidade do rosto, "É verdade, caro companheiro. Olhe, se todos tivéssemos essas características, a sociedade dormia melhor", e adormeço.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Nunca mais choveu


Depois da noite, os festejos adormecem ao relento, desejando que o ano traga sonhos embrulhados em realidades. Mas os sentidos bocejam um cansaço, porque as conquistas são esforços que massacram os corpos, "Eu sou um obstinado", diz um indivíduo, que se ergue da praça, "Parabéns, esquisito. Olha, eu esperarei que chova. É mais fácil", mas nunca mais choveu.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ler


Ter e Não Ter é uma história dramática de Harry Morgan, natural de Key West, e da sua luta para ganhar a vida e manter a família. Harry, dono e piloto de um barco de aluguer para expedições de pesca, é obrigado durante o período da Depressão dos anos 30 a traficar imigrantes chineses e bebidas alcoólicas ilegais de Cuba para a costa americana. As suas aventuras fazem-no envolver-se com gente abastada e dissoluta do mundo dos desportos náuticas, e viver uma estranha e improvável história de amor. Cruelmente realista, Ter e Não Ter, que retrata uma das mais subtis e comoventes relações amorosas de toda a obra de Hemingway, é uma grande romance de aventuras como só ele os sabia escrever.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Passagem de ano


Desejo-vos uma excelente passagem de ano

Tudo de bom ;)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Inevitável


Durante o bulício do mastigar, o telefone atira-nos um estremecimento que nos causa susto. Deixo cair a colher por isso, que embate com violência no lombo assado, e pinto sobrolho com nervos. Mas antes que a minha língua dispare uns impropérios azedos, ela ergue a surpresa e estica o braço direito para agarrar o telefone, que dança sobre o sofá de pele, "Estou sim, quem fala?", e vejo-a a enrugar a cara, "Estás a falar a sério? Estás a falar a sério?", e vejo os sentimentos a escorrerem pelas montanhas, "Porra, que munfo!", e atira o telefone contra a triste parede, "O que foi?", "Morreu quem não devia ter morrido", e desmaia.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Meia-noite


A lareira cospe-nos um calor agradável. Por tal facto, espreguiçamos umas teorias macilentas que se perdem na incompreensão, assim que as últimas palavras se atiram dos lábios para os ouvidos, ao mesmo tempo que a bola de pêlo sacode com a pata esquerda o sono dos olhos vermelhos. Na televisão, os corpos taciturnos deambula numa cidade sem amor, porque as mortes surgem a cada esquina. Mas assim que a meia-noite alerta o cuco, as nossas vontades atiram-se para a árvore de natal, que estica o medo no rosto, desligando a incompreensão do rectângulo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desejo-vos


Desejo-vos umas santas festas

E cuidado com os chocolates ;)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sugestão


Há cerca de dois anos, por alturas do centenário da morte de Hemingway, o seu filho Patrick decidiu publicar-lhe um romance inédito, ou melhor, pegou num manuscrito não revisto, com mais de 800 páginas, e fez dele uma versão reduzida. É esse inédito que agora nos chega em tradução portuguesa, e que dá pelo título de "Verdade ao Amanhecer".

É sabido que Hemingway trabalhava com grande rigor os seus originais e os reeescrevia por diversas vezes. Daí que a qualidade estilística deste romance não será certamente a sua melhor. Mas os temas essenciais que perpassam pela sua obra, sobretudo a dos últimos tempos, estão lá. Uma caçada ao leão na última das suas viagens à África Oriental, com a sua quarta mulher, Mary Welsh, em 1953, traz à tona um motivo que lhe é caro: o papel da violência na sobrevivência do homem, aqui no ambiente natural da caça, rito ancestral, de sangue e sobrevivência, que manifesta ao mesmo tempo um profundo respeito pela vítima, que coloca o homem e as suas fragilidades, mas também as suas forças, frente à morte. E ainda a camaradagem, a paixão pelo carácter forte, a admiração pela dignidade animal.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Despertadores atrevidos


