segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O peixe


Junto ao farol, vejo os peixes a morrerem nas canas dos pescadores, que borrifam impropérios para a maresia – como se fossem gritos de felicidade – e vejo as reminiscências do castelo nas pedras amontoadas com elegância, enquanto que as ondas me varrem os pensamentos sem sustento, provocando um bulício ensurdecedor sobre as rochas deselegantes. Subitamente, por entre o inferno das águas do rio e do mar, um peixe pardacento atira-se aos meus pés. Encorrilho o medo, “Não fujas, humano”, e arregalo a admiração, “Não morras na praia, porque tu mereces o céu”, e morre nas mãos de um bojudo, “Este é dos gordos, malta”.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A união


A solidão parece uma noite, quando ele acorda para o mundo. Porém, a bola de pêlo que mia, esgadanha a tempestade taciturna, como se procurasse o sol nas profundezas da noite. E como se o impossível navegasse no desleixo, o véu da felicidade beija o rosto do infeliz. E foram felizes para sempre.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Lembrem-se


Lá fora, o vento e a chuva cospem desesperos contra as fachadas, que são mais furadas que o queijo Suíço. Aqui dentro, o bafo de suão borrifa-me o rosto com vermelhos muito carregados. E é com esta carícia, que o meu corpo salta para a felicidade, que está abraçar o negrume dos taciturnos. Pouco depois, volto a sentar-me no sofá, abrindo desmedidamente os olhos. E deles recebo da caixa que fala a seguinte informação, “Não use só o natal para nos ajudar”.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ler


Neste livro o leitor encontrará um dos trabalhos mais importantes de Sigmund Freud, retirado da edição brasileira das suas obras psicológicas completas. O texto desse trabalho passou por uma nova revisão, a fim de se chegar o mais perto possível daquilo que seria o texto original de Freud. Além das notas escritas pelo próprio Freud, permanecem os comentários que trazem esclarecimentos importantes sobre a sua obra. O texto é apresentado numa nova diagramação, com o objectivo de tornar a obra de Freud mais clara e acessível ao iniciante ou ao leigo.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mãos sem amor


Coloco o corpo a deambular por entre as prateleiras de comida, que está empacotada em saquinhos de publicidade. Mas a minha mente obriga-me apenas a pegar no que preciso. Pouco depois, com o beiço satisfeito, largo duas notas no bolso da caixa registadora e abandono a estufa bilionária. E quando coloco a ponta do nariz na neve, várias mãos sem amor pedem-me conforto, “Levem tudo”, digo-lhes com suavidade, enquanto que os sacos voam para longe.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Atenção


A chuva fustiga os prédios, que dormem ao lado dos sonhos, enquanto que o rectângulo negro suga as memórias dos rios, como se a morte nos sugasse as forças.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Colaborador/a


“Precisa-se de colaborador/a. A entrevista é hoje”, ao lado do papel colado ao vidro, uma fila de olhos caídos seguram três folhinhas, “Já tenho estalactites no nariz”, sopra uma mulher, “E eu tenho os ossos congelados”, diz uma outra, “Podem ir embora, pessoal. Por hoje, terminamos”, vocifera o gerente entretanto, baloiçando as gorduras, “Vamos embora, tenho clientes para atender”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ler


"Quantas Madrugadas Tem a Noite" está destinado a ser um marco na literatura angolana e na literatura de língua portuguesa em geral. Com uma extraordinária mestria narrativa, Ondjaki conta aqui uma história em que não se sabe o que admirar mais, se a fulgurante imaginação do autor, se a sua capacidade para a criação de tipos e situações carregados de significado, se a sua capacidade para elevar a linguagem coloquial a um altíssimo nível literário. O humor, a farsa, o lirismo, a tragédia, o horror, todos estes sentimentos são aqui convocados e expostos, com a fluência de quem conta, simplesmente, uma história, na Luanda dos dias de hoje. Assim:
«Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.
Transformo só o material pra lhe dar forma, utilidade. O artista molha as mãos pra trabalhar o destino do barro? Eu molho o coração no álcool pra fazer castelo das areias em cima das estórias...Uma noite, quantas madrugadas tem?»

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Desacordo de velocidades


O despertador martela-me no sonho até o partir. E quando ele tropeça na morte, abro as pálpebras chateadas, como se a noite não jantasse com as estrelas, “Maldito”, e atiro-lhe com um murro. Guincha uma dor, embatendo no candeeiro, enquanto atiro o corpo para dentro de umas vestes novas. Depois, com a elegância a namorar-me o corpo, voo para o encontro de negócios. Porém, quando me sento na mesa de magno, o silêncio dos bancos mostra-me o desacordo de velocidades, porque as duas da tarde batem no cuco do café.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A dança do castanho


Desço até à garagem e agarro-me ao volante do carro. Depois, sopro para o silêncio a demência do meu atraso. Mas quando passo na praça do município, encosto o espanto ao passeio, porque a dança das folhas castanhas fazem-me lembrar os corpos dos velhos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Manifestação


Com os olhos inflamados de sono e com o cabelo a mordiscar a demência, abro a persiana do quarto. E quando a alvorada me barre o rosto com o creme do dia, vejo a praça abarrotada de cartazes e de vozes a declamarem exigências. Encarquilho a surpresa, vincando os vincos da idade, e sacudo o nevoeiro do olhar, “O roubo não pode continuar”, e vejo a frase a baloiçar sobre as cabeças aflitas, como se fossem lágrimas a brotarem da alma.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O frio


O frio de domingo agasalhou-me os pensamentos dos trópicos, como se o mundo andasse ao contrário. Ainda tentei socorrer-me do extintor que se cola à lareira, mas nem um risco lhe fiz no dorso. Porém, o fervilhar dos ossos mostrou-me a vereda das palavras, que serviram para desbloquear a solidão do romance.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ler


Furtado do espólio de Salazar aquando da invasão dos seus antigos aposentos no dia 25 de Abril de 1974, o manuscrito «As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia», escrito nos últimos anos de vida e doado pela própria à Casa de Bragança, em Lisboa, através da mão do chefe do Estado Novo, foi recuperado em Sófia, na Bulgária, na Comemoração do Centenário da República, por Miguel Real, que foi incumbido de o depositar na Torre do Tombo, já o tendo feito.

Neste manuscrito, a Rainha D. Amélia retrata a sua vida em doze pequenos capítulos, equivalente a um por cada mês do ano, organizados em quatro grandes partes, seguindo o ritmo das estações, da Primavera, na infância, ao Inverno triste da sua velhice. Um documento pungente, doloroso e comovente, fortemente crítico de Portugal e dos Portugueses, permanentemente iludidos pelas artimanhas de elites ineptas e ignorantes.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A fórmula mágica


Com o nariz congelado, compro um mimo com recheio. Saio do estabelecimento comercial e caminho nas memórias da cidade, com o coração a dançar satisfações. Porém, numa rua perpendicular à praça, um casal de namorados esbofeteiam argumentos, “Tu não prestas, Zé. És uma nódoa”, “Mas, mas…”, “E nem adianta falares, porque não vais mudar a minha opinião”, passo por eles, “Usem o diálogo para resolverem os problemas”, e atiro-lhes com as costas, como se não fossem dignos de olharem para as minhas íris, “Tem razão, obrigado”, dizem-me em uníssono. Viro o rosto e pisco-lhes o olho.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Saber não ocupa lugar


Dentro da noite, o Hércules sopra eloquências do púlpito, como quem troveja afirmações irrefutáveis. Rasgo o rosto com admirações, brotando da fonte dos sentimentos umas lagrimazinhas satisfeitas, e dilato os ouvidos para a eloquência, “E assim termino a apresentação”, diz por fim. Descoso as mãos dos bolsos e aplaudo a coragem do meu pai em voltar a estudar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Falta de gosto


Cheiro as roupas num pronto-a-vestir da minha rua. Mas o meu rosto deforma-se com desgosto, porque os trapos não passam de Outubros pardacentos, “Precisa de ajuda?”, pergunta-me o mar com a suavidade perfeita, “Não, obrigado”, e move o corpo com narcisismo. Volto a olhar para o arco-íris, “Precisa de ajuda?”, ouço subitamente, “De paciência, isso sim”.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Junto ao adro


Junto ao adro, sento-me num banco de pedra. Estico a preguiça como quem ofende a educação, mas repouso logo o esqueleto na inércia, porque saltam da esquina corpos com roupa, a dançarem uma volúpia exagerada. Os morcegos que empanturram a praça, olham para a passerelle, com olhos pardacentos e atentos, “Olha que vadias”, murmura uma esquelética, “Olha que beatas”, cospe-lhe a modernidade.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Paraíso


Um passarinho de bico achatado amolga-me o ombro esquerdo do casaco. Olho para o desconhecido e sorrio uma satisfação, “Trago-te uma mensagem”, diz-me. Encarquilho a surpresa, vincando a velhice, “Tu falas?”, “Trago-te uma mensagem”, chapino os dedos na testa, “Mensagem?”, “Sim”, “E de quem?”, “Da tua saudade”, arregalo a emoção, como quem abraça um dilúvio, “E o que diz?”, “Ela ama-te”, e o mundo atira-me com flores.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Enfim


Quando os sonhos não me trazem prazer, o meu espasmo salta para o silêncio. Depois, com os olhos a piscar um descontentamento, retiro os cobertores do corpo e coloco as pantufas nos pés. Arreganho a preguiça, como se libertasse a letargia do esqueleto, e ergo-me para a verticalidade com veemência. E quando abraço o silêncio imaculado, empurro o corpo para a sala, “A noite faz-me cada festa!”, resmungo um murmuro, enquanto coloco o corpo na pele do sofá, “Assim não pode ser”.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ler


Kenneth Trachtenberg, o narrador de Morrem mais de Mágoa, é um especialista em literatura russa que abandona Paris, a sua cidade natal, para ir ao encontro do tio.

Morrem mais de Mágoa tem o humor ágil da farsa francesa, mas são inseparáveis do seu enreedo tragicómico as análises engenhosas do autor sobre a vida moderna e o dilema de dois homens, cujos espíritos brilhantes não os salvam de Benn Crader, um botânico famoso. As muitas facetas da relação entre estas duas personagens inquietantes, irrequietas e excêntricas - ambas procurando no erotismo e num amor calmo, diverso das convulsões sexuais do século XX, resposta para a satisfação que os persegue - são o pretexto de uma narrativa cheia de humor e inteligência e sabedoria. Por que será que, quando surgem os problemas, as pessoas procuram em primeiro lugar o remédio sexual? Por que será que as pessoas inteligentes e dotadas se encontram invariavelmente atoladas numa miserável vida particular? Por que será que os sobredotados, os intuitivos, os que são capazes de ler no livro dos mistérios da Natureza, hão-de ser tão incautos e tolos?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Os loucos


A chuva tropeça na calçada e os cães amarrotam as sombras dos cantos. No castelo de tijolos, mesmo defronte às vaidades dos cemitérios, dois homens encolhem-se no rés-do-chão, espreitando a medo as lufadas da tempestade, que fustigam a cidade há meses. Mas sem que nada fizesse prever, atiram as roupas para o cesto das cascas e colocam a natureza a baloiçar na praça despenteada, como se agarrassem a liberdade dos legisladores.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As buzinadelas


Com os pés a nadarem na água quente, que enche a bacia de plástico, e com uma toalha a chupar-me o forno da testa, ouço as buzinadelas vitoriosas a varrerem o asfalto descontente, “Não se deve viver em função de um remate”, cuspo a afirmação. Entretanto, o meu prédio agita-se como as árvores em dias de tempestade, “Vitória, carago”, “Até os comemos”, que tem origem nos meus vizinhos do piso inferior, “Assim não nos salvaremos”, murmuro, enquanto que a luz artificial se esconde na noite.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ler


Recém-separado, Julio decide ocupar em segredo o andar vazio de um vizinho. Ao fazê-lo, irá gradualmente apropriar-se do universo do outro: das suas roupas, dos seus costumes, da sua visão do mundo, e da relação secreta que ele mantinha com a sua ex-mulher.Julio descobre uma nova vida, na qual a impostura se transforma numa nova consciência, que o fará encontrar a sua verdadeira identidade. •misto de estranheza e lucidez com que Julio vive a sua metamorfose, constitui o cerne desta história intensa e circular até ao mais ínfimo detalhe.


Em Laura e Julio, Millás retoma o registo narrativo do início da sua carreira, enriquecendo-o com o engenho e a surpresa das obras posteriores. Referência indiscutível do jornalismo literário e criador de novas formas de narrar, Millás é um dos mais notáveis romancistas espanhóis dos nossos tempo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Alvorada


Antes de os galos acordarem com a alvorada, eu espreguiço o esqueleto sorridente sobre a cama desgrenhada. Mas quando a anarquia pousa no sossego, atiro o meu corpo desgrenhado para a varanda. E debruçado sobre ela, olho para o camaleão natural, que pinta a cidade com cores dos vivos, e alegro-me como se estivesse a baloiçar no paraíso.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sobre as reminiscências


Com os olhos carregados de noite, a criatura das trevas calcorreia o dia como se fosse um prisioneiro. Porém, pouco depois, o desassossego imaculado embate na fragilidade de uma senhora de idade. Por causa do impacto agressivo, ela cai e estatela-se nas reminiscências do granito, sem a delicadeza pretendida, “Saia da frente, sua minhoca velha”, ela encarquilha o medo e sussurra-lhe, “Bruto”, a criatura incorpora a brutalidade, “Desapareça”, dá-lhe um pontapé, rouba-lhe o dinheiro da carteira e desaparece, com o corpo a passear na noite.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sinto-me frágil


A minha voz encravou-se numa constipação frágil. Porém, sinto-a e esgravatar no jorro ideológico, que por estes dias deambula no meu cérebro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Gáudio


Por entre os mármores dos ricos e dos pobres, a magote pousa o olhar na fotografia desbotada, que abraça os ramos de flores de várias cores. No púlpito, entalado naquele promontório, o pároco lança palavras de esperança, como se o mundo não tivesse amanhã. Porém, alheio aos silêncios e aos paraísos, um indivíduo de tenra idade vocifera que nem o Diabo, exigindo a Deus que lhe devolva a sua mãe. Encarquilho o descontentamento e lanço-me para o corja, "Ele não te ouve, meu caro, porque estão todos no gáudio, a comemorar a nossa presença nas memórias".

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ler


Neste romance, Coetzee oferece-nos uma profunda meditação sobre o que faz de nós humanos e o que significa envelhecer, reflectindo no modo como vivemos as nossas vidas.
Como todas as grandes obras literárias, O Homem Lento levanta questões mas raramente oferece respostas. Em consequência de um acidente, Paul Rayment altera a perspectiva que tem da vida e começa a dedicar-se ao género de preocupações universais que nos definem a todos: O que significa fazer o bem? O que é que nas nossas vidas é, em última análise, significativo? É mais importante que alguém nos ame ou que alguém se interesse por nós? Como definimos o local a que chamamos «casa»?
Na sua voz lúcida e firme, Coetzee debate-se com estas problemáticas.
O resultado é uma história profundamente comovedora, sobre o amor e a mortalidade, que deslumbra o leitor em cada página.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Saíam da Frente


Quando a necessidade me sacode a carteira, vou espreitar as montras que espreitam a alvorada a pentear a brilhantina do mar. Não tenho muita paciência para estes afazeres, mas há coisas que não podemos fugir. Porém, o meu desdém ao inerte é autêntico.
Subitamente, um trovão enrouquecido rasga-me o frete. Arregalo as dúvidas e viro o corpo para a estrada. Aí, a esbracejar gemidos dementes, um transeunte rebola dores junto às rodas do carro, que sacode os cavalos para uma nova aceleração. E depois desaparece, quando contorna o obstáculo moribundo. Fico perplexo pelo gesto, mas alguém me sussurra aos ouvidos que nas ruas correm elefantes sem olhos.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

José Cardoso Pires


Faz hoje 12 anos que o José Cardoso Pires faleceu. Por tal facto, coloco os joelhos no sobrado e espirro desilusões, porque a literatura portuguesa desde então não é a mesma.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Carinho


O quarto está escuro e o telefone está silencioso, mas eu grito surdamente um nome que dorme por entre os trópicos. Páro a anarquia escondida e repouso sobre a noite. E de repende, como por magia, o mar lembra-me que o carinho é a sobrevivência da alma.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ler


A cidade foi crescendo para as margens e os blocos de vidro e betão ceifaram as moradias e os quintais dos arrabaldes. A casa do narrador - casulo protector cheio de passado - é, na verdade, a única que resiste, mas está irremediavelmente condenada à extinção.

Enquanto recebe a visita da agente imobiliária que se ocupará da venda, este homem adulto e sozinho recorda o que foi a sua vida nesse refúgio - a superprotecção das mulheres, o carácter fantasista e megalómano do pai, a relação simbiótica com a irmã, as atitudes intempestivas do tio mulherengo mutilado na guerra colonial que ensaiou o próprio velório aos vinte anos, a loucura do professor que lhe dava lições particulares.

Nenhuma das suas figuras de referência o preparou para a emancipação - todas, pelo contrário, o incompatibilizaram com a vida comum. E, porém, Vergílio não está só no seu destino, porque a recapitulação dos dramas vividos pela sua família de geração em geração é, afinal, o eco do drama colectivo da Humanidade - e, ao mesmo tempo, um abrigo espiritual que substituirá a casa que está prestes a abandonar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Teatro


‎"O PORTUGUÊS VOADOR", para o dia 22 já está esgotado. o nervoso aumenta ;)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Agarra-te à vida"


Os meus dentes tremem de frio e o meu ranho são estalactites dentro da gruta que respira. Todavia, a minha massa sem pensamentos flanqueia a dança do frio, nesta praça com noite. Sensivelmente a meio da solidão, salta-me à vista um papel que se espreguiça ao lado da estátua insolente. Travo o movimento até o estancar e depois apanho o mistério, desdobrando-o, “Não vagueies no incerto, transeunte. Agarra-te à vida”.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Português Voador


Não se esqueçam de aparecer. Ah, e tragam um amigo também ;)

O cubo com palavras


Os cubos revestidos a palavras adormecem no passeio, quando a noite lhes cobre com o algodão os lombos com histórias. Olho para eles e prolongo o canto dos lábios até estes tocarem nas pontas macias das orelhas, ao mesmo tempo que conduzo a máquina com botões, numa veemência que faz lembrar um avião.
Depois de arrastar as árvores da praça com a minha correria diária, pouso o cansaço nos lençóis. E antes de adormecer, a porta do meu quarto estremece ligeiramente, “Sim”, digo, e ela abre-se. Mas a escuridão transforma a massa num mistério, “Quem está aí?”, a coisa mexe-se um pouco e esgravata na parede. Encarquilho a preocupação, com os ouvidos a cheirar o ar. E do ar, a luz do candeeiro rasga-me as sensações, “Olá filho, tens aqui uma caixinha com palavras”, e ergue-me o sentimento. Arregaço o choro e atiro-me ao meu amor para o beijar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Penafiel


Este fim-de-semana a magia da Agustina Bessa-Luís esteve em Penafiel, acompanhada por quem a ama e por quem admira. É certo que ela não esteve presente, pois as doenças são despegos das vontades, mas o calor das suas palavras espalharam-se pela cidade e pelas tertúlias, realizadas no magnifíco museu, que foi desenhado ...pelo saudoso Fernando Távora.
Um bem haja à organização. E que venham mais Escritarias.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ler


Juan José Millás actua neste livro como um mestre das distâncias curtas. Cada um destes textos, breves como um clarão, ilumina um segredo, revela um mistério, provoca uma pergunta. Todos, sob essa escrita rigorosa e veloz, escondem uma surpresa. Inimitável mistura de humor, pânico, ironia, nessa atmosfera entre realista e onírica que caracteriza a escrita de Millás. O misterioso espreita-nos ao virar da esquina, no interior de nós próprios. Mulheres grandes que sonham com homens diminutos. Manequins que transpiram. Frangos que vão do mercado para casa, mas que jamais aparecem na mesa. Mentiras que se transformam em realidades inexplicáveis. Fósforos velhos que iluminam salas antigas. Pequenos mal-entendidos que dão lugar a perguntas fundamentais. Delírios sensatos. Bom senso delirante… Este é o mundo de Juan José Millás.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Beijos


Na praia, as ondas bailam com as gaivotas uma valsa perfeita. Ao lado, a maresia assiste maravilhada, agarrada aos silêncios para saborear o momento. Mas dentro daquelas pedrinhas, que se encostam ao restaurante dos ricos, duas criancinhas comem cabeças de sardinhas, sem o mimo de uma mão protectora.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A NOITE COM EXPLICAÇÕES


A noite vai alta. Está mesclada com muitos pontinhos branquinhos, que parecem miminhos do dia à noite. Mas os meus passos são facas que desvendem segredos. Por isso, salta do incerto um algodão pardacento, como se fossem bafos de explicações da união. Abrando o passo e estanca-o, quando o trovão rasga a dor com beijos e ouve-se o murmurinho do amor a baloiçar.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Talvez


Da morte nunca ninguém voltou. Talvez seja um sítio sem saída. Ou talvez tenha, e várias, mas a solidão dos mórbidos talvez cegue o instinto. Gostava de a conhecer. E também gostava de voltar para te contar como se deambula por aquelas veredas, como se palra por aquelas praças. Porém, tenho medo de deixar os meus ossos no depósito ignoto e de nunca mais voltar, porque os sorrisos do respiro são como namoros imaculados.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tu estás aqui


Resguardado sobre a escuridão do quarto, penso no rio com margens de amor, como se não houvesse nada mais formoso do que o sentimento imaculado por um perímetro tão divino. Verto sensibilidades que nem o poeta moribundo e agarro-as com os braços dos beiços, que se esticam para lá do possível. Pouco depois, quando o deserto sacode a humidade, pouso o turbilhão de ideias no lençol que me ama e adormeço, “Tu estás aqui”, de sorriso preso no teu olhar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ler


Uma mulher cai do céu durante uma tempestade tropical. As únicas testemunhas do acontecimento são Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e a sua amante, Kianda, cantora com uma carreira internacional de grande sucesso. Bartolomeu esforça-se por desvendar o mistério enquanto ao seu redor tudo parece ruir. Depressa compreende que ele será a próxima vítima. Um traficante de armas em busca do poder total, um curandeiro ambicioso, um antigo terrorista das Brigadas Vermelhas, um ex-sapador cego, que esconde a ausência de rosto atrás de uma máscara do Rato Mickey, um jovem pintor autista, um anjo negro (ou a sua sombra) e dezenas de outros personagens cruzam-se com Bartolomeu, entre um crepúsculo e o seguinte, nas ruas de uma cidade em convulsão: Luanda, 2020.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Lembra-te


Não tenhas medo, navegante do mundo. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O frio


Sinto o cheiro do frio a morder-me as carnes estremunhadas, como se fossem navalhas a dilacerarem-me as vontades. Mas os cobertores da cama abraçam-me a pele de galinha, transformando o meu desespero numa memória muito verde. Sorrio, dando pulinhos muito estridentes e muito pequeninos, pelo facto, que nem um infante lançaria ao ar, caso recebesse um presente desejado, e depois vem-me à lembrança uma frase, “E se eu me ocultasse do mundo?”

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os berros


‎"heróis do mar...", grita o meu vizinho, no andar de cima, enquanto que a sua mulher cospe-lhe uns impropérios como gente grande. São um casal esquisito, porque as gritarias são a única forma de amarem o invisível. Mas quem sou eu para lhes criticar os gestos? A democracia baloiça por aí, é certo, mas não podemos meter... a colher nos defeitos dos outros, quando as nossas sujidades transbordam misérias. "...nobre povo...", continua o desgrenhado a berrar, "Seu filho do diabo, vai trabalhar que bem precisas", atiça-lhe a metade do seu desassossego.
"Contra os canhões, marchar, marchar", e depois atira um vivas para a República, como se fossem beijos muito húmidos, "Vai trabalhar, seu grande bói", "Irei a correr, mas antes vou ao escrutínio colocar a minha sugestão", "Ah, está bem", sinto-a cuspir para o chão, "Olha, escolhe o B. O tipo parece ser de ferro".

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O dia


Da janela do meu escritório, vejo as árvores a passearem-se no ar, como duas pombas a namorarem uma discussão. Encarquilho as interrogações pelo fenómeno, mas antes que suspire alguma explicação filosófica, vejo uma moto a gritar por ajuda, seguida pelo dono, que baçoiça um vómito muito azedo. Fico perplexo pel...o surrealismo dos objectos e ergo-me para o peitoril. Aí, com a ansiedade a saltitar nos dedos, arrasto o vidro para o batente. Mas antes de pronunciar um bulício, as lufadas arrastam-me para o incerto.Ver mais

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Estás aí?


‎"A minha alma não é imaculada", troveja o Deus dos loucos, "Mas a minha também não é", sorri o Deus dos calmos, como se a primavera bordejasse o inverno, "Não é? Então quem se agarra à puridade?", "Os camaleões, quando lhes interessa".

Ler


Uma fábula contemporânea e intemporal, um livro sobre vidas em “deriva”, à beiar da catástrofe. [...] A escritora, um dos nomes de referência da Literatura Portuguesa, Prémio Camões 2002, retoma as linhas de uma narrativa marcada pela diversidade linguística e cultural e por um poder ficcional magnífico [...]»JL

«Não há certamente na literatura portuguesa um exemplo tão extremo de carnavalização das linguagens. Mas o seu alcance não é – não poderia ser – meramente formal. O delírio, é também o do mal, em cujos territórios inauditos se aventura este romance desde a primeira página, segundo uma lei que é repetida como uma estribilho: “O sangue puxa o sangue”.»António Guerreiro, Expresso

«A descoberta do amor humano é um assombro, e Maria Velho da Costa prepara o ritual de iniciação com vagares narrativos e uma educação cinéfila que lembra inequivocamente João César Monteiro.»Pedro Mexia, Público