segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Biblioteca que Arde

Os dedos das pessoas chupam o saber que lhes passa na vida. Quando o dono deles dá o último suspiro, há uma biblioteca que arde.  

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

SIMPLES

Quase ninguém repara em ninguém. Em parte porque o espaço que nos circunda está cheio de chamadas; o ser humano, longe do que se pensa, é o que menos se nota no mundo.

MEMÓRIA

A memória é uma armadilha que altera, e subtilmente reorganiza o passado, por forma a encaixar-se no presente.

FÉRIAS

Chegam dias de férias. Uma boa ocasião para vermos fábricas de dívidas a passearem-se em águas turvas. De desastre em desastre, não aprendemos com os erros.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

TARDE

A tarde começa a sair do céu. E no azul pardacento existe duas linhas brancas a rasgar o norte. Perto delas há pássaros com asas abertas. Debaixo deles existem braços e pernas a mexerem-se com veemência, com intuito de expelir a tristeza e colocar a mente em cima dos ombros. O ritmo é dado pela música louca, por vezes tresloucada, por vezes diabólica. Por fim, tudo termina. Mas tudo recomeça quando a noite lambe a periferia das estrelas.

Simples

Olho para a multidão que aponta os defeitos dos outros e conheço o inferno.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

SIMPLES

O uso e abuso das estratégias utópicas, leva a coser remendos em fatos que não vestem ninguém, ou, até, a empreender lutas que provocam estragos dificilmente reparáveis.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

EXCERTO

(excerto em bruto do texto que escrevo...)

O Zé da Tina assoa o nariz. Como há manchas vermelhas na manga do pijama e no bordo do lençol e muco na gola e resquícios no queixo, o meu nariz fica enfastiado. Engulo o vómito que ele me provocou e tiro o suor da testa. Ele chupa-me o sentimento. Por isso, as mãos dele procuram nojo nas partes ocultas. O embate torna-se inevitável. A sequela disso é irracional porque os braços parecem hélices com nervos nas pontas. Perto do fim, um pedaço gordo desprende-se da mão. Faz uma viagem sem turbulências, sem desvios, e aterra, com distinção, nos cabelos dos Carga de Ossos. Fico mudo, mas os ouvidos fotografam a voz do vulcão que expele montanhas para o Zé da Tina. A cama articulada é por isso uma base murcha, com água a circular pelo meio. Para evitar anomalias no futuro, coloco o corpo a fazer de muro e atiro placidez aos nervos. Eles cospem-me impropérios, lançam-me farpas e amansam quando insisto. Porém, dizem à tristeza que, para a próxima, o guarda-chuva será aberto porque não querem ter mais bronquite no cabelo. O tiro foi doloroso. E o Zé da Tina, com o peito ferido, enrijece os músculos. Depois dá pinchos histéricos, dá bofetadas a tudo e dá nervos à língua. Quando os dentes perdem a força, há palavras que são armas e há frases que são bombas: “Cabeças de arroz”, “Formigas caquécticas”, “Vou enfiar-vos o guarda-chuva no olho do…”, “Chega”, grito-lhe, “Chega. Ouviste? Chega. A discussão termina agora”, e olho para os Carga de Ossos. O peso da ordem submete-os ao pudor camuflado pelo cabelo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

BANHO DE LÁGRIMAS

- há uma tempestade de lume a mastigar as árvores
os arbustos
as flores
os animais
há uma tempestade de lume a chafurdar-se no grito das pessoas

- há lenços negros junto das estrelas
há pontas de medo a correr nas veredas

-quando a alvorada estende o lençol
a aldeia é um monte de cinzas e o futuro é um banho de lágrimas

terça-feira, 7 de julho de 2015

CIRCO

Em cima da erva, o Victor Hugo Cardinali brinca com os leões. À volta, os meninos, sentados nas bancadas, mastigam alegrias e os pais escondem os ouvidos. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

TRIO MARAVILHA

O trio maravilha passeia-se pela cidade e cumprimenta, com o chapéu, todos os desconhecidos. Alguns deles dão asas aos lábios porque o gesto dentro daquela indumentária alcança a comédia. Mas a sinfonia azeda que advém daí não lhe retira a simpatia. Por fim, a noite cai. E as ruas perdem uma amostra da bondade.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

ORGÂNICO - Poesia

Alguns comentários à obra:

Resenha de leitura do livro de poesia "Orgânico"
Comentário de "uma leitora atenta, que não conhece nenhum dos envolvidos nesta publicação, e comprou o livro através do Facebook"
"quanto ao poeta mais novo, Silvio Silva, me surpreendeu pela poética inovadora que, situando-se no presente, nos abre caminhos de futuro. Para lá da preocupação social revelada num “tom inconformista” no dizer do prefaciador, Dr. Luís Quintino, Sílvio Silva, revela uma enorme preocupação pela arte de dizer, recorrendo a imagens e metáforas onde cada palavra é um signo indissociável do seu significante e significado, remetendo-nos para leituras várias e contundentes: “a penúria levantase/ergue-se a fome”, “os olhos fazem chuva/a morte tritura-lhe a mente”, “a meio do vidro/há um clamor gordo”, “olhos largos/ouvidos abertos/bocas impacientes”, palavras carregadas de sentidos, que fora do contexto podem parecer absurdas, mas contextualizadas no espaço dos poemas ganham força e interpelam o leitor. Como diz Blanchot: « Écrire, c’est entrer dans l’affirmation, c’est se libérer au risque de l’absence de temps où règne le recommencement éternel.»/Escrever, é entrar na afirmação, é libertar-se do risco da ausência do tempo onde reina o recomeço eterno. Maurice Blanchot, “L’Espace Littéraire”, Éditions Gallimard, 1955 "
Rendido ao poeta e ao comentário... Dá vontade de entrar por lugares-comuns e dizer: uma lufada de ar fresco no panorama literário ...


segunda-feira, 15 de junho de 2015

NOITE

Há um abraço apertado a unir monstros pretos que estão na pele dos corpos. Perto disso estão olhos duros, que vertem ciúmes para cima do rosto. Em frente, uma rua. Uma rua sem carros nem pernas, porque o relógio tem dedos em números nocturnos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

RUA

No centro da rua estão motores empenhados. Perto deles estão cabeças a gritar. Felizmente, o vidro esconde uma parte dos nervos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

ORGÂNICO

Aqui ficam os registos fotográficos do lançamento do projecto de poesia em livro "Orgânico".
Cinco poetas juntaram-se para reflectir sobre temas sociais como a fome, a pobreza, o desemprego, as desigualdades sociais, a emigração, a igualdade de género, a ecologia, os desmandos dos mais poderosos e da política.
Todas as receitas da venda são para distribuir por instituições com provas dadas no combate a estes flagelos. Através da palavra, pretendemos ter um papel vivo e actuante e não ficarmos indiferentes à dor e ao sofrimento humanos.
O PVP do "Orgânico" é de 10 €. Na medida em que a colocação do livro em loja importaria que quase nada sobrasse para entregar às instituições, estamos a fazer a venda directa.
Peço a tod@s @s Amig@s que não fiquem indiferentes a este projecto solidário e que, por mensagem privada, me contactem para adquirir o livro. Nós suportamos o custo do envio.
Vamos a isso? 


no meu caso, o valor angariado vai para: http://www.oscsilviacardoso.pt/


segunda-feira, 18 de maio de 2015

VITÓRIAS E DERROTAS

O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

SIMPLES

Tchékhov disse que para um escritor as perguntas são mais importantes do que as respostas. Tem razão. As pessoas que têm muitas certezas estão sempre a tentar mudar os outros enquanto que as que não têm tantas certezas procuram transformar-se a si mesmas.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

PODER

O menino de boas famílias que não sabe pensar, mestre em lisonjear o poder, acima de tudo com o seu silêncio, vestido como deve ser, nunca levanta a voz, e um dia aparece rico, num cargo de poder, onde serve zelosamente.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

AMAR

O amor não resolve nada, mesmo nada, porque é pessoal, e alimenta-se das palavras mansas e do respeito mútuo. Por isso não transcende para o colectivo. Mas andamos há mais de dois mil anos a dizer que é importante amarmos uns aos outros. Serviu de alguma coisa? O mundo está melhor?    

segunda-feira, 27 de abril de 2015

DEGRADAÇÂO

Assistimos à degradação humana sem carregar no travão. Por isso, hoje já ninguém pergunta como vai a tua vida, ou quais são as tuas ideias. Hoje, infelizmente, todos perguntam quanto ganhas, de que cor é o teu telemóvel, da tua gravata, do teu casaco, ou qual é a viagem que vais fazer no próximo mês.