Como é hábito, o despertador preto estremece a algazarra há hora habitual. Levanto a pálpebra do olho esquerdo e vejo o borrão vermelho a gritar comigo. Mas assim que a minha paciência se esgota, dou-lhe um murro no coração, que o faz esconder a gritaria no silêncio. Fecho a persiana e alargo o sorriso, ao mesmo tempo que o despertador do meu vizinho cospe-me com uma música deselegante, “Não tenho sorte nenhuma!”.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sentimento


Rastejo o cansaço pelos corredores abarrotados de cabeças, que salivam necessidades de consumir o que não precisam, mas não encontro o sentimento que desejo oferecer. Pouco depois, salivando desesperos, sento-me numa cadeira que pestaneja aborrecimentos. No mesmo instante, dois corpos muito desiguais calcorreiam devagar a cerâmica, “Sente-se aqui mãezinha. Está muito cansadinha”, “É verdade, menino, é verdade. Tenho o corpo que nem de um morto”, “Deixe-se de tontices, mãezinha. Olha, quer alguma coisa?”, “Um bolinho e um chã”, e desaparece, ao mesmo tempo que sorrio.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ler


Esta é a história de uma amizade que começa em 1987, quando o narrador, um jovem aspirante a romancista, parte para uma universidade do Midwest norte-americano e conhece Rodney Falk, um veterano do Vietname, intratável, ferozmente lúcido e corroído pelo seu passado. Mas esta é também a história de uma experiência radical no abismo indecifrável do mal e da culpa, que o narrador apenas conseguirá compreender e assumir anos mais tarde, como uma fulguração, quando conhece o sucesso e o que ele acarreta de corrupção. Será então que a figura vaga (confusa, imprecisa) de Rodney e a sua história devastadora acabam por se impor com a força e a emergência do necessário, como um marco da sua própria história e da própria condição humana.
Com uma escrita de uma transparência enganadora e um enredo que não dá tréguas ao leitor, A Velocidade da Luz esquadrinha a nossa capacidade ilimitada para causar estragos, a infinita estupidez da guerra e a infinita estupidez do êxito, mas, e sobretudo, o poder definitivo da literatura para enfrentar a realidade e os seus demónios.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Bagaceiro errante


Está um frio que corta pensamentos, nesta manhã sorridente. E pelo facto, entro numa pastelaria cheia de sonhos. Escolho um e peço um café, enquanto sacudo a manta que me arrefece. Subitamente, surge do meu lado direito um magricela, “Um tirinho, senhor”, a exigir ao funcionário. De nariz nervoso, o bom homem pega numa garrafa e despeja um liquido pestilento num copo, “Basta cheio”, atira-lhe o desdentado, “Aqui está”, e coloca-o sobre o balcão. E sem que nada fizesse esperar, arremessa todo o conteúdo à boca, num gesto de bagaceiro errante.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Amizade


A máquina de botões desliza a minha pressa no alcatrão que boceja. Porém, numa recta, junto a uma estação de serviço, reduzo a minha aflição até a estancar ao pé do vendedor de fruta, que bufa ventos nórdicos do corpo, “É o costume, caro amigo”, “Sim, sim, o costume”, e pousa-me um saco de maças nas mãos frias, “Quanto lhe devo?”, deixa cair um sentimento, “A tua amizade sentida”, atiro os cantos da boca para o paraíso, “Trouxe-lhe uma garrafa de aguardente”, e abraçamo-nos como infantes.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bicho com hábitos


Em cada esquina há uma sombra com asas, que nos morde a tristeza espraiada pelo corpo; em cada esquina existe um fantasma, que nos engana a sensibilidade com uma mentira interesseira. Porém, os corpos imaculados escorregam sempre o choro nessas águas, porque o corpo é um bicho com hábitos